Especial

País rende homenagem aos mártires da Baixa de Cassanje

Francisco Curihingana | Malanje

Jornalista

Os acontecimentos registados um pouco pelos municípios que hoje integram a Baixa de Cassange (Quela, Caombo, Kunda dya Base, Massango e Marimba), com maior incidência na localidade do Teka dya Kinda, no Quela, onde se reuniram mais de duas mil pessoas vindas de todos os cantos do país para manifestar a revolta e dizer basta à exploração colonial portuguesa, ficaram para sempre gravadas na memória colectiva.

04/01/2022  Última atualização 08H15
População era obrigada a vender o algodão a Cotonang © Fotografia por: DR
Nesse dia de 1961 registou-se o considerado hediondo massacre, protagonizado pelo exército português contra os camponeses, revoltados e decididos em estancar a escravatura. O acto teve um desfecho triste e deixou marcas na história de Angola. Foram mortos homens, mulheres e crianças. Muitos deles, enterrados em valas-comuns. Outros levados para nunca mais voltarem ao convívio das famílias.
Paulo Francisco Mussenje, 88 anos de idade, foi preso e condenado. Permaneceu seis anos na cadeia de São Nicolau e foi posto em liberdade em 1966. "Fizemos a revolta pelo castigo que nos foi imposto. Naquele tempo, ninguém podia dizer nada. Fizemos trabalhos forçados na estrada, outros iam à busca de água para as casas dos portugueses. Outros na recolha da lenha, tudo isto é que esteve na base da revolta", explica.
Paulo Mussenje conta que no Teka dya Kinda não morreram só naturais daquela localidade. "Veio gente de todas as partes, não só de Malanje. Aqui, não morreu só o povo do Teka dya Kinda. Morreu gente de todo o lado. Eu assisti. Fui preso, encontraram-me no bairro. Na altura já era grandinho. Eu e mais um amigo fomos presos. Fui levado para Moçâmedes, São Nicolau. Só fazíamos trabalho de peixe", diz.
Lembra-se ainda de nomes de amigos e familiares mortos na repressão. Sofia Kakhanga, Sofia Kimateka, entre outros, foram recordados, além  dos alvejados e os que fugiram para as matas e nunca mais voltaram.


Dever cumprido

Passados 61 anos, Paulo Mussenje não vê com bons olhos a mudança do 4 de Janeiro para uma data de celebração nacional. "Essa data deu o pontapé de saída da negação dos angolanos daquilo que foi a acção dos portugueses no país. O 4 de Janeiro podia continuar a figurar na lista dos feriados nacionais. Aqui morreu muita gente. Foram enterrados na vala-comum. É preciso honrar esses homens, mulheres e crianças mortas barbaramente aqui. Recebemos na cadeia os outros prisioneiros da acção do 4 de Fevereiro. Eles encontraram-nos já nas cadeias", recorda.
Seis décadas depois, o ancião encontra-se inscrito como beneficiário dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, com um subsídio mensal de 20 mil kwanzas.
 Não tenho casa, não tenho nada"., refere. Por seu turno, Alberto Magalhães, soba Teka dya Kinda, tinha 15 anos por altura dos acontecimentos do 4 de Janeiro. Lembra que a revolta deveu-se  ao sofrimento, à humilhação  a que a  população era submetida pelo regime colonial português”.
"Éramos obrigados a cortar vigas para fazer pontes. Transportamos paus do rio Luhanda até grandes distâncias. Cada viga era transportada por 50 pessoas, 100  transportavam 2 vigas/três quilómetros a pé. Depois, éramos obrigados a trabalhar nos campos de algodão. Cada casal tinha a empreitada de um hectare. Como se não bastasse, ainda tínhamos de prestar trabalho doméstico nas habitações dos portugueses residentes aqui. Transportamos a água no rio Kanhuki, pegar lenha para as casas dos portugueses. Enfim, era muito sofrimento", diz o ancião e camponês de 74 anos de idade.


