Entrevista

País carece de plantas melhoradas com recurso às novas tecnologias

Marcelo Manuel | Ndalatando

Jornalista

A introdução massiva de mudas de café melhoradas com recurso às novas tecnologias de adubação e irrigação, bem como o apoio financeiro aos cafeicultores, são apontados pelo director-geral adjunto para a Área Técnica do Instituto Nacional do Café de Angola (INCA) como principais premissas para o relançamento da produção. Em entrevista ao Jornal de Angola, José Mahinga fala do estado do cafezal no país, dos factores que afectam a produção, dentre outras questões

27/09/2021  Última atualização 07H55
© Fotografia por: DR
Como caracteriza a situação actual da produção do café em Angola?

Angola é abençoada com bom clima e solos aráveis. Essa dádiva de Deus poderia ser aproveitada da melhor maneira com investimentos e incremento da produção do café. Aliás, o país é fértil em história sobre o café que vai desde a implantação da primeira plantação comercial no Cazengo, no século XVIII, em que o país foi o quarto produtor mundial. Em resumo, a situação actual caracteriza-se por plantações velhas, produtividade baixa, produção, sobretudo, de base familiar, baixo nível tecnológico e cerca de 36 mil hectares de área produtiva, muito pouco se comparado com a área potencial existente no país, que já foi de aproximadamente 600 mil hectares no passado.

O que se faz em termos de fomento?

Existe o querer do Instituto e do Ministério da Agricultura e Pescas em elevar os níveis de produção, melhorando a cadeia produtiva, mobilizando financiamentos para a actividade cafeícola, com vista a aumentar os níveis de café produzido. Nesse âmbito, acções de fomento têm tido lugar, mormente o fornecimento de mudas visando a instalação de novas plantações, aliado à criação de condições para o processamento e comercialização interna do produto. Em suma, podemos caracterizar a situação da produção nacional do café como necessitando de investimentos ao longo de toda a cadeia produtiva.

Quais são os níveis de produção anual do café em Angola?

O que produzimos não reflecte o potencial que o país possui. Só para reter, na última campanha de colheita (2020), o país produziu 6.050 toneladas de café comercial, ou, se preferirem, pouco mais de 100.833 sacos de café de 60 quilos. Se tivéssemos programas de recuperação do sector cafeícola, acreditamos que a produção poderia ser, a médio prazo, 10 vezes mais, pois temos potencial para que isso aconteça.

Quantas fazendas existem no país?

A produção de café é feita maioritariamente por produtores familiares, que exploram áreas de até cinco hectares. O modelo vigente no período colonial, em que a produção era feita em médias ou grandes fazendas, já não se observa, embora esteja a surgir um novo sistema produtivo em escala, mormente na região de produção do café arábica.

Face às condicionantes apontadas, o sector do café no país estagnou?
Houve uma evolução no sistema produtivo do café até aos nossos dias. Actualmente, temos três categorias de produtores, nomeadamente, familiar, que fazem recurso à contratação de outras pessoas nas etapas de pique produtivo (colheita, capina), em extensões com uma média de cinco hectares e que sempre recorrem a soluções tecnológicas avançadas no domínio da produção. Os médios produtores, com explorações até 50 hectares, quase sempre não têm meios para trabalhar na plenitude da área de que dispõem. Temos os grandes produtores, com plantações novas, adensadas, que recorrem à irrigação e adubação, e parte do trabalho já é feito com recurso a maquinaria.  Esses produtores estão, maioritariamente, implantados nas novas regiões de fomento do café arábica, principalmente, nos municípios do Cuanza-Sul. Destes, a médio prazo, esperamos uma contribuição significativa nos volumes de café a produzir.


Qual é o número de pessoas envolvidas na produção do café em Angola?

Todos juntos representam cerca de 16 mil produtores, dos quais 90 por cento são familiares. Os estudos indicam que perto de 60 mil indivíduos estejam envolvidos directa ou indirectamente na produção do café em Angola, um número que deve aumentar se considerarmos o passado, o potencial existente e a realidade nos outros países produtores.


Como é que o país está em termos de compradores?

O volume do café produzido é comercializado, pois a oferta é inferior à procura. Excepção tem sido o café produzido em áreas de difícil acesso. Aqui o Instituto tem dedicado especial atenção, direccionando os operadores comerciais, para que o café seja comprado na totalidade. Mas, na globalidade, os problemas do passado relacionados com a comercialização interna de café foram ultrapassados pela dinâmica do próprio mercado. Temos sim volumes de produção baixos e ainda uma desestruturada cadeia de comercialização.


