Especial

“Óscar Ribas”é a escola que ensina a ler e a escrever a pessoas cegas em Angola

Osvaldo Gonçalves

Jornalista

Nascido nesta data, em 1809, em Coupray, a 30 quilómetros de Paris (França), Louis era o mais novo de quatro irmãos de uma família humilde, ficou cego aos três anos de idade fruto de um acidente com uma faca de sapateiro que o pai, celeiro, usava para cortar couro.

04/01/2022  Última atualização 05H15
© Fotografia por: DR
Perdeu a visão do olho direito e o ferimento levou a uma infecção que provocou a cegueira total em ambos os olhos.
Matriculado na escola local, numa tentativa dos pais e do padre da paróquia para que tivesse uma vida o mais normal possível, Louis demonstrou enorme facilidade em aprender o que ouvia, o que valeu a selecção como líder da turma até que, aos 10 anos de idade, ganhou uma bolsa do Institut Royaldes Jeunes Aveugles (Instituto Real de Jovens Cegos) de Paris.

Embora aprendesse bastante, devido ao método na altura inovador do fundador do instituto, Valentin Haüy, um dos primeiros a criar um programa para ensinar os cegos a ler, com experiências que envolviam a gravação em alto-relevo de letras grandes, em papel grosso, Louis  Braille observou que as crianças não podiam escrever porque a impressão era feita com letras costuradas no papel.

Nessa altura, escreveu no seu diário uma frase representativa do seu espírito batalhador: "Se os meus olhos não me deixam obter informações sobre homens e eventos, sobre ideias e doutrinas, terei de encontrar uma outra forma.”

Origem militar
Quando, Louis tinha 12 anos, Charles Barbier, capitão reformado da artilharia francesa, visitou o instituto, onde apresentou um sistema de comunicação chamado de escrita nocturna, também conhecido por Serre e que mais tarde veio a ser chamado de sonografia, um método de comunicação táctil que usava pontos em relevo dispostos num rectângulo com seis pontos de altura por dois de largura e com aplicações práticas no campo de batalha, quando era necessário ler mensagens sem usar a luz que poderia revelar posições, o adolescente Braille entusiasmou-se com a novidade e dedicou-se a aperfeiçoar o sistema.

Dois anos depois, lançou uma versão optimizada com apenas seis pontos a representar todas as letras do alfabeto. Um ano depois, mostrou a representação dos números e o código musical.
Importa dizer que Louis Braille tocou órgão na igreja Saint-Nicolas-des-Champs, em Paris, e com o seu amigo Pierre Foucault, cego aos seis anos de idade e um génio da mecânica, criou uma máquina para acelerar o sistema de impressão em braille.

Composto por 64 sinais gravados em papel em relevo, combinados em duas filas verticais e justapostas, à semelhança de um dominó ao alto. A leitura do Braille faz-se da esquerda para a direita.

Apesar dos estudantes do instituto terem adorado o sistema, este demorou até ser compreendido pelos videntes e chegou até mesmo a ser proibido no instituto, levando as crianças a aprendê-lo sozinhas e escondido. Só em 1854, dois anos após a morte de Louis Braille, os professores aceitaram o sistema e este passou a ser ensinado de forma oficial. O reconhecimento por parte do Estado francês viria apenas em 1952, quando o corpo de Louis Braille foi transferido para o Panthéon da nação.

Crucial para os direitos humanos
O Braille é hoje um sistema conhecido em praticamente todo o mundo e é usado como forma oficial de escrita e de leitura das pessoas cegas.
Em Novembro de 2018, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o 4 de Janeiro como o Dia Mundial do Braille, para dar visibilidade ao facto de que "facilitar o acesso à escrita é um requisito crucial para que as pessoas com deficiência visual possam desfrutar plenamente dos direitos humanos e das liberdades fundamentais”.
A decisão pretende reconhecer que a promoção dos direitos humanos e liberdades fundamentais no contexto do acesso à linguagem escrita é um pré-requisito essencial para a plena realização dos direitos humanos para cegos e deficientes visuais.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem no mundo cerca de 1,3 mil milhões de pessoas que vivem com alguma forma de distúrbio de visão.
O decano dos escritores angolanos
A primeira obra do escritor que lemos foi "Missosso” I, II e III, publicados em 1961, 1962 e 1964.
Adolescentes na altura, estávamos longe de entender (e talvez ainda estejamos) a grandeza de Óscar Ribas, escritor, etnólogo, ensaísta, que soube aprofundar-se, como poucos, no estudo da literatura oral angolana.
Ele registou a escreveu contos, adivinhas e provérbios, em particular da língua Kimbundu. Nos três volumes de "Missosso”, homens, monstros, animais e almas falam entre si sobre a vida, o que nos remete para filologia, a religião tradicional e a filosofia dos povos deste grupo étnico.
Nascido em Luanda a 17 de Agosto de 1909, filho de pai português, e de mãe angolana, Óscar Bento Ribas viveu também no Sumbe, Benguela, Ndalatando e Bié.

