Entrevista

“Para vencer no basquetebol moderno é necessário jogar com intensidade”

Anaximandro Magalhães

Jornalista

Segundo o treinador, fazer as mesmas coisas levará a obtenção dos mesmos resultados. Logo, mudar é necessário para serem atingidos outros níveis, sobretudo mais elevados em comparação com os alcançados nas épocas anteriores

31/10/2022  Última atualização 13H39
Timoneiro tricolor, à esquerda, exibe com o vice-presidente do clube e do treinador adjunto o troféu do Campeonato Nacional sénior masculino conquistado de forma imaculdada © Fotografia por: DR
Dois anos depois de ter desembarcado na capital angolana, para treinar a equipa sénior masculina de basquetebol do Petro de Luanda, com a qual se sagrou bicampeão nacional sénior masculino de basquetebol, José Neto, técnico de 51 anos, nacionalidade brasileira, falou sobre todos os temas da actualidade da equipa. Na primeira entrevista exclusiva, concedida ao Jornal de Angola, o técnico falou sobre o que precisa de ser feito para, pela primeira vez, ser erguida a taça da Basketball African League (BAL), única prova em falta no currículo desde que se transferiu para o país, proveniente do Hokkaido do Japão. Segundo o entrevistado, "para vencer no basquetebol moderno é necessário jogar o tempo todo com intensidade”,

A qualidade do basquetebol praticado, actualmente, no país, as saídas do plantel de jogadores bem referenciados, como são os casos de Olímpio Cipriano e Leonel Paulo, também mereceram respostas do técnico que pede avaliação ao trabalho ao invés dos resultados alcançados tendo como epicentro, a conquista de troféus. José Neto deixou ainda elogios a Raul Duarte, seu actual adjunto.

 

 Treinador José Neto, em dois anos ganhou tudo em Angola. O que o motiva a continuar?

José Neto - Tenho como propósito trabalhar para buscar sempre a excelência, e criar nas minhas equipas uma mentalidade vencedora. O trabalho do treinador tem de ser sempre visando a vitória. O treino realizado no dia-a-dia tem como objectivo melhorar a equipa, com a finalidade de vencer. Quando se atinge este pressuposto, naturalmente um sentimento de satisfação fica presente. Eu, particularmente, tento substituir a satisfação pela felicidade. Sempre podemos melhorar, o mínimo que seja, pode ser importante.

 

E sente-se satisfeito?

JN - A satisfação é um sentimento capaz de nos levar a uma zona de conforto muito prejudicial para qualquer pessoa. Tento passar esta maneira de pensar ao meu grupo de trabalho (atletas, pessoal de apoio e gestores), de modo a termos atitudes coerentes com este pensamento. Desta forma os desafios sempre estarão presentes, independentemente, das conquistas passadas. Isso serve de motivação para tentar vencer o próximo desafio.

 

Como avalia a competição nacional?

JN - Tendo como referência as últimas épocas e, sem desmerecer as outras equipas, internamente, três jogam para a conquista do título. Qualquer outra que não seja Petro, Inter e D' Agosto será uma surpresa. No Nacional participam 13 formações, poderíamos ter uma competitividade maior, pois no país, o basquetebol é uma das modalidades de referência. Esta época, as equipas vão tentar ser melhores e a expectativa é de uma temporada bem difícil.

 

E como se pode melhorar e aumentar o número de candidatos à conquista do título?

JN - Sobre isso, tenho outros pensamentos de como se pode melhorar a competição nacional, mas prefiro discutir num fórum adequado, onde possa me expressar melhor e argumentar com quem realmente pode colocar estas ideias em execução, no caso a Federação Angolana de Basquetebol (FAB), e os clubes.

 

Tem sido relativamente fácil ganhar?