Como vão as exportações e quais os principais destinos?
Em 2020, o país exportou 1.662 toneladas de café verde (27.701 sacos de 60 quilos), valorizados em 1.260.680 dólares. Os principais destinos foram Portugal, Espanha e Líbano. Os preços do café angolano são regulados pela Bolsa de Londres. No mercado interno, durante o ano passado, os preços rondaram, em média, os 500 kwanzas, por quilo de café comercial. Já o quilograma de café mabuba, os preços oscilaram entre os 200 e 240 kwanzas, respectivamente, de acordo com a qualidade apresentada.

Os preços satisfazem os anseios dos cafeicultores?

 Se comparados com os custos de produção, o poder de compra da moeda e a situação actual da nossa economia, diríamos que o preço não satisfaz o produtor, dada a essência da própria commodity, tratos culturais durante todo o ano que culminam com uma única colheita. Mas como fizemos menção, o café é produto de bolsa e sempre houve e haverá necessidade de conciliar o preço de quem produz com os outros intervenientes na cadeia. Mesmo assim, e este tem sido o apanágio do nosso Instituto, o produtor ainda fica com cerca de 45 por centos do valor total, indexado ao valor da bolsa.

 
Como está o financiamento da produção?

Há falta de financiamento à cafeicultura e isto não é segredo para ninguém. Uma muda de café instalada em local definitivo tem uma produção ténue, normalmente no terceiro ano, após instalação, com uma produção cruzeiro, (em alta) no sétimo e oitavo ano. Os financiadores, regra geral, querem reembolsos rápidos. Mas, investindo na cafeicultura, apesar desse tempo de espera a que fizemos menção, o investimento é rentável durante 12 ou 15 anos, e nas nossas condições e sistemas produtivos a base de sombra, em até 25 anos. Então, a médio e longo prazo não encontrarás investimento melhor em termos de sustentabilidade. Daí o convite que mais uma vez formulamos aos bancos comerciais, aos fundos e financiadores afins, no sentido de olharem com esta visão os financiamentos à cafeicultura. Por outro lado, o Banco de Desenvolvimento de Angola incluiu os financiamentos à cafeicultura na carteira de investimentos, numa demonstração de que o Governo tem no café uma das fontes de renda a partir dos produtos de origem agrícola. A juntar a isto, estão igualmente os financiamentos no âmbito do PRODESI. Encorajamos os produtores e agentes a aproveitarem estas linhas abertas pelo Governo, visando a actividade cafeeira.

E quanto a introdução de tecnologias na produção?

O escalão de grandes produtores, que vêm emergindo, já faz algum recurso às novas tecnologias e técnicas de produção. A irrigação, adubação, adensamento de plantações com compassos mais apertados, recurso a culturas mais produtivas, uso de maquinaria em algumas operações culturais são já uma realidade nesse escalão. Mas, ainda assim, temos um caminho longo a percorrer, dada a evolução que se regista todos os dias. Auguramos, por exemplo, a instauração de uma rede tecnológica online onde a venda, as formas de cultivo, os diferentes tamanhos e os preços diários sejam reflectidos. A juntar a isto, o Instituto tem planificado e já começou o aprimoramento das técnicas de reprodução a partir de estacas retiradas de plantas eleitas, mais produtivas, resistentes a pragas e doenças, resilientes às mudanças climáticas, entre outros. Queremos migrar para a multiplicação vegetativa do cafeeiro robusto.

Quais as variedades de café produzidas em Angola?

Os tipos ou variedades de café em Angola são função de biomas locais. Para o caso do café robusto, autóctone, temos o café "Amboim”, cultivado maioritariamente na província do Cuanza-Sul. A seguir temos o "Ambriz” que floresce nas serras altas do Uige e o Cazengo, cuja origem é o município com o mesmo nome, que também é berço da primeira plantação comercial do café em Angola, a partir de plantas autóctones das matas daquela região. Temos também "Cabinda” que cresce e floresce nas matas tropicais da região com igual denominação.

E as províncias mais produtivas?

O café é produzido em 10 províncias, embora os estudos apontem para a viabilidade de poder ser introduzido em outras províncias, principalmente no leste do país. Em 2020, a província do Uíge produziu 1.963 toneladas, Cuanza-Sul, 1.694, enquanto as do Cuanza-Norte, Bengo, Cabinda, Huíla, Huambo, Bié e Benguela produziram um total de 2.393 toneladas. Daqui vê-se que o café é produzido maioritariamente nas províncias do Cuanza-Sul e Uíge, que em conjunto, no último ano representaram cerca de 60 por cento do total de café produzido.


Como está a situação do descasque do café?

O país tem alguma capacidade instalada de descasque, mas o maior problema impõe-se na distribuição espacial destas máquinas ao longo das regiões produtoras. Dado o seu número exíguo, nem todas as províncias produtoras possuem descasques, pelo que em alguns casos, o produto da espécie mabuba ainda é transportado a locais distantes para o descasque.

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