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Pandemia agrava a situação no Líbano, um ano após explosão no porto de Beirute

Um ano após à forte explosão no porto de Beirute, que deixou a capital libanesa amputada de grande parte da cidade, a reconstrução está longe de começar, devido sobretudo à forte crise económica que continua a abalar o país.

04/08/2021  Última atualização 07H00
© Fotografia por: DR
As explosões de 4 de Agosto, que as autoridades libanesas têm atribuído a um incêndio num depósito no porto onde se encontravam armazenadas cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amónio, deixaram cerca de 300.000 pessoas desalojadas, mais de 200 mortos e de 6.500 feridos, além de mais de duas dezenas de desaparecidos.

Ainda sem terem sido apontados responsáveis pela catástrofe, fruto de uma justiça inoperante, associada à ideia generalizada entre a população de que os políticos libaneses são corruptos, a crise política então aberta, ainda em Agosto de 2020, está por concluir, face aos sucessivos desentendimentos entre os políticos, o que mergulhou ainda mais o país na então já existente grave crise económica.

A pandemia de Covid-19 veio agravar ainda mais o clima de pobreza, num país que, apesar dos esforços e exigências internacionais para que haja um entendimento entre a classe política, está à beira do colapso, com as famílias a gastarem actualmente cinco vezes o salário mínimo para suprir apenas as necessidades alimentares.

Os dados foram avançados a 21 de Julho pelo Observatório da Crise da Universidade Americana de Beirute, que destaca também a inevitável inflação galopante, a desvalorização da libra libanesa (perdeu para o ‘mercado paralelo’ mais de 90% do valor em relação ao dólar) e a ruptura nos combustíveis - o custo dos alimentos subiu 700% nos últimos dois anos.

Além dos gastos com água, electricidade e gás doméstico, também crescentes devido ao levantamento parcial dos subsídios estatais, uma família de cinco pessoas agora gasta mais de 3,5 milhões de libras libanesas (1.970 euros) por mês em alimentos, sublinha o Observatório, que alertou ainda para o facto de metade dos cerca de sete milhões de habitantes (55%) viver hoje abaixo do limiar da pobreza.

A maioria dos residentes é paga na moeda do Líbano, onde o salário mínimo é de 675.000 libras (380 euros). Há cerca de um mês, este montante representava 450 dólares, mas actualmente equivale a apenas 30 dólares (25,50 euros).

Há quase um ano sem Governo - o Primeiro-Ministro libanês de então, Hassan Diab, entregou a demissão a 10 de Agosto de 2020 ao Presidente Michel Aoun –, a classe política continua sem se entender, depois de duas tentativas para a formação de um executivo, que esbarrou, disse o Presidente francês, Emmanuel Macron, na defesa dos interesses pessoais e partidários, em detrimento dos do país.

A 26 de Julho, Aoun, em mais uma tentativa para desbloquear o impasse, encarregou o ex-Primeiro-Ministro Najib Mikati de formar um novo Governo, que recebeu, nas consultas parlamentares, o apoio de 72 deputados, sem nenhum voto contra e 42 abstenções, lançando as bases para a formação de um novo Governo.

Onze dias antes, o ex-Primeiro-Ministro Saad Hariri reconheceu a incapacidade de encontrar uma solução política, nove meses após a sua nomeação, e, antes dele, Moustapha Adib, nomeado após a explosão no porto de Beirute, também não a obteve.
Agora, Hariri e o seu grupo parlamentar aprovaram a nomeação de Mikati, que também recebeu o apoio do movimento xiita armado Hezbollah, um aliado de Aoun e uma importante força política no país.

Mikati já presidiu a dois governos, em 2005 e 2011, e deve agora propor uma lista de ministros que seja do agrado das mais influentes figuras políticas, num regime acusado de corrupção e de incompetência por grande parte da população, tendo prometido formar um Executivo dentro de um mês, com vários analistas locais a considerarem que o processo pode demorar vários meses.
O novo Primeiro-Ministro indigitado - que tem uma fortuna estimada em cerca de 2.000 milhões de euros, de acordo com a revista Forbes - é visto como um dos símbolos de uma classe política acusada de nepotismo e de ter sobrevivido a protestos populares sem precedentes, no final de 2019.

A comunidade internacional, liderada pela França – que, na sequência do fim do Império Otomano, depois da Primeira Guerra Mundial, recebeu um mandato da Liga das Nações, a antecessora da ONU, para a administração e construção do Líbano - prometeu ajudar a reunir milhares de milhões de euros em ajuda, que fica condicionada ao estabelecimento de um Governo capaz de combater a corrupção.


Criação de um "bloco” de oposição
A situação no Líbano está mesmo difícil. Face ao descontentamento popular, 16 organizações da sociedade civil libanesa pediram, em Abril passado, a formação de um bloco político e eleitoral alargado, para fazer frente aos partidos políticos de poder no Líbano nas eleições legislativas de 2022.

A criação de um "bloco” visa reunir o maior número possível de forças do movimento de protesto do Outono de 2019 para defrontar, em Maio de 2022, os líderes que continuam a manter-se no poder no Líbano.
A revolta popular, iniciada a 17 de Outubro de 2019, abalou o Líbano e a respectiva classe política dominante, pela magnitude e extensão geográfica. No entanto, até agora, nada fora feito para se formar uma frente ampla de oposição aos partidos tradicionais.

Alguns deles estão no poder desde a guerra civil libanesa (1975-1990) e são acusados de corrupção, arcaísmo, nepotismo e de manutenção de um regime político "confessional”, com base na partilha comunitária do poder que alimentou o clientelismo.

Desde o Outono de 2019, no entanto, o ímpeto revolucionário diminuiu, devido em particular à pandemia e explosão no porto de Beirute. Em sentido contrário, cresce o descontentamento e a ira sociais, à medida que o país se afunda na crise económica.

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