Cultura

Para uma ética da incerteza geracional

Luís Kandjimbo |*

Escritor

A partir do momento em que se procedeu à criação da Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (1975-2002), assinalou-se em Angola uma mudança que, a ser profunda, recomenda o conhecimento do passado, a introdução de rupturas e a operacionalização de um novo conceito de história e do direito à memória.

06/06/2021  Última atualização 10H13
© Fotografia por: DR
Por isso, justifica-se que falemos dos traumas vividos cujos efeitos foram devastadores para a memória colectiva. De igual modo, dos recalcamentos obsessivos que ainda perturbam profundamente as consciências de gerações. Consequentemente, com urgência se pratique uma nova anamnese, a verdadeira reflexão sobre a memória colectiva que interpele as diferentes gerações.
 


Situação-limite

Em língua Umbundu, o conceito de memória tem os seus equivalentes no de reconhecimento ou recordação, "odimbuko”, do verbo "okulimbuka” [reconhecer a partir de sinais do passado] e "ocivaluko”, do verbo "okuvaluka” [evocar o passado com nostalgia], respectivamente. Mas, em português, os campos semânticos destas duas unidades lexemáticas não se confundem. Para todos os efeitos, a memória e a recordação inscrevem-se no campo de estudos de diferentes disciplinas e domínios do saber, tais como a antropologia, a filosofia, a história e a psicologia cognitiva. Aqui trazemos à conversa a sua manifestação narrativa e as outras dimensões existenciais. Estas são sempre vividas e captadas pelo indivíduo em determinados espaços sociais e psicológicos. Isto ocorre em circunstâncias que remetem para "a margem da zona limite”, como lhes chamou o pintor e cineasta angolano António Ole, em expressiva instalação (na imagem) que vi exposta numa mostra retrospectiva da sua obra.

"Túfà álé Tùpúlúka?”. Este é um enunciado da língua Umbundu através do qual, habitualmente, se formula uma pergunta dirigida a um indivíduo, parente ou amigo, que em circunstâncias determinadas realiza uma visita inesperada. "Ocitangi”, dir-se-ia na lógica informal Umbundu. Está subjacente uma incerteza, associada a um problema. Trata-se de uma aporia. Em sentido literal, significa: "Morremos ou Sobrevivemos?”. Isto é, pergunta-se ao presumível mensageiro: anunciais a morte ou o triunfo da vida? A presença do visitante inesperado representa a única oportunidade para a obtenção de uma notícia sobre  situações de perigo que deviam merecer prévio conhecimento de toda a comunidade. A ausência desse conhecimento conduz à necessidade de saber mais acerca do estado de saúde existencial da família alargada de que faz parte o parente ou amigo. Entre a vida e a morte, o que terá acontecido? É o que se pretende conhecer.


Durante o período colonial, no contexto da guerra de libertação nacional, a morte era policausal. A doença, os acidentes rodoviários ou ferroviários, os fenómenos naturais, o trabalho forçado, a prisão, as rusgas, a guerra podiam ser algumas das causas de infortúnio. Em determinado momento da história de Angola, a partir de 1975, o uso de arma de fogo passou a ser a principal ameaça existencial e instrumento de morte. Isto quer dizer que, por mais de três décadas, o desprezo pela vida, a banalização da morte e as experiências de situações-limite andavam associadas à autoridade de quem detinha uma arma de fogo como dispositivo de poder e de controlo. Pode dizer-se que a guerra civil desencadeada a partir daí era uma situação aporética, uma situação-limite e um estado de excepção, igualmente sustentados por um raciocínio aporético.
A este propósito, o filósofo alemão Karl Jaspers (1883–1969)  desenvolveu uma filosofia da existência, que interessa conhecer, porque dela emana uma metafísica da situação-limite. Em seu entender as situações-limite são como uma parede com a qual o homem se confunde. Permitem-nos perceber que ninguém  pode viver sem lutar e sofrer. E que não se pode evitar a possibilidade de culpa. Por isso, acompanham a própria existência. Para Karl Jaspers, a situação-limite pertence à consciência. Ambas mantêm uma relação recíproca de imanência. Só é posssível evitar situações-limite, fechando os olhos perante o seu aparecimento. Na verdade, as experiências de situações-limite são inevitáveis. O mundo da ficção literária está povoado  de narrrativas e retratos de gerações sucessivas de mulheres e homens que as enfrentaram como se fosse uma fatalidade.


