Entrevista

Óscar Paulo: “12 em cada 100 pessoas padecem de hepatite B em Angola”

O especialista em gastroenterologia Óscar Alfredo Paulo revela que estudos realizados em várias províncias do país, com principal incidência em Luanda, Uíge, Benguela e Malanje, indicam que, em Angola, 12 em cada 100 pessoas padecem de hepatite B. O médico, formado na Universidade de Campinas, em São Paulo, no Brasil, alertou que existem muitos casos entre nós e a grande maioria está na fase silenciosa sem nenhum sintoma. “Os hospitais já têm registado um aumento de doentes por complicações da hepatite B e muitos deles morrem rapidamente e essa tendência vai aumentar nos próximos tempos”, disse. Hoje assinala-se o Dia Mundial das Hepatites. A data visa aumentar a sensibilização para esta ameaça à saúde pública.

28/07/2021  Última atualização 08H50
Especialista em gastroenterologia Óscar Alfredo Paulo © Fotografia por: Vasco Guiwho | Edições Novembro
O que é a hepatite B?
É uma doença crónica transmitida por um vírus (o vírus da hepatite B) que geralmente começa por afectar o fígado. Numa primeira fase a doença não apresenta sintomas e essa fase sem sintomas pode durar vários anos. Na maior parte dos doentes sem acompanhamento médico, o crescimento do vírus leva à destruição do fígado que se chama cirrose hepática. A contaminação do vírus pode ser por via vertical, que passa de mãe para o bebé. O contágio, também, pode ser através de transfusões de sangue. Por isso, é importante, antes de doar sangue, passar pela testagem. Se não for testado, há um risco de contaminação de vírus da hepatite para quem recebe o sangue. As relações sexuais são, igualmente, outra forma de uma pessoa ser contaminada com a hepatite, porque o vírus está presente nas secreções seminais, o excesso de medicamentos e bebidas alcoólicas.


Pode explicar melhor como ocorre cada uma dessas formas de transmissão da doença?
A transmissão vertical ocorre de mãe para o bebé durante a gravidez ou durante o parto. Grande número de pessoas adultas que têm o vírus da hepatite B contraíram por essa via. Por esta razão, toda mulher grávida deve aderir às consultas pré-natais para saber se é ou não portadora do vírus e se for é orientada a forma de impedir a transmissão para o bebé. A transmissão parenteral ocorre durante a transfusão de sangue e hemoderivados, partilha de agulhas, acidentes com material perfuro-cortante e utilização de objectos indevidamente  esterilizados. Por esta razão, todo o sangue antes de ser transfundido, deve ser testado. Aqui estão incluídos como pessoas de risco os usuários de drogas que partilham agulhas e seringas, os profissionais de saúde que podem contaminar-se por acidentes com material perfuro-cortante e a prática de tatuagens. Já as relações sexuais são a principal via de transmissão da hepatite B. Ocorre quando o portador (homem ou mulher) tem relação sexual não protegida com o parceiro saudável. Ocorre tanto em homossexuais como heterossexuais, elevando-se o risco em indivíduos com comportamento de risco, promiscuidade ou múltiplos parceiros sexuais.

Quais são os sintomas de hepatite B?
Os principais sintomas são enjoos, vómitos, cansaço, febre baixa, falta de apetite, dor abdominal, nas articulações e nos músculos. Algumas vezes evolui para hepatite fulminante que pode levar à morte. Quando o vírus permanece no organismo acima dos seis meses, designa-se fase crónica da hepatite B. O vírus pode ficar "adormecido", ou seja, sem sintomas por mais de cinco anos, mas o fígado vai tornando-se fibroso de forma lenta até surgir a cirrose hepática. Com cirrose hepática, a doença entra na fase crónica activa. Os sintomas dependem do grau de destruição do fígado. Podem ser desde cansaço, desconforto abdominal, algumas lesões na pele, