Opinião

Palavras que mudam sem mudar nada

Manuel Rui

Escritor

As palavras é que definem a vida, as coisas, os sentimentos e vestem-se de novos sons que, regras geral, não mudam nada. Lápis, ardósia, cadernos, caneta de aparo, tinteiro era o arsenal para o aprendiz minha infância com sacolas de caqui ou ganga com linha e dedal por nossas mães. A sacola tinha um cheiro que ainda me lembro. Depois, caneta de tinta permanente, lapiseira, pastas.

21/10/2021  Última atualização 05H55
No colégio tínhamos disciplinas, matemática, português, etc., na universidade passaram a ser cadeiras e mais tarde créditos mas era tudo a mesma coisa como no futebol chamávamos corner e depois passou a pontapé de canto, penalti que depois passou a grande penalidade e treinador que hoje é mister, também eram os adeptos que depois passaram a claque e hoje já são torcida que não se confunde com torcida de candeeiro a petróleo.

Nas relações sociais de produção foram-se os operários e camponeses e a mais valia que o patrão rapava ao trabalhador, foi-se o hino primeiro de Maio de Miaskovski, agora não se canta mas grita-se em festivais e discotecas, bebidas são shots e os patrões é que dão emprego aos empregados, se não fossem os empregadores parece que o mundo parava e  agora a relação é empregadores empregados que costumas reunir para o aumento salariar de meia dúzia de centavos.

Os templários causaram terror, as invasões a África pelos portugueses, mais os escravos que levaram para o outro lado do mar, anteciparam a designação para achamentos, depois descobrimentos e sempre que um ser humano sujeito à invasão se rebelou passou a ser terrorista. Os que acompanharam Lumumba eram terroristas, os angolanos que se refugiaram para fora de Angola no Congo passaram a terroristas e aí quando os americanos invadiram o Vietnam passaram a chamar aos vietnamitas de Ho Chi Min de vietcongs…com aquela conotação que vinha de África.

Angola foi colónia de Portugal quase 500 anos como parte de um império. Depois passou, quando as colónias passaram a províncias, a colónia de Angola, província, passou a ter distritos, depois passou a Estado, tudo ficou na mesma e quando chegou à independência passou a República Popular (sob o olhar silencioso de Lenine) e acabou em República de Angola, havia marxismo-leninismo mas quando acabou ainda antes de ter começado ficou tudo na maneira descombinada que estivemos com ela.

Mas há coisas que não mudam e os humanos entenderam-nas como eternas. As grandes pedras e os astros envolvidos em mistérios apontando para a eternidade, sendo certo que só a morte é eterna, pessoas que se destacaram pelo mal parece que vão ficar na história até o mundo acabar. É o caso de Hitler. Mas tem outros nomes que vão ficar na história pelo lado bom, casos de Ghandi, Nelson Mandela ou Luther King.

Com a era da informática apagar passou a ser delitar, correio electrónico ou mensagem  electrónica passou a ser e-mail quando podia ser metrónica e entraram bué de palavras no léxico electrónico.
Também na música acontecem mudanças que mudam sem mudar. Os temas das letras continuam a ser quase os mesmos e há um que permanece: é o amor.

Nas guerras sempre se matou civis inocentes. Agora chamam-se efeitos colaterais.
Palavras que já existiam faz muito tempo e eram consideradas impropérios, broncas, asneiras, agora aparecem no cinema com todo o à vontade na boca de jovens e mais velhos, desmitificando ou banalizando o sexo com todo um léxico que era proibido. Todos os dias os dicionários recuperam da margem palavras de código que entram como soldados no arsenal dicionarista mas que, por óbvias razões de limite e limiar da liberdade de expressão e de imprensa, não posso nem devo trazê-las à colação para as páginas deste jornal.

Engraçado é que após Gorbachov ter aparecido com a Perestroika e a glasnost, todo o mundo político e não só passou a usar a transparência para substituir a peneira furada das ideologias dominantes. Também, após a 2ª Guerra Mundial, partidos europeus copiaram as estruturas semânticas da ex-união soviética, como Comissão Diretiva (comité Central), militantes, congressos e juventudes partidáriasespécie de escolinhas de jogadores mas com muito mais malandragem, copiando Mussolini, Salazar ou os pioneiros de Stalin.

Antigamente, no ocidente, diamba era droga, perseguida e punida a sua comercialização. Estavam mais atrasados que os índios e até os nosso bois e outros animais que comem diamba quando estão doentes. Agora que descobriram que é remédio passou a designar-se pelo nome científico,canábis. Diamba é droga dos charros que aqui em Luanda se compra nos mercados por duzentos kwanzas, não sei quanto custa nas lojas e farmácias da Holanda onde desde há muito o produto está liberalizado. O que se pode perguntar é que se aqueles que já consumiam…estão curados…

Agora tem palavras que parece não inventam mudar, Fome, por exemplo. Mas nada, tem despossuídos, carecidos, migrantes, desamparados, desempregados e etc.
As palavras são assim mesmo e quem estiver a acompanhar o julgamento das dívidas ocultas em Moçambique (que sempre foram abertas) apercebe-se como as palavras são usadas de tal forma que um pressuposto larápio, de alto nível, quase quer fazer crer ao mundo que um muata da segurança ou bófia de um país quase considera segredo de Estado roubar milhões de dólares ao povo moçambicano e outro, não sabe nada ou é matéria de segurança reservada mas, na ânsia de divagar, começa a explicar como funciona a bófia.

São assim as palavras. A criança estava numa sala em que eram todos os colegas filhos de médicos, advogados, engenheiros. Para já, a professora não devia perguntar. Mas quando chegou a vez dele, o que é que o teu pai faz? É botânico.
Sim senhor … mas…sim faz botas.

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