Experiência pessoal

Logo após o 25 de Abril de 1974, eu tinha sido um participante activo dos debates e das manifestações que visavam a democratização do ensino, apoiadas por professores angolanos e portugueses da esquerda democrática, contra a gestão autoritária do Reitor do Liceu de Benguela que se chamava José de Vargas Pecegueiro. Ele tinha sido deputado à Assembleia da República Portuguesa, pelo partido União Nacional, na legislatura de 1973 a 1974, tendo presidido a Comissão do Distrito de Benguela da Acção Nacional Popular. No ano da minha entrada no Liceu, integrei o grupo de estudantes que, por razões disciplinares e políticas, tinha sido convocado ao gabinete desta figura sinistra da política portuguesa em Angola.

Quatro décadas depois, ainda perseguem-me imagens das sucessivas travessias existenciais de que saí vivo. Mas, hoje sinto a necessidade de narrar, em breves palavras, o que se passou num desses acasos irrepetíveis, ou seja, situações-limite, com que me confrontei, dois anos após a independência de Angola. As duas únicas testemunhas oculares – o meu pai e a minha mãe – já são falecidos. O acaso aconteceu cerca da meia-noite, no quinto domingo do mês de Maio de 1977, em Benguela, cidade onde nasci e cresci. Enquanto estudante do Liceu, projectava concluir os estudos, ou seja, o 6º e o 7º ano, durante os dois anos lectivos restantes.


O conhecimento e a música eram duas das minhas três grandes paixões. A leitura representava a expressão máxima. Nesse ano lectivo, durante os dias úteis da semana, conversava geralmente com três colegas de curso. E ao fim da tarde, juntavam-se a nós alguns estudantes nocturnos, nossos mais-velhos, entre os quais o Comissário Municipal de Benguela que frequentava o 6º ano do curso liceal. Falávamos sobre a situação do País, de livros e leituras.  Não fazendo parte dos eufóricos grupos de interesse que proliferavam pela cidade, caminhante solitário, mergulhado em seus devaneios, eu era membro do comité dinamizador do movimento associativo estudantil nascente, na qualidade de delegado para assuntos pedagógicos de uma das turmas do 5º ano do Liceu.

Nesse quinto domingo do mês de Maio de 1977, dormia num sono profundo, quando de súbito ouvi o ruído de um automóvel que parava diante da nossa porta. Era um jeep "UAZ”. Em seguida, ouvi batimentos insistentes. Como habitualmente, o meu pai foi abrir a porta. "O seu filho está?”, ouvi alguém perguntar. O meu pai estava de sobreaviso acerca de visitas desse tipo. Se surgissem, só podiam visar o meu irmão. – "Não. Só está o mais-novo”, respondeu o meu pai.


O agente da segurança do Estado com o seu atavio e acessórios, dava a entender que não se tinha enganado. A sua certeza garantia que era aquela casa que tinha sido indicada. Em direcção ao meu quarto, entrava um militar com uniforme e uma pistola "Makarov” pendurada no coldre de cintura. Estava deitado na cama, quando apontou para a minha cara ensonada a lanterna acesa, que trazia na mão direita. O breve interrogatório permitiu concluir, erradamente, que não era eu o estudante do Liceu. Presumia-se que procuravam o meu irmão mais-velho, o músico e boémio benguelense, ausente naquele dia. Por isso, não efectuaram revistas ao meu quarto, nem quiseram saber dos livros que andava a ler. Tinha no meu armário vários livros possivelmente proibidos, de autores como Louis Althusser, Maurice Duverger, Mao-Tse-Tung, Enver Hoxha, Leon Trotsky e outros.

Nos dias seguintes, a psicologia de autodefesa tinha bloqueado a minha incredulidade. Regressei às aulas. Com passagem obrigatória por alguns cafés, diariamente, passeava pela cidade para completar as notícias que acompanhava pela rádio. As novidades não tardaram. O nosso amigo, o Comissário Municipal de Benguela, muitos colegas do Liceu, alguns deles membros do grupo dinamizador do movimento associativo, tinham desaparecido. Certos membros influentes do agrupamento musical "Ngola 74”, eram dados como mortos. Nos comunicados radiofónicos, ouvia falar da morte de uma amiga, ex-colega, vizinha e contemporânea. A cidade parecia ter uma nova paisagem humana. Na minha memória perceptual, a imagem daquele agente é inapagável. De resto, voltei a encontrá-lo em várias ocasiões e lugares da cidade. Mas, não revelava qualquer suspeita de que eu o reconhecesse. 


O facto autobiográfico de ter estado em situação-limite me foi sendo revelado por tudo o que se seguiu. A minha memória retém esses momentos. Daí em diante, quem aqui presta o seu testemunho memorialístico, tomou consciência da dimensão trágica de uma experiência geracional.



Geração das Incertezas

Como se sabe, a memória colectiva angolana mantém uma relação com o tempo e com a história. Mas, a interpretação dos factos que os ciclos da história de Angola comportam, não pode perder de vista as acções praticadas e experiências vividas por todos os sujeitos individuais e pelas diferentes comunidades. Por isso, a memória autobiográfica é um elemento constitutivo da memória colectiva, na medida em que ela sustenta as recordações e as narrativas das referidas comunidades históricas.
A memória autobiográfica é também cognitiva e auto-reflexiva. Com ela as pessoas identificam acontecimentos, lembrados como parte do seu passado pessoal.

De acordo com a linha cronológica da minha memória autobiográfica, tenho plena consciência da partilha de experiências que suportam a atribuição de uma identidade geracional. Esta identidade que tem os seus fundamentos históricos. Ao abordarmos as dinâmicas políticas da sociedade angolana no período que vai da segunda metade dos anos 70 aos anos 80 do século XX, devemos registar alguns dos mais importantes factos da história política, social e económica: a) o conturbado processo de descolonização; b) a mobilização geral de jovens para a vida militar; c) as manifestações da Guerra Fria no território angolano e, consequentemente, a eclosão da guerra civil que opôs os três movimentos de libertação nacional, FNLA, MPLA e UNITA; d) a proclamação da independência pelo MPLA e fundação da República Popular de Angola, em Novembro de 1975; e) a troca da moeda e os efeitos de empobrecimento das famílias; f) as repercussões dos acontecimentos do 27 de Maio de 1977 e a repressão que se lhe seguiu, tendo as vítimas sido maioritariamente jovens; g) a instauração formal do regime de partido único e a constituição do MPLA-Partido do Trabalho.

Esse era o contexto da época. Predominava um regime político autoritário com uma orientação ideológica esmagadora, semelhante às democracias populares da Europa do Leste, tal como as descreveu Czeslaw Milosz, no seu livro "A Mente Aprisionada”. O Estado e outras organizações sociais subsidiárias, condicionavam poderosamente o pensamento e o comportamento dos indivíduos, entre os quais jovens estudantes e trabalhadores. Estes jovens formavam uma geração, no sentido amplo do termo. Do ponto de vista histórico, psicológico e sociológico, a zona de proximidade etária tem grande relevância para compreender as suas atitudes, tendências ou preferências, políticas, ideológicas, estéticas e criativas. Grande parte dos seus membros nasceram no período compreendido entre 1954 e 1965.

Portanto, com o processo de anamnese desencadeado pela referida Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos, os sobreviventes da Geração das Incertezas têm agora a oportunidade de prestar testemunhos, tal como já alguns vêm fazendo, para que se convoque uma ética da compreensão e uma hermenêutica dos dramas resultantes da incerteza cognitiva que definiu o seu destino.

.             * Ensaísta e professor universitário

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