Por muitos considerado fundador da ficção angolana, iniciou a sua actividade literária ainda no liceu. Começou por publicar a novela "Nuvens que Ficam Verdes”, em 1927, a que se seguiram "Resgate de Uma Falta de Educação”, no mesmo género em 1929.

Obra gigantesca

Acometido por uma renite pigmentária, doença congénita, Óscar Ribas acaba por perder a visão aos 36 anos de idade. O seu irmão passa a registar no papel aquilo que ele ditava. Sem publicar por mais de 20 anos, volta e surpreende com "Flores e Espinhos Uanga”, em 1950 e "Ecos da Minha Terra Natal!”, em 1952.
Seguem-se o romance folclórico Uanga – Feitiço, "Ilundo – Espíritos e Ritos Angolanos (1958), "Missosso I, II e III (1961, 1962 e 1963), "Alimentação Regional Angolana” (1965), "Izomba – Associativismo e Recreio” (1965), "Sunguilando – Contos Tradicionais Angolanos” (1967), "Kilandukilo – Contos e Instantâneos” (1973), "Tudo Isto Aconteceu – Romance Autobiográfico” (1975) e o volume de poesia "Cultuando as Musas” (1992) e o "Dicionário de Regionalismos Angolanos”, obra imponente com 314 páginas (1997).

Títulos e prémios

Falecido em 2004, em Cascais (Portugal), Óscar Ribas foi agraciado em 2000 com o Prémio Nacional de Cultura, na categoria de Literatura e Investigação em Ciências Sociais e Humanas.

O escritor foi ainda distinguido com os prémios MargaretWrong (1955), de Etnografia do Instituto de Angola (1958) e Monsenhor Alves da Cunha (1962) e os títulos de membro titular da Sociedade brasileira de Folk-lore (1954), Oficial da Ordem do Infante do Governo português (1962), a Medalha Gonçalves Dias pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (1968) e o Diploma de Mérito da Secretaria de Estado da Cultura (1989).
A memória do decano dos escritores angolanos encontra espaços privilegiados na Casa Museu fundada em 1983 pela extinta Secretaria de Estado da Cultura, e na Universidade Óscar Ribas (UOR), instituição privada de Ensino Superior, integrada no Sistema Nacional de Educação vigente em Angola, criada em 2007.
Localizada no bairro Cruzeiro, em Luanda, a casa onde o escritor viveu entre 1975 e 1983 é composta por nove salas de exposições permanentes, uma delas sobre o autor e guarda memórias de uma das figuras mais importantes da literatura angolana.


Especialista pede maior atenção aos invisuais da Escola Óscar Ribas

Hoje é  o Dia Mundial do Braille, data escolhida em homenagem ao nascimento de Louis Braille (4.1.1809 – 6.1.1852), criador do sistema de leitura e escrita para pessoas cegas.
Narra a história que Louis Braille tornou-se cego aos três anos, ao ferir o olho esquerdo com uma ferramenta, na oficina do pai. Acometido por uma infecção que se alastrou para o olhodireito, Louis Braille tornou-se cego total.
Entretanto, incentivado pela família, a condição de cego não foi impedimento para Louis Braille frequentar a escola. A sua dedicação aos estudos lhe proporcionou uma bolsa de estudos no Instituto Real de Jovens Cegos de Paris, onde, em 1929, estudou e publicou um sistema de leitura e escrita para cegos, mundialmente conhecido pelo seu nome.
Código universal de escrita e leitura táctil para pessoas cegas, que consta da combinação de seis pontos em relevo, dispostos em duas colunas de três pontos, o espaço ocupado pelos seis pontos forma o que se convencionou chamar "cela Braille”.
A fim de facilitar a sua identificação, foram criados pontos que são numerados do alto para baixo, coluna da esquerda: pontos 1, 2, 3; do alto para baixo, coluna da direita: pontos 4, 5, 6. O Sistema Braille possibilita a formação de 63 símbolos diferentes, usados em textos literários nos diversos idiomas, como também nas simbologias nas áreas da Matemática, Química, Música e Informática. A escrita do Sistema Braille pode ser manual com a utilização de reglete e punção, com máquina de escrever braille, ou ainda com impressora Braille.
Em Angola a primeira instituição com o uso do sistema em baile, o Instituto Óscar Ribas, foi fundada a 31 de Agosto de 1972   pelo escritor Óscar Ribas e o médico oftalmologista Santos Lapa. Passou à tutela do Ministério da Educação em 1981, tendo formado um ano depois o primeiro grupo de professores para o ensino especial.
Actualmente, a escola funciona em dois turnos, manhã e tarde, e tem 27 professores, 5 dos quais com deficiência visual. Os professores ensinam da primeira à nona classe um universo de 323 alunos, com idade entre os cinco e os 25 anos de idade. Destes, 43 têm deficiência visual, desde a iniciação Braile até a 9ª classe.
Localizada no Distrito Urbano da Maianga, bairro de Alvalade, a Escola do Ensino Especial Óscar Ribas também funciona como centro de recurso de apoio aos alunos com deficiência visual de Luanda, disponibilizando apoio técnico e material, e através da formação de docentes em leitura e escrita em Braille.
No ano passado a secretária de Estado do Ministério da Família, Promoção da Mulher e Reinserção Social, Elsa Bárber, disse que foram criadas 1.895 salas inclusivas e 28 para o atendimento especial, com vista a garantir o acesso de pessoas com deficiência visual ao sistema de ensino. De acordo ainda com Elsa Barber, o Censo Geral da População e Habitação, realizado em 2014, revelou que Angola tem mais de 656.258 portadores de deficiência, o que representa 2,5 por cento da população. Deste número, 58.921 são deficientes visuais, 30.134 estão em zonas urbanas e 28 mil e 787 residem no meio rural.

