Reportagem

Países já preparam o regresso à normalidade

Com metade da população mundial obrigada a tomar medidas de maior ou menor confinamento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) levantou o véu sobre como deve ser o futuro, ao dizer que os países que procuram levantar essas medidas impostas para limitar a propagação do coronavírus devem adoptar uma abordagem “por etapas”.

11/04/2020  Última atualização 12H09
DR © Fotografia por: Áustria, Dinamarca, República Checa e Noruega preparam o levantamento de algumas restrições, tendo em conta a redução da taxa de contágio.

O director de Emergências de Saúde da OMS, Michael Ryan , afirmou, na segunda-feira, que os confinamentos estão de facto “a atenuar as chamas” da epidemia de coronavírus em muitos países.
Para não deitar todo o esforço a perder, o responsável disse que era “provavelmente muito de­sa­conselhável” levantar todas as restrições ao mesmo tempo. Em vez disso, sublinhou, a saída dos bloqueios exigiria uma “abordagem gradual, calibrada por medidas” e uma observação dos resultados.
“Vamos olhar para os dados. E se isso funcionar, passamos à fase seguinte, e à fase seguinte”, disse, em conferência de imprensa.

Wuhan

A China levantou o isolamento de Wuhan, a capital de 11 milhões de pessoas da província de Hubei, onde o surto de coronavírus apareceu oficialmente pela primeira vez, em Dezembro. Ao fim de dez semanas de isolamento radical, dá-se o lento retorno ao normal, ou novo normal.
Ainda existem regras restritivas dentro de Wuhan, para impedir que o vírus regresse. As escolas ainda estão fechadas e continuam a existir limitações de viagem. Os transportes públicos recomeçaram.
As pessoas podem sair de Wuhan, desde que uma aplicação de telemóvel, aprovada pelo Governo, afirme que não constituem um risco de contágio.
Mas se em Wuhan e em países como a República Checa, a Dinamarca e a Áustria anunciaram, nas últimas horas, um calendário com medidas faseadas de retorno à normalização, há países que ainda estão a apertar a malha.

Japão em emergência

Tóquio registou os primeiros casos da Covid-19 no final de Janeiro. Os números davam a entender que a pandemia estava sob controlo, mas um aumento de casos e sobretudo de óbitos nos últimos dias (de 57 para 92, em cinco dias) levou o Primeiro-Ministro Shinzo Abe a declarar, na terça-feira, o Estado de Emergência. É válido durante um mês e aplica-se em sete províncias, entre as quais Tóquio e Osaka.
No entanto, Abe faz questão de distinguir este Estado de Emergência em relação ao de outros países, uma vez que não impõe ao cidadão a ordem de ficar em casa, embora seja aconselhado a fazê-lo.

França, região a região

Em França, no dia em que ultrapassou os dez mil mortos associados ao novo coronavírus e que os parisienses ficaram proibidos de correr entre as 10h00 e as 19h00, o Primeiro-Ministro, Édouard Philippe, reiterou que o “período de confinamento vai prosseguir”. Em 27 de Março, a ordem inicial de permanência em casa de 15 dias foi prorrogada até 15 de Abril.
Na quinta-feira, fora questionado na Assembleia Nacional sobre o levantamento das restrições e, disse na ocasião, que o executivo iria apresentar nos próximos dias um plano. “É provável que não se assista ao fim do confinamento de uma só vez em todo o lado e para todos”, respondeu Philippe, quando questionado sobre o calendário e o processo para o levantamento das medidas de isolamento, sendo certo que qualquer decisão “terá em conta, acima de tudo, as considerações de saúde pública”.
Philippe descreveu o processo de confinamento de França como “assustadoramente complexo”, afirmando que não havia “nenhum precedente” ou “método comprovado” para o fazer. O chefe do Executivo aventou a possibilidade de o levantamento das restrições ser feito numa base regional e “sujeito a uma nova política de testes, dependendo da idade e de outros factores”.

