Opinião

Ousar mudar

Apusindo Nhari |*

Jornalista

"…os países que dependem do sector[petrolífero]serão obrigados a encontrar soluções, tendo em vista a sustentação das suas economias. Não há tempo para ganhar mais… tempo." J.M. da Silva (NJ, 28/5/2021)

06/06/2021  Última atualização 05H00
Quantas vezes permanecemos amarrados a velhas práticas, prosseguindo por trilhos antigos, mesmo após ter percebido que não chegaremos onde queremos? Encravados na reprodução de modelos inadequados, bloqueados pela inércia ou pela falta de coragem para inovar. Pior ainda é quando - por não cuidarmos de bem saber o que queremos - preenchemos o vazio submetendo-nos a estratégias alheias…ou simplesmente refazendo o que já fazíamos.
Copiar ou seguir outros poderá até ter o seu valor. Chega a ser parte do processo de aprendizagem comum na transmissão de experiência de pais para filhos, por exemplo. Prática igualmente habitual entre países e grupos onde uns tentam alcançar o que vêm noutros aparentemente mais bem sucedidos. Frequentemente sem perceberem no que se estão a meter, ao imitar o que não entendem...

Mas copiar outros ou repetir o que sempre fizemos, tem riscos. Em especial na ausência de sentido crítico, na falta de capacidade para avaliar a nossa própria evolução e do que nos rodeia, e se escasseia a coragem e o talento para romper, para iniciar um novo caminho enriquecido pela experiência acumulada.
Inovar implica auto-confiança. E confiança nas estruturas e nas pessoas. Na capacidade para pensar novos caminhos sem a submissa aprovação condescendente de outrem.

A dependência que - como nação independente - temos demonstrado ao longo dos anos(e não parece diminuir) dos pareceres de consultores - tantas vezes desligados dos interesses nacionais e desconhecedores dos meandros e especificidades da nossa realidade - é preocupante. E é um claro reflexo da incapacidade que temos em afirmar uma linha de pensamento, senão original, pelo menos caucionada por uma ampla discussão entre nós mesmos sobre as várias possibilidades que se nos apresentam. Concedendo que o problema não está em recorrer a consultores "externos”, mas à forma como são escolhidos, considerados e enquadrados. E como são tratados os seus pareceres.

As lideranças políticas a quem caiba a responsabilidade de governar e de gerir o Estado, deveriam ver como aliados os peritos nacionais (salvo, talvez, os actuais "politólogos”), independentemente das visões ideológicas.
Não é, por tudo isso, surpreendente que, como país, estejamos a vulnerabilizar recursos naturais anteriormente protegidos (pelos menos do ponto de vista legal…) para prosseguir e alargar a exploração petrolífera e mineira. E vemos aqui um triste paralelo com a nossa incapacidade em preservar as zonas antigas das nossas cidades e o seu património arquitectónico. Em ambos os casos é evidente a dificuldade em reconhecermos o valor do que possuímos e a vontade de seguir modelos de "desenvolvimento” que já tivemos tempo de descobrir que nos poderão desservir.

Já devíamos ser capazes de nos sentir no mínimo incomodados diante da incapacidade - ou a falta de vontade - de ler os múltiplos sinais que indicam que os combustíveis fósseis serão em breve coisa do passado, se dermos crédito, entre outras, às relevantes e visionárias decisões da Agência Internacional de Energia (AIE) inscritas no road map que ela propõe para se alcançar "emissões zero" em 2050(localizado em https://www.iea.org/reports/net-zero-by-2050). O seu director, Fatih Birol, em entrevista recente à Reuters afirmava que: … "(já em 2021) os investidores não devem promover novos projectos de extracção de petróleo, gás e carvão, se se pretende atingir o objectivo global de zero-emissões em meados deste século”.

Numerosos actores do sector petrolífero dão passos claros no sentido de se aproximarem das energias renováveis no contexto do crescente consenso em torno da importância da descarbonização das economias.
Enquanto pelo mundo há bastos exemplos de cidadãos e instituições a conseguir bloquear iniciativas de prospecção petrolífera em zonas turísticas, em zonas estratégicas de biodiversidade ou com recursos paisagísticos valiosos, entre nós insiste-se no "velho caminho” que, mesmo do ponto de vista do retorno económico - que não deve ser o único critério a considerar - pode ser demasiado arriscado.

Que atenção damos aos efeitos das alterações climáticas que a todos afectarão, mas em especial aos mais pobres? Queremos sacrificar áreas de conservação, apesar do seu essencial contributo para o equilíbrio ecológico, para um melhor viver e para o desenvolvimento do turismo, e que poderá oferecer uma saudável diversificação da economia, criação de empregos e desenvolvimento local.
Temos de ousar inovar. E, com firmeza, retirar lições das muitas distorções e dores que nos causou a aposta repetida em sectores de tecnologia intensiva e intrusiva, dominada por outros, e tendo-nos a nós - no fim da cadeia - como simples beneficiários e receptores do (mal utilizado) manancial de petrodólares.

O mero copiar é um processo de imitação passivo onde raramente se aprende. O que precisamos é de nos apropriar dos bons exemplos, aprendendo-os, enriquecendo-os, tornando-os nossos, usando-os como plataforma para desenvolvermos os nossos próprios caminhos.
Mudando igualmente a maneira de fazer essa aprendizagem, envolvendo as nossas instituições de conhecimento e pesquisa, promovendo e respeitando a opinião da sociedade civil e de todas as pessoas com diversas competências e que não estejam necessariamente no círculo do poder.

                                                                             * Académico angolano independente

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