Entrevista

Pandemia reduziu receitas da Ghassist para menos de 20%

Diogo Paixão

A pandemia da Covid-19 reduziu a facturação da Ghassist, empresa de prestação de serviços no sector da aviação civil, para menos de 20%. O presidente Conselho de Administração, Ari César Figueiredo de Carvalho, afirma que os primeiros cinco meses foram os mais difíceis, sublinhando que houve uma redução drástica da actividade. Em entrevista ao Jornal de Angola, o gestor acrescenta que para a sobrevivência da empresa, teve que recorrer a um Fundo de Reserva.

23/12/2020  Última atualização 09H41
© Fotografia por: DR
Que serviços tem a Ghassist disponíveís para os clientes? 
Somos uma empresa de prestação de serviços no sector de aviação. Prestamos assistência interna, assistimos as aeronaves á chegada  aos aeroportos, desde o carregamento e descarregamento de carga, malas e passageiros. Também damos assistência aos passageiros, quer dizer o chek-in, encaminhamento dos passageiros à aerogare  e à aeronave e vice-versa. Basicamente tomamos conta do avião quando está em terra. 
O vosso serviço parece estar limitado a algumas províncias. Há pretensão de alargar para outras regiões? 
Em termos de alargamento temos duas fontes. Uma é a entrada de mais provinciais. Nós estamos em Cabinda, Luanda, Lubango e Ondjiva. Nos próximos meses estaremos em Benguela e Saurimo.  Também temos outros serviços associados à carga. Temos o GH Expresso, com serviço de entregas rápidas e temos alguns serviços Vip,s para acompanhamento de passageiros. Por exemplo,  no caso das mães ou pais que viajam com crianças temos um produto que se chama GH Kids, que consiste em ajudar estas pessoas durante todo o processo em que o passageiro chega ao aeroporto até à aeronave. Também temos outro, que chamamos GH Kotas, para os mais velhos que viajam sozinhos.  Nós não estamos em todas as províncias por questões estratégicas. O nosso maior cliente é a TAAG, porque é a maior operadora nos voos nacionais. Então, onde a TAAG  nos oferece  oportunidade de prestação de serviço, nós estamos lá. 
E naquelas províncias em que a TAAG não oferece oportunidade, quem faz esse serviço ? 

"Normalmente a TAAG nas províncias tem o seu próprio pessoal. Naqueles aeroportos onde não fizemos  cobertura, a TAAG cobre. Por exemplo, no Huambo a TAAG  tem o seu próprio pessoal. O único cliente no ramo da aviação que existe no Huambo é a TAAG. Podia haver uma outra operadora,  mas nesse caso nós não prestamos serviços lá, porque a TAAG tem o seu pessoal.  As companhias terciarizam serviços. Relativamente aos voos internacionais os nossos clientes são: TAAG, Emirates, Air France, enfim, todas as companhias que voam para Angola, mas  nos aeroportos domésticos é a TAAG. 
O sector da aviação foi fortemente afectado pela pandemia da Covid-19. Qual é o impacto desta doença na Ghassist? 

O primeiro impacto aconteceu  nos primeiros 4-5 meses da pandemia da Covid-19.  Houve uma redução drástica da nossa actividade.  Tivemos que manter pessoal em casa e houve uma baixa de receita muito grande. Agora estamos a facturar menos de 20% do que nós facturávamos anteriormente. Então, temos o desafio de ter pouca facturação e manter os custos fixos. Também é preciso  manter a força de trabalho. Não despedimos ninguém, pagamos os salários, embora  houvesse alguns atrasos. 
E como é que vocês conseguem funcionar nestas condições, com menos de 20 por cento da facturação, como disse há pouco?
 