Retorno gradual à vida activa em Itália

enário semelhante ao da França vive-se na Itália, onde o Primeiro-Ministro, Giuseppe Conte, afirmou que o “regresso à normalidade” terá de ser conseguido “gradualmente”.
No domingo, o ministro da Saúde, Roberto Speranza, anunciou um plano em preparação para um levantamento “gradual e controlado” das restrições, que as autoridades prevêem para meados de Maio.
O país, o que mais mortes associadas à Covid-19 regista em todo o mundo, anunciou, na semana passada, o prolongamento do confinamento até 13 de Abril e, segundo o director da Protecção Civil, Angelo Borrelli, esta medida deverá manter-se pelo menos até ao fim de semana prolongado do 1º de Maio.
O plano prevê um reforço das “redes de saúde locais” para fazer a triagem dos casos identificados para tratamento e testar amostras de população para determinar “quantos italianos foram infectados, se são imunes e como, quantos e em que zonas podem regressar a uma vida normal”.
A Itália prevê também impor o uso de máscara generalizado, ditar um “distanciamento social escrupuloso” e afectar determinados hospitais para tratamento exclusivo da Covid-19, que se manterão abertos para a eventualidade de uma segunda vaga de infecções, para que outros hospitais possam voltar a dedicar-se aos outros doentes.
O Governo está também a considerar o desenvolvimento de uma aplicação de telemóvel para cartografar os movimentos dos doentes diagnosticados durante as 48 horas anteriores à infecção e também para facilitar a telemedicina, permitindo, por exemplo, controlar à distância o ritmo cardíaco e a taxa de oxigenação do sangue das pessoas infectadas.
Quando for possível retomar a actividade económica, os primeiros a voltar ao funcionamento normal deverão ser as cadeias de abastecimento alimentar e farmacêutico, seguidos dos estabelecimentos de reparações, se bem que com limites ao número de pessoas atendidas.
Bares, restaurantes, discotecas e recintos desportivos serão os últimos a reabrir e, quando o puderem fazer, terão de manter uma distância de segurança de pelo menos um metro entre clientes e entre funcionários.
As pessoas que queiram regressar à Itália deverão fazer quarentena e apresentar à entrada do avião, comboio ou autocarro uma declaração sob compromisso de honra indicando a morada onde vão respeitar a quarentena.
Os transportes públicos deverão manter uma lotação baixa, assegurada por funcionários que controlarão a entrada de pessoas, a distância entre passageiros e a ocupação máxima de um lugar em cada dois.

Lady Gaga e a OMS

OMS em parceria com Lady Gaga e a ‘Global Citizen’ promove um espectáculo virtual, previsto para 18 de Abril, com o objectivo de uma arrecadação global de fundos para o combate ao coronavírus.
Paul McCartney, Elton John , Billie Eilish, Lizzo, Stevie Wonder, Elton John, John Legend, Chris Martin (Coldplay), Eddie Vedder, Kacey Musgraves, Keith Urban, Alanis Morissette, Lang Lang, Billie Joe Armstrong (Green Day), Burna Boy ou Malumasão alguns dos nomes, aos quais se vão juntar muitos mais ao longo dos próximos dias, que vão participar num espectáculo único, em vários aspectos, chamado de “One World: Together at Home” (Um Mundo: Juntos em Casa), que se fará de um conjunto de participações individuais num show global e que será transmitido por várias estações de televisão e em plataformas de streaming, no dia 18 de Abril (nas primeiras horas do dia 19, em Angola).
Jimmy Fallon e Stephen Colbert são os apresentadores deste espectáculo virtual que dará a conhecer histórias exclusivas de profissionais de saúde - os novos heróis.
A iniciativa é de Tedros Adhanom Ghebreyeses, director-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), através do “Solidarity Reponse Fund” (fundo da organização que agremia doadores e parceiros corporativos), em parceria com Lady Gaga e a ‘Global Citizen’ (organização não governamental).
Lady Gaga explicou o propósito desta iniciativa, feita de diversas actuações nas mais diversas plataformas – Youtube, Facebook, Instagram e Twitter, no início da semana, durante um dos habituais briefings da OMS, em Genebra, através de vídeo-conferência.
A verba arrecadada destina-se aos profissionais de saúde e a instituições sociais, em qualquer parte do mundo, que dão apoio aos mais necessitados - a chamada linha da frente do combate ao coronavírus. Lady Gaga agradeceu a liderança da OMS nesta situação tão difícil, bem como a todos os trabalhadores da Saúde nos Estados Unidos e no mundo. “O meu coração está com todos os médicos”, disse Gaga.
Tedros Adhanom Ghebreyesus aproveitou para dizer que “a pandemia Covid-19 continua a afectar duramente famílias, comunidades e nações em todo o mundo, mas também está a dar origem a actos incríveis de generosidade, solidariedade e cooperação”.
Hugh Evans, co-fundador e CEO da ‘Global Citizen’, explicou, em nota publicada no site da OMS, que a iniciativa pretende apoiar “os esforços heróicos dos profissionais de saúde de todas as comunidades” e que este espectáculo “procura também funcionar como uma fonte de unidade e de incentivo à luta global contra a Covid-19”.
“Estamos nisto juntos e vamos ultrapassar isto juntos”, são palavras do secretário-geral da ONU, António Guterres, que se junta à iniciativa, afirmando, e pode ler-se na mesma nota, que “estamos muito orgulhosos de unirmos forças com o “One World: Together at Home” para ajudarmos a suprimir a transmissão do vírus, minimizar os impactos socioeconómicos na comunidade global e trabalhar juntos para promover as metas globais para o futuro”.

In DN

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