Opinião

Países mais expostos à crise alimentar

Juliana Evangelista Ferraz |*

Segundo o Banco Mundial, a crise económica actual representa um atraso de todos os avanços feitos nos últimos cinco anos, no que diz respeito ao combate à pobreza e à segurança alimentar.

14/09/2021  Última atualização 08H50
A mesma fonte adianta que, ainda este ano, cerca de 150 milhões de pessoas (1,4 por cento da população mundial) estarão a nível de extrema pobreza, a viver com menos de 1,9 USD por dia, devido aos efeitos da Covid-19 associados a outros fenómenos, como mudanças climáticas, sendo que 82 por cento dos novos pobres estarão concentrados nos países de médio rendimento.

Vejamos que é um dado adquirido, o da interdependência das economias. Havendo uma crise de alimentos na China, este fenómeno repercute negativamente em várias economias do mundo, ou mercados muito expostos à flutuação do preço dos alimentos.

Recentemente, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e o Programa Alimentar Mundial (PAM) identificaram que vários países já enfrentam uma crise alimentar, incitada pela pandemia de Covid-19, numa análise que aponta mais de 20 países afectados. Este pequeno exercício pode se verificar por via de uma métrica, que analisa o PIB per capita nominal dos países em dólares à taxa de câmbio de mercado, como a verificação da parte destinada a alimentação no consumo das famílias em cada país, bem como a percentagem da exportação líquida de alimentos, face ao PIB ou às receitas provenientes das exportações de alimentos.

A ONU alerta ainda que a comunidade internacional tem de agir rapidamente, no sentido de se garantir  acesso a alimentos, evitar a interrupção dos financiamentos dos países, impedindo os cortes das cadeias de fornecimento. No entanto, admite que os diversos programas de combate à fome não têm sido bem implementados e previne que é imprescindível retirar cerca de 100 mil pessoas da situação de desnutrição, para se atingir, em 2030, a meta de eliminação total da fome no mundo. Da lista dos países mais vulneráveis face à eventual crise mundial de alimentos, destacamos, por exemplo, Bangladesh, Afeganistão, Venezuela, Haiti, Indonésia, Síria, Líbano, Moçambique, Angola, Etiópia, Burkina-Faso, Somália, Níger, Camarões, Libéria, Mali, Serra Leoa, Zâmbia, RDC e Zimbabwe.

Segundo o director-geral da FAO, Qu Dongyu, muito antes da Covid -19 já se verificava uma tendência altista dos preços dos alimentos nestes países e gozavam de elevados níveis de insegurança alimentar e fome extrema, decorrentes dos choques anteriores, como crises económicas, instabilidade e insegurança, condições climáticas extremas, pestes herbívoras e doenças de animais, incluindo a redução, nos últimos anos, da rentabilidade no sector agropecuário, a redução das terras cultiváveis o proteccionismo e a especulação nos mercados.

A continuar a subida generalizada dos preços nos produtos alimentares, as populações poderão incorrer em constrangimentos do ponto de vista alimentar, com a possibilidade de redução do poder de compra. Esta situação já mobilizou vários Estados a tomarem decisões políticas e medidas para estabilizar a inflação e a espiral de preços nos alimentos, medidas consubstanciadas num controlo mais rigoroso sobre a subida dos preços.

Portanto, é um desafio para estes Estados e agentes económicos e sugere-se o aumento da oferta mundial, através de um maior investimento na agricultura, reforma das políticas agrárias, remoção das barreiras alfandegárias e um acesso mais facilitado dos serviços financeiros por parte dos produtores.

No caso angolano, não se vislumbram, a curto prazo, problemas que possam pôr em risco a produção de bens agrícolas, que, com o surgimento da pandemia, regista um crescimento da actividade. Mas tal facto não impede que possam surgir preocupações ou riscos no tocante à dis-
tribuição, escoamento da produção, logística de acesso e contaminações em unidades de processamento, por ineficiência da infra-estrutura de apoio, que está também muito pressionada pelos condicionalismos impostos pelas medidas contra a pandemia.

Olhando para o poder aquisitivo das famílias angolanas em 2021, é importante frisar que, nos últimos 4 anos, houve uma redução significativa do poder de compra, que pode ser verificado no impacto do custo da cesta básica no salário mínimo. Ou seja, o custo da cesta básica quase triplicou, em função do salário mínimo de 2017 a 2021. Portanto, a medida sobre a suspensão temporária das tarifas aduaneiras, para alguns produtos da cesta básica, é uma medida eficiente, que irá impactar na redução do preço dos produtos ao consumidor final. 

Paralelamente a esta medida, continua a ser imperioso a alteração da estrutura económica, que passa pelo reforço da diversificação da base económica, alargando o espectro a um conjunto de áreas prioritárias, nos sectores da produção agrícola e indústria transformadora, com particular enfoque na produção de cereais, pecuária, agro-indústria e restabelecimento da rede de logística e de distribuição.

* Economista

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