Gota de água transborda o copo
O soba Teka dya Kinda conta que o ponto alto da revolta foi quando uma viatura de um comerciante português, ida do município do Kunda dya Base,  deparou-se  com um obstáculo ao longo da estrada. Era uma árvore caída e que não permitia a passagem dos automobilistas.
Diante deste cenário, o comerciante dirigiu-se a uma aldeia próxima e pediu ao soba Mancuri para prestar auxílio, com meios e homens para permitir a passagem e continuar com a viagem. O soba rejeitou dando a seguinte  resposta ao cidadão português: Hoje não. Por hoje, a escravatura acabou! Neste sentido, o senhor vai mesmo ter que ir buscar a esposa que ficou em Portugal para vir te ajudar a cortar o pau. Nós aqui não estamos dispostos a lhe ajudar. Queremos liberdade!".
O soba cedeu o machado ao comerciante português. Ele e algumas pessoas retiraram o obstáculo da estrada e prosseguiram. Depois de chegar à vila do Quela, contou o sucedido ao administrador do Posto, que, por sua vez, comunicou à alta hierarquia em Malanje.
Em resposta, foram enviadas àquela localidade 35 veículos militares. "Todos passaram a noite no Quela. No dia seguinte, às 5 horas da madrugada, partiram em direcção ao Teka dya Kinda. No mesmo dia, toda a população se concentrou na aldeia do Teka dya Kinda. Os soldados portugueses, depois de terem saído do Quela, dirigiram-se  ao soba que rejeitou prestar auxílio ao comerciante português. Maltrataram-no e, de regresso, encontraram multidão. Os portugueses questionaram as razões da concentração populacional. Em resposta, disseram: ‘Hoje acabou a escravatura, sofremos demasiado. Já não queremos mais nada com vocês!", lembra.
Alberto Magalhães confessa que a população não dispunha de material sofisticado, tinham apenas armas artesanais (canhangulos), catanas, paus e a inspiração pela liberdade.
O capitão e chefe da caravana militar do exército português tentou o entendimento com a população furiosa, sem êxito. Com muitos homens e meios, ordenou que se tirasse uma metralhadora HK-21. "Atiraram, inicialmente, uma granada ofensiva, todo o mundo caiu para o chão. Ninguém ficou em pé. Alguns ficaram cortejados mesmo já com a primeira granada lançada. A metralhadora só disparou duas vezes. Pronto, ali,  alguns tentaram fugir, mas foram alvejados. O meu pai era adjunto do soba, aqui", conta. Os 30 feridos foram levados para o hospital na cidade de Malanje que, depois de curados, nunca mais voltaram ao convívio das famílias. "Foram mortos e atirados ao rio Kwanza. Dos 30 indivíduos só regressaram dois. De resto, foram todos mortos", diz.
"O Presidente Neto, antes de morrer, veio aqui. Lançou a pedra para a construção da que seria a aldeia piloto. Desde que nos deixou, nem já uma sala de aulas, nem posto médico. Hoje não ouvimos nada, meteram uma escola aqui no Banda, no limite entre o Quela e o Kunda. Colocaram uma escola no Mufuma e outra no Zage. Aqui no Teka dya Kinda nem há uma sala. Aquela sala que está aí é do tempo colonial. Temos muitas crianças fora do sistema de ensino. Os filhos, muitos deles, estudam numa aldeia a três quilómetros daqui. Estamos a pedir que olhem também para a nossa situação", apela o soba Teka dya Kinda.
O soba Nzage ya Languela, hoje com 72 anos de idade, pede que se preste maior dignidade aos protagonistas do 4 de Janeiro de 1961, pois "aquele grupo de angolanos demonstrou a bravura e manifestou aos portugueses a necessidade da independência e liberdade”. Defende que o 4 de Janeiro deve constar dos feriados nacionais para melhor homenagear os camponeses  brutalmente massacrados, pois abriu caminho para a Luta de Libertação Nacional.
Tenente-coronel das Forças Armadas Angolanas (FAA) na reserva, José João Rafael, um homem hoje ligado a negócios, refere que quando se registou a revolta estava no município do Cuango (Lunda-Norte), com os pais que trabalhavam naquela localidade.
"Lembro que também perdemos muitos familiares e colegas do meu pai. Um dos colegas do pai foi passar o Natal de 1960 junto da família. Em Janeiro de 1961 rebentou a confusão e um desses aprendizes do meu pai também foi vítima", diz.
Admira a coragem dos revoltosos que, mesmo sem equipamentos à altura, desafiaram o poderio militar do exército português, detentor de espingardas e outro material bélico mais sofisticado. "Na área de Mwana Cafunfo, a população apostou e uniu-se. Infelizmente, foram dizimados. A tropa portuguesa estava no outro lado do rio Cáfua e a população junto da regedoria Mwana Cafunfo. Mesmo sem meios à altura, desafiaram a tropa portuguesa que tinha armas. Quando abriram fogo, muitos ficaram ali, outros até acabaram por morrer no capim e tínhamos lá também famílias que acabaram por desaparecer", prossegue.
José João Rafael diz não concordar com a mudança do feriado para uma data de celebração nacional. "O 4 de Janeiro devia ser consagrado como Feriado Nacional, porque morreu muita gente e, no entanto, tinha que se reconhecer o espírito heróico de simples camponeses que se entregaram sem olhar a meios para reivindicar um direito que se lhes assistia", observa.

Testemunho as gerações
Para José João Rafael, existem jovens angolanos que não conhecem a importância histórica do 4 de Janeiro, muitos por falta de interesse. "Hoje, temos muitos jovens formados, com títulos de doutores e não conhecem a história da Baixa de Cassange. ", lamenta.
Pede que seja cumprido o legado do Presidente Agostinho Neto quando visitou o Teka dya Kinda, no município do Quela, e defendeu a construção do memorial para homenagear os homens, mulheres e crianças, brutalmente, massacrados pelo exército do regime colonial português.
 
Mais divulgação da data
O director provincial dos Antigos Combatentes, Ananias Gomes, defende uma maior divulgação da data. "Os jovens devem saber que para conseguirmos a Independência, a paz e a democracia que estamos a construir, muitos deram a vida pelo país que temos. Devemos continuar a reflectir  e a honrar a memória desses valorosos angolanos que se entregaram destemidamente  para reivindicar melhor salário, uma vida mais condigna e  liberdade”, concluiu.

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