Há 3 ou 4 anos, tanto o Conselho de Administração ,  como a Mesa da Assembleia abraçaram uma estratégia muito conservadora em termos de gestão de tesouraria. Constituímos um Fundo de Reserva, que nos ajudou muito durante os primeiros 4-5 meses da pandemia, porque embora estivéssemos  a prestar serviço, o nosso cliente também não nos pagava, simplesmente  porque ele também não esta-va a ser pago. Portanto, havia aqui uma sequência.Tínhamos um Fundo de Reserva que foi utilizado para pagar os  salários e algumas despesas operacionais durante esse tempo todo. Hoje esse fundo está quase zerado. Então,  estamos mesmo a exigir, a pedir aos nossos clientes que nos paguem. Mas o fundo ajudou-nos muito de Março a Outubro para podermos sobreviver. 
Reclamação dos trabalhadores é injusta
Isso responde às reclamações de alguns trabalhadores? Queixam-se de corte de subsídios de alimentação, de ruído, incluindo o seguro de saúde...  
Nós temos uma folha salarial que inclui o salário base  e uma série de subsídios. Quando a empresa não tem tesouraria suficiente para pagar toda essa folha de salário, o gestor tem uma decisão: não paga nada, ou paga pelo menos alguma coisa do pouco que tem. Temos trabalhadores que não vão ao serviço desde Março por força da Covid-19,  mas todos os meses recebem o salário base. Preferimos que o nosso trabalhador pelo menos receba o salário base do que não receber nada, porque não teríamos capacidade de cobrir os custos. Acho injusta a reclamação dos colegas. Cortamos os subsídios, mas era a alternativa que tínhamos. Criamos esta estratégia de pouparmos o máximo para podermos ter mais meses de pagamento. Imagine uma empresa que fica quase cinco meses sem receber nada, mas, no entanto, cumpriu com os salários. Até a pouco tempo os trabalhadores tinham seguro de saúde,  mas a empresa de seguros aumentou os valores e nós não temos tesouraria para cobrir estes custos.  
Acha que o trabalhador compreende isso? 
Certamente que não, mas não temos outra alternativa. Nós temos que saber que o mundo está a passar por um momento muito difícil. As nossas congéneres lá fora puseram trabalhadores em casa e cortaram os benefícios. Nós estamos a pagar cem por cento do salário  base, portanto, há aqui um sacrifício que está a ser feito para a pessoa ter  pelo menos alguma coisa no final do mês para sustentar a sua família. 
Nessa altura a empresa ainda tem muitos trabalhadores em casa? 
Sim,  nós temos 900 trabalhadores a nível do país, a maior parte   em Luanda. Perto de 90% trabalham aqui, na capital. Há funcionários que trabalham na placa, nas alterações com os aviões, na manutenção e outros da administração.  As pessoas que não têm que ir trabalhar ficam em casa. Aqueles que tem que   servir os poucos voos, estes vão trabalhar. 
Luanda cresceu imenso. Há trabalhadores que vivem distante e largam tarde, depois das 23h00 e tanto quanto se sabe, a empresa não dispõe de  transporte de recolha nem de distribuição. Não se vislumbra nenhuma perspectiva para melhorar a situação? 
Há aqui uma questão económica muito importante, que é a sobrevivência da empresa. Os transportes custam dinheiro, temos que importar. E mais: os nossos colegas estão em Viana, em Cacuaco e noutras zonas de Luanda. Portanto, ter  dez ou quinze autocarros para uma força de trabalho nas condições actuais é insustentável,  iríamos ter dívidas elevadas. 
O surgimento da vacina abre novas perspectivas. Certamente a tesouraria da empresa vai melhorar. Quando isto acontecer serão repostos os subsídios retirados? 
Obviamente que sim, os subsídios serão repostos.  Vê-se luz no fundo do túnel. Vê-se que, por exemplo,  a TAAG já está a aumentar as frequências, as companhias aéreas já estão a voltar, a Qatar Airways começou a voar para Angola pela primeira vez na semana passada e alguns clientes que antes só vinham a Luanda uma vez, agora vêm duas vezes, três vezes por  mês. Acredito que nos próximos sete ou oito meses vai haver um aumento de voos para Angola,  tanto internacionais como nacionais ou regionais.Com o aumento das frequências é obvio que a posição da tesouraria também melhora, mas, neste momento, o nosso grande desafio é olhar para os nossos clientes,  pelo menos os nossos dois ou três melhores clientes têm que cumprir com a obrigação de pagamentos. 
Estamos no fim do ano, podemos dizer que o balanço é totalmente negativo?
Este foi um ano totalmente difícil para nós.  A equipa da Ghassist, os novecentos trabalhadores todos estão de parabéns. Temos bons trabalhadores, pessoas muito dedicadas que nos momentos mais difíceis,  desde Março até hoje, acordam de manhã e vão servir os aviões. 

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