Cultura

Para (tentar) perceber o fenómeno Nagrelha

Isaquiel Cori

Jornalista

Nagrelha, o cantor de Kuduro, foi a enterrar na última terça-feira, em Luanda, com o cortejo a ser seguido por multidões tão grandes como raramente se viu em Angola.

27/11/2022  Última atualização 07H25
© Fotografia por: DR

A comoção e os ajuntamentos começaram a notar-se logo após a notícia da morte, dada em comunicado oficial, num outro acto inédito, pela instituição hospitalar onde o cantor estava internado - aliás, o "nunca antes ocorrido” já acontecera quando, no dia 25 de Junho, Nagrelha fora evacuado de urgência para o exterior acompanhado pelo director clínico da mesma instituição hospitalar. As multidões aos choros foram crescendo no Sambizanga, bairro onde o cantor nasceu e cresceu, e noutros bairros anteriormente chamados musseques e hoje commumente designados "periféricos” (serão periféricos não tanto pela localização geográfica, mas pela marginalização social). A noite do velório no estádio da Cidadela, com as bancadas abarrotadas de gente, lembrava o cenário de um jogo da selecção nacional de futebol nos seus tempos áureos. E, finalmente, no dia do funeral foi o que se viu. Vídeos e fotos que circularam amplamente nas redes sociais, e as imagens exibidas na TV, mostraram multidões em transe a acompanhar o cortejo fúnebre e grupos de oportunistas a vandalizarem património alheio.

Membros da elite bem pensante, quando não se mostraram perplexos e paralisados diante do fenómeno que se desenrolava a seus olhos, invectivaram a horda de anónimos que se levantou dos bairros periféricos, mas não só, para chorar e acompanhar à última morada o cidadão-cantor Nagrelha, cultor de um género musical considerado, por essa elite,  "tão menor” como o Kuduro. Agora que as emoções parecem serenar, é tempo de pôr racionalidade na análise do fenómeno Nagrelha. Para tal o Jornal de Angola  interpelou, por escrito, os sociólogos Elisabete Ceita Vera Cruz e Cláudio Tomás e o crítico musical  Jomo Fortunato. E do Facebook trouxemos o texto da jornalista Maria Luísa Rogério, um dos mais brilhantes produzidos naqueles dias, naquela rede social. A ver se nos ajudam a perceber os acontecimentos desencadeados pela morte e o funeral do maior ícone do estilo musical Kuduro.


ELISABETE CEITA VERA CRUZ (*)
"A sua morte representa o fim de uma era”

O que explica uma comoção tão generalizada nos bairros da periferia pela morte do cantor Nagrelha?

Bem, as manifestações de comoção também são organizáveis... Poderia dizer-lhe também que se terá tratado de um espaço-tempo para alguns oportunistas, mas sobretudo que permitiu o extravasar de frustações de milhares de jovens desesperados e sem voz. Terá sido um misto de emoção, dor e força. E diz bem, da periferia. Mas, respondendo directamente à pergunta, Nagrelha representa uma juventude, a da periferia, dos chamados bairros, juventude desvalida que entretanto consegue driblar o "destino”. E se por um lado se torna um jovem de sucesso, por outro ele não enjeita o seu bairro, o seu passado... Para quem é que Nagrelha é um ícone? Pensar-se-ia que seriam milhares, mas parece serem milhões os jovens fãs de Nagrelha, sobretudo os que trabalham no sector informal, para aqueles que são considerados marginais por usarem estupefacientes, para aqueles que vivem à margem da lei. Mas também para os do espaço urbano porque, afinal, "não é só no bairro”, como cantam Yannick e Nagrelha. E, de repente, o Nagrelha torna-se um case study que faz com que se pergunte como é que um "ninguém” – pergunta feita por aqueles que desconhecem a Angola real – consegue fazer com que dele se faça um case study? Quer dizer que o fenómeno Nagrelha estava aí, conhecido por muitos, e penso também que a morte de Nagrelha representa, também, o fim de um ciclo, de uma era em Angola – na verdade é o próprio Nagrelha quem diz que "não existe depois de mim”. Porquê o fim de um ciclo, de uma era? O que é que isso significa? Para além de outras possíveis leituras, destacaria o fim do ciclo da indiferença, da cultura vista somente como entretenimento e pouco ou nada como conhecimento, e a emergência de um novo olhar e abordagem para com as pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade, para com a  pobreza... O facto de Nagrelha ter sido o único que, sem pejo, terá defendido o ex-presidente José Eduardo dos Santos (a entrevista que acabou por não acontecer porque começou e terminou com Nagrelha a perguntar ao entrevistador o que poderia ele dizer sobre JES, é elucidativa e por isso muito interessante), porventura pelo que este último lhe terá agraciado, uma mensagem do género "não cuspas no prato em que comeste”, fará dele um indivíduo honrado, com princípios, com valores, independentemente dos juízos que se possa fazer da governação de José Eduardo dos Santos. Sem esquecer, é claro, a generosidade e a solidariedade que dizem ter sido uma das suas grandes marcas.