ABC em Braille
O sistema Braille é fundamental para a alfabetização de crianças cegas, e a aprendizagem de línguas estrangeiras. Atendendo este ponto de vista, o director da Escola de Ensino Especial Óscar Ribas, Pedro Mabilama Manuel, considera que urge a necessidade de se criar condições e acessibilidade para as pessoas com deficiência visual nos cursos de formação de professores.
Pedro Manuel apontou as máquinas Braille, papel Braille, cubarítimos e ábacos como os materiais em falta para que a escola Óscar Ribas tenha êxito no trabalho que se pretende em prol dos deficientes visuais.
O director Escola de Ensino Especial Óscar Ribas conta que existe uma sala de informática na instituição, com computadores sonoros, mas por falta de software as máquinas montadas estão em modo "off”.
"Pedimos ao Executivo uma maior atenção para com os alunos com deficiência visual. Todos têm muita vontade de aprender e ser inseridos no mercado de trabalho, mas, para isso, é importante que eles estejam suficientemente preparados na escola. Isso só será possível com as condições criadas”, disse.

Esperança Gicasso, a referência

Foi acometida com deficiência visual aos três anos de idade, como consequência de um surto de sarampo. O diagnóstico lhe foi dado no hospital, onde, à época, a família acorreu em busca de tratamento para a repentina queixa de Esperança Gicasso.
"Já não tenho cura porque a cicatriz afectou a menina dos meus olhos”, conta Esperança Gicasso, acrescentando que é independente para fazer suas coisas, mas que sempre teve a supervisão dos pais.
Esperança Gicasso nasceu na província do Huambo, também conhecida por Planalto Central. Passou a fazer parte do desporto paralímpico em 2008. Graças ao desporto concluiu os seus estudos e hoje com 29 anos é formada em Pedagogia. Professora na instituição que a formou, Esperança afirma sem reservas: "Amo dar aulas.

Eu cresci no Óscar Ribas, tenho muitas lembranças boas. Parte de mim é aqui, por isso me sinto na obrigação de passar a minha experiência para estes meninos”.
Docente há nove anos, Esperança Gicasso trabalha com crianças da primeira classe e garante que continua a sua vida desportiva.
"Sou uma mulher do desporto, mesmo não estando activamente, não paro de correr, e incentivo outras crianças a fazerem o mesmo. Nada nos impede de nos considerarmos pessoas normais, basta termos amor próprio para que a sociedade aprenda a nos amar também.

A discriminação está na mente das pessoas que olham para nós com pena. Mas nós olhamos para nós mesmo com determinação em alcançar o nosso objectivo, no sentido de sermos mais uns, mas no sentido de a sociedade saber que pode e deve contar connosco sem reservas”.
Até aqui, Esperança conquistou 17 medalhas na sua brilhante carreira.
Destas, quatro de ouro, oito de prata e cinco de bronze em competições múltiplas. Um recuo aos eventos em que participou, destaca o Campeonato Mundial de Para-atletismo realizado em 2017, em Londres, Reino Unido, como uma das mais memoráveis.
Por outro lado, a professora e atleta paraolímpica, reconhece que foi graças ao Comité Internacional Paralímpico que concluiu a licenciatura em Pedagogia e conta com um seguro de vida. "O desporto mudou a minha vida. Hoje sou uma mulher de 29 anos, reconhecida mundialmente, apesar da minha deficiência visual”, realçou.


Osvaldo Gonçalves e Yara Simão |

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