JN - Nunca foi fácil ganhar uma competição de nível nacional, ainda mais num país que respira basket. Avaliar somente os resultados finais pode ser uma análise muito medíocre e pobre. Tem que se avaliar o trabalho realizado, a mudança de mentalidade, o comportamento e aspectos ligados ao trabalho. O que deveria ser colocado em questão não é o resultado em si, mas PORQUÊ E COMO, isso está a acontecer nas últimas épocas com o Petro. Estamos a trabalhar. As modificações não podem ser apenas momentâneas. Para mudar um comportamento, e para que a alteração seja permanente, é necessário mudar a mentalidade. Quando falo de mudança de mentalidade não é somente entre jogadores e treinadores, mas de todos os intervenientes no trabalho. Estamos a fazer modificações gradativas. Para se ter uma ideia, esta época mudamos 50 por cento da equipa (seis jogadores), além de algumas situações na equipa técnica. Isso mesmo pelo facto de o Petro ter conquistado, praticamente, tudo na última temporada. As mudanças sempre são necessárias quando pensamos em ser melhores. Fazer as mesmas coisas nos leva aos mesmos resultados, mas sabemos o que queremos e precisamos de dar um passo a mais. Temos todo o apoio do clube, principalmente, do incansável Dr. Anselmo Monteiro, vice-presidente para o basquetebol, ele faz com que as coisas sejam possíveis. Portanto, gostaria muito que fosse analisado o trabalho e não os resultados.

 

 A entrada, em 50 por cento, de novos jogadores no plantel, pode hipotecar o objectivo de ganhar todos os troféus esta época?

 

JN -  Se fizermos as mesmas coisas, teremos os mesmos resultados. Logo, mudar é necessário, pois precisamos atingir outros níveis, mais elevados em comparação com os atingidos nas épocas anteriores.

 

Que avaliação faz da qualidade do basquetebol angolano? E dos jogadores?

 JN- Basquetebolísticamente, os atletas angolanos têm um potencial incrível! Vejo muitos jogos dos escalões de formação e aí existem muitos com potencial e perfil de alto nível para o basquetebol moderno, ou seja, jogadores físicos e com possibilidades de serem versáteis. Porém, para que isso se concretize, se torne realidade, é preciso ter mais atenção e dedicação à formação. Estamos a tentar fazer isso no Petro. Além do mais, como já disse anteriormente, tenho outras ideias para o desenvolvimento do basket, já tive experiência em outros clubes do Brasil e em selecções, mas prefiro discutir isso noutro fórum, onde possa expor com mais dados e argumentos.

 

Qual tem sido a equipa mais difícil de defrontar?

JN - Nos últimos anos jogámos duas finais do Campeonato Nacional e enfrentamos o mesmo adversário, o Inter. Foi um dos mais difíceis de enfrentar pela variedade táctica e técnica que nos impôs.

 

Agora quer Interclube quer  1º de Agosto serão treinados por novos profissionais, o que se lhe oferece dizer so-bre ambos?

JN -  As equipas estão também  a mudar para tentar melhores resultados. Temos que continuar focados no nosso trabalho, visando crescer e superar as dificuldades apresentadas, independentemente do adversário.

 

Da filosofia que implementa nas suas equipas, que treinador angolano mais se identifica consigo?

JN - Sem dúvida nenhuma, o Coach Raul Duarte. Por este motivo, quando o Petro, através do Dr. Anselmo Monteiro, viu a possibilidade de agregá-lo à equipa, logo que se desligou do Interclube, assim o fez. É um treinador estudioso e procura constantemente actualizar os conhecimentos. Sabe estar, ou seja, sabe muito bem qual é o seu papel e como pode contribuir para o desenvolvimento da equipa. E claro, tem grande experiência como treinador de alto nível em Angola.

 

Na primeira edição da Basketball African League (BAL), o Petro de Luanda terminou em terceiro, e na segunda, no lugar citado, o que tem faltado?

JN - Numa competição como a BAL é importante valorizar cada momento. Como se ouve muito, ultimamente, em todos os ambientes do basket africano: "Não é fácil chegar a Kigali”. A fazer menção ao local onde se jogam as finais da BAL

Temos não somente chegado até lá, mas também conseguimos chegar às finais desta difícil competição. Há uma linha muito ténue entre chegar e ganhar. Neste momento, o detalhe faz toda a diferença. Estes pormenores não são so-mente na hora do jogo, mas também na construção da equipa no dia-a-dia. Criar hábitos que, no momento decisivo, irão estar presentes. Então se chegámos a Kigali e às meias-finais, se ganhámos a meia-final (aconteceu na última edição), nos resta dar mais um passo. Isso tem de estar muito claro. Este passo não é fácil de dar, antes dele, temos de voltar a dar todos os outros. Isso chama-se CONSISTÊNCIA. Na minha maneira de perceber o basket é o que faz toda a diferença. Esta consistência não é só na maneira de jogar, mas de fazer todas as coisas dentro e fora do campo serem de excelência. Temos de fazê-las melhor para que o último passo, o da consagração, seja dado. Nesta época estamos a trabalhar focados nisso. Isso não nos garante que vamos dar este passo, mas com certeza, se assim o fizermos, teremos mais possibilidades de dá-lo.

 

É nessa perspectiva que foi contratado o base  Souleyman Diabaté?

JN - Diabaté é um jogador, que no continente, tem agregado valor às equipas onde joga, assim como na sua selecção. A única selecção africana já qualificada para o Mundial, antes da última janela FIBA, é a Costa do Marfim e tem Diabaté como uma de suas referências. Na primeira edição da BAL, ele fez parte da equipa campeã, o Zamalek. Na segunda edição jogou pelo Monastir. Portanto, o Petro busca agregar valores à equipa que têm um histórico recente de êxitos.

 

Com a chegada de Diabaté, depreende-se que Childe e Gerson Domingos, não serviam, só ambos, para as encomendas?

 JN - Para vencer no basket moderno é necessário jogar com intensidade a maior parte do tempo e com a maior qualidade possível. Desta maneira, se pudermos ter jogadores capazes de oferecer isso a equipa, iremos buscar. Childe e Gerson são, actualmente, os bases da Selecção Nacional e têm seus valores, assim como Diabaté. Temos outros jogadores em outras posições, eventualmente os melhores do continente, e em algum momento terão que estar fora do campo. Por isso, temos 12 atletas. Se pudermos ter os 12 melhores, assim faremos, de modo a ter maiores possibilidades de ser a melhor equipa.

 

Quais as outras posições a serem reforçadas? E quais as nacionalidades dos atletas, de certo já referenciados?

JN - Ainda estamos no início da época e estamos a avaliar estas necessidades. Num momento oportuno iremos ter estas decisões tomadas, que com certeza o Petro irá atender estas solicitações.

 

O Yanick Moreira é um dos jogadores que pode reforçar a equipa na BAL?

JN - O Yanick é um jogador que gosto muito e nos ajudou muito a conseguir os êxitos da temporada anterior. Infelizmente, tem um contrato vigente com um a equipa da Grécia e com condições que não nos permitiram que continuasse connosco esta época. Quem sabe num futuro próximo. Fica aqui a gratidão e o desejo de boa temporada ao Yanick.

 

Jogar a BAL tem sido difícil?

JN - Muitas coisas sobre isso estão contempladas nas respostas acima. Porém, posso agregar que é muito difícil por se tratar de uma competição onde todas as equipas chegam por mérito. Para chegar é necessário ser campeão nacional (seis equipas de África) ou então ter-se qualificado pela Road to BAL, um apuramento com 26 formações, onde se apuram apenas seis para completar as 12, e assim jogarem a BAL. Portanto, actualmente, o Petro é a segunda melhor equipa de África, além dos prémios individuais de me-lhor treinador (José Neto), Childe e Abou fazem parte do melhor quinteto defensivo da prova e Carlos Morais íntegra o "cinco” ideal. Além de outros números de destaque alcançados de forma colectiva. Tivemos o melhor ataque e uma das melhores defesas, assim como fomos ainda uma das primeiras em assistências e eficiência.

 

Há possibilidade dos moldes de disputa da prova sofrerem alteração, jogando somente atletas abaixo dos 35 anos, agrada-lhe?

JN- Penso que poderia ter uma mescla. Ou seja, possibilitar um número mínimo de jogadores acima de 35 anos e assim poderíamos fazer esta transição de jogadores jovens a aprender com os mais experientes.

 

Ir ao mercado contratar atletas a menos de um mês, para r a BAL, tem sido prejudicial?

JN - Estamos a usar uma possibilidade que nos dá a BAL, mas não temos a mes-ma contemplação no Campeonato Nacional. Por isso, temos pedido à FAB a permissão para as equipas terem mais jogadores estrangeiros, já que o Nacional permite inscrever apenas dois estrangeiros e a BAL quatro. Mesmo assim, o Petro está a tentar fazer o melhor com estas possibilidades. Na época passada, por exemplo, fomos a única equipa até à fase de qualificação para as finais da BAL com todos  os jogadores nacionais. Somente Anderson Correia, cabo-verdiano, que fez parte do grupo. Todos os demais, atletas angolanos.

 

Você foi eleito melhor treinador da BAL, mesmo sem  se ter sagrado campeão africano. Sente enorme honra e reconhecimento ao seu trabalho?

JN - O reconhecimento do trabalho é o maior estímulo que pode ter um trabalhador. Seja qual for a profissão. Ter sido o primeiro treinador da história da BAL a receber o prémio deixa-me muito feliz e motivado para seguir em frente. Mais feliz ainda, porque esta foi uma escolha em que votaram todos os treinadores, jornalistas e pessoas da BAL, ou seja, pessoas que estão directamente ligadas ao trabalho e tem parâmetros concretos para se fazer esta escolha. Fica aqui o meu agradecimento, primeiramente, a Deus e a todos os que me permitiram conquistar este prémio. Mas, principalmente, à minha equipa, que sem ela seria impossível este feito.

 

Por que razão, Leonel Paulo e Olímpio Cipriano saíram da equipa?

JN - Antes de mais nada, são jogadores bem referenciados do basket angolano e merecem todo o respeito. Somos gratos pela dedicação que tiveram nesses anos ao serviço no clube. Todos nós, que vivemos no desporto de alto nível, temos contratos e num dado momento terminam e são reavaliados (passam por avaliação dos interesses do clube). Desde que cheguei, dez jogadores já não fazem parte da equipa. É uma situação normal em todo o mundo, com jogadores e treinadores. Há um ciclo que se inicia e se encerra. Mas não podemos deixar de ser gratos por todo trabalho dedicado ao clube, enquanto os contratos estiveram vigentes.

 

Pergunto-lhe, apesar das idades, ambos não seriam mais-valia para a equipa, até porque defende a mescla?

Sobretudo Leonel, que até tem sido convocado para integrar a Selecção Nacional.

JN - Esta mescla que defendo, está sendo contemplada. Temos na equipa jogadores experientes o suficiente e podem contribuir muito para o desenvolvimento dos mais jovens, que hoje fazem parte da equipa.

 

Fala-se que se incompatibilizou com Leonel, é verdade?

JN - Não é verdade.

 

Esteve na Selecção Nacional, em acumulação de funções, a que se deveu a sua saída?

JN - Eu cumpri o que me foi solicitado para aquele mo-mento. Antes da janela, a direcção da FAB me ofereceu apenas uma possibilidade de estar à frente da Selecção Nacional, visando o apuramento em Yaoundé para o Afrobasket e assim o fiz.

 

Passou o testemunho a Pep Clarós?

JN - Não me foi solicitado nada.

 

Caso volte a ser convidado, voltaria a treinar a Selecção?

JN - Hoje a Selecção Nacional tem um treinador e seria muito anti-ético de minha parte falar sobre um cargo ocupado. Desejo o melhor para o basket angolano sempre, do qual tenho muito respeito e gratidão.

PERFIL
Nome:
  José Neto

Estado civil: casado

Nacionalidade: Brasileira

Calçado: 13 (Americano)

Altura: 1,85

Idade:  51

Filhos: 2

Cor preferida: não tenho

Comida:  ( churrasco)

Religião: Católico apostólico Romano 

Partido político: não tenho partido político. Tenho princípios e valores que são prioritários.

Passatempo: jogar ténis e ficar com a família.

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