 

O Kuduro às tantas vai muito além de um estilo musical? O kuduro acaba por expressar as frustrações e os sentimentos mais profundos dos grupos sociais dos bairros periféricos?

Sei que existem artigos, ensaios, trabalhos sobre o Kuduro - estou desejosa de ler todos... Importa saber e compreender não somente quando surge, e isto sabemos, mas sobretudo a sua evolução e da sociedade angolana. Mais uma vez a arte a mapear a nossa sociedade, desta vez, a música, mas poderia ser a literatura, as artes cénicas, enfim...

Diria que mais do que um género musical ou uma dança, o Kuduro é um estilo e um modo de vida. E uma forma de protesto. Terá começado como dança e música, mas rapidamente foi apropriado e metamorfoseando-se para ser o que é hoje. Porque o Kuduro é também, hoje, sinónimo de passe para a ansiada mobilidade social, para a inclusão. Os/as kuduristas para além do dinheiro que ganham e, como consequência, verem melhoradas as suas vidas, vêem mudar o seu status social, passam a ter visibilidade, a ser respeitados, alguns passam a ter e a ser uma janela aberta para o mundo...  Hoje temos kuduristas licenciados ou na universidade, o que revela bem a evolução do género musical e as mudanças em Angola, nomeadamente em Luanda.

 

Nagrelha pode ser considerado um herói?

Um herói acidental. Diria antes que Nagrelha personifica o anti-herói. Podemos encontrá-los, os anti-heróis, em todas as geografias, e não são tão poucos assim. E o que é ou quem é o anti-herói? Tendo como referência o Nagrelha, é o indivíduo com uma infância – adolescência e juventude - difícil, complicada, com pouca escolaridade, que passou pela prisão, terá consumido droga, terá sido o que alguns chamarão arruaceiro, mas que deu a volta à sua vida e se tornou um ícone. Não sendo o melhor cantor nem dançarino, com um passado conturbado, como é que se torna um ícone? Pelas razões enunciadas e porque o anti-herói não é aquele que congrega opiniões positivas sobre ele; bem pelo contrário, é precisamente por a opinião que se tem dele não ser unânime, por ser imperfeito, pelos seus excessos, com alguns comportamentos que poderão ser condenáveis, causar alguma repulsa, mas com outros admiráveis como a humildade, o  às costas, a limpar o chão com todo o à vontade - fazem com que inconsciente e rapidamente passe de vilão a herói. Aqueles que, como ele, vivem ou viveram situações adversas, se encontram no limbo, acabam por vê-lo e tê-lo como uma referência, como líder. Um jovem vendedor de sonhos, de pequena estatura, de aspecto frágil (fazendo jus ao adágio "os homens não se medem aos palmos”), mas que se apresenta carismático, sem medo de se mostrar, de ser quem é, de cair no ridículo (e não cai!)... E assim nascem os mitos, com a carga de controvérsia e romantismo que lhes estão associados. E as sociedades, os jovens, precisam de se ver representados, precisam de ídolos. E o facto de ter morrido cedo, com 36 anos, é um elemento mais que não pode ser descurado.

 

O que se pode ou deve fazer para que fenómenos como Nagrelha deixem de ser considerados periféricos ou marginais, independentemente de onde tenham surgido, para serem assimilados ou integrados como parte legítima do todo nacional?

A emergência de sub-culturas, nas suas diferentes roupagens, não é sinónimo de exclusão; poderá, sim, ser sinónimo de criatividade. E o importante é saber reconhecer e abrir espaço a essa criatividade, desde logo com a construção de escolas regulares, mas também de artes, para todos.  

A arte, as culturas, têm muito de marginal; de tal forma que se fala da existência de culturas marginais. E têm poder, o poder de o deixarem de ser. O Kuduro enquadra-se no fenómeno geral da street dance, break dance e afins e o Tony Amado, considerado pai deste género, dá o mote, segue-se-lhe o Sebem com nova roupagem (entre tantos outros) e o Nagrelha, Naná, Estado-Maior e outros tantos nomes que teve e com que se terá auto-denominado, que faz a ruptura com os citados pioneiros. Ele diz, numa entrevista, que antes dele - Tony Amado e o Sebem - não havia narrativa, não havia letra, o mesmo que dizer que não havia Kuduro. Logo, o Kuduro, tal como o conhecemos hoje, terá começado com ele... O fenómeno Nagrelha é criado pelo próprio e, claro, pelo seu grupo, Os Lambas - atente-se no simbólico nome "Estado-Maior do Kuduro”, na indumentária do Nagrelha que nos remete para o papel e lugar das forças armadas, dos generais em Angola -, pela comunidade do Sambizanga, por Luanda, e pelos fãs que se foram multiplicando um pouco por todo o país. Durante muito tempo disse-se que o kuduro cedo desapareceria, mas ele está bem presente... vai-se reinventado, novas batidas, sonoridades, novos intérpretes, e o kuduro continua. Hoje, pode até ser considerada música de intervenção. A sua importância está aí e o sistema que o diga, porque foram destinados lotes de construção para os kuduristas, o funeral do Nagrelha penso ter ficado a expensas do Estado... Claro que se tratará do reconhecimento artístico, cultural, social e sociológico do artista, mas não se pode ignorar os possíveis aproveitamentos políticos, muito frequentes nestes casos.  Até quando o Kuduro se manterá, não sei, mas muito provavelmente enquanto se for reinventado (parece que os "bifes” estão a cair em desuso), continuaremos a ter Kuduro, que entretanto já atravessa gerações.

 

E como explicar o sucedido no funeral do Nagrelha?

A "Nação Kuduro” esteve em peso. Foi a periferia, a força dos bairros, do gueto, dos desempregados, dos trabalhadores informais, dos gangues, dos jovens, a ocuparem o espaço urbano (sem esquecer os curiosos). E que força! O poder do Kuduro, da periferia e da juventude desvalida, como já referi. Sem grandes lucubrações, diria que Nagrelha morreu (o seu funeral) como viveu, ou terá sido parte da sua vida: entre o caos e a ordem.

 *PhD em Sociologia. Autora de estudos sobrea juventude em Angola


CLÁUDIO TOMÁS (*)
"Uma forma de vida ou um amplo movimento popular artístico”

"Penso que a compreensão sobre o que está a ocorrer com a comoção generalizada pela morte do Nagrelha deve passar pela relação de vários elementos. O primeiro deles é, sem sombra de dúvidas, o sentimento de comoção pela morte prematura. Ninguém está preparado para ver partir pessoas tão jovens. Principalmente quando estas possuem recursos suficientes para acederem a cuidados de saúde adequados.

O segundo deles, e aqui começo a introduzir as minhas hipóteses, é o de Nagrelha ser aquilo que a Sociologia designa como um carismático. Encontramos na pessoa a mística própria de alguém que apela ao sentido de identificação de uma imensa multidão de jovens espalhados pelo País. Muito se deve, certamente,  ao  que ele sugere como ideal de realização social: um jovem nascido pobre, com poucas oportunidades, sem possibilidades de frequentar a escola, com uma experiência de vida marcada pela exclusão social, violência e criminalidade, e mesmo assim, e apesar disso, conseguir atingir os palcos da fama mundial através da música.

E há ainda outro aspecto importante a considerar (ainda como hipótese) na personagem carismática do Nagrelha: mesmo depois da consagração, da fama, e de tudo o que isso poderia trazer-lhe como benefícios, nunca o vimos em viagens a Miami, Portugal, ou a Dubai, a exibir sinais de riqueza. Nagrelha continuou igual a si mesmo. Não se deixou corromper pelo dinheiro e se transfigurar pela fama. Continuou próximo do seus, continuou a ser do Sambizanga, o Naná. E essa ideia de pureza e de fidelidade aos seus e às suas origens é uma marca distintiva que apela à simpatia, ao apreço e à identificação de muitos.

E, por fim, um último elemento: o Kuduro. A morte do Nagrelha é aquele evento que nos vem mostrar que o Kuduro não é apenas um estilo musical. De algum tempo a esta parte, o Kuduro vem sendo qualquer coisa que se pode situar entre uma forma de vida, um amplo movimento popular artístico, e um estado de espírito. A morte do Nagrelha, para além de ser o momento de expressão da comoção pelos seus fãs, é também um momento de celebração da afirmação do Kuduro como o produto final de todos aqueles elementos. O Kuduro é hoje representado como um veículo de promoção social por uma imensidão de jovens que vive na marginalidade, exclusão, no desemprego, e sem esperanças de realização pessoal através dos meios socialmente convencionais. Estes jovens têm todo interesse em que o Kuduro, com todos os seus defeitos, se afirme e seja reconhecido como veículo alternativo de realização social. Portanto, o que vimos no funeral do Nagrelha pode também ter sido, por um lado, uma vigorosa declaração de intenções de afirmação do Kuduro como a pátria dos excluídos e, por outro, pode também ter sido aquilo que os americanos designariam por backlash, traduzindo, a "desforra”. Ou seja, e no final das contas, o Kuduro como um sentimento de "desforra” conduzido por estes jovens contra uma elite política e económica que os abandonou e os deixou entregues à sua sorte. Daí também, como movimento artístico, o Kuduro trazer sub-repticiamente uma proposta de transgressão dos códigos sociais convencionais. Não apenas em termos da linguagem, mas até na resignificacão dos sentidos que se atribuem aos lugares de exclusão e de marginalização. É aqui que  nos poderá também dizer algumas coisas sobre a sinalização da existência cada vez mais notória do drama actual do País: a separação entre a ‘elite’ e o ‘povo’”.

 * Ph.D em Sociologia. Professor Auxiliar do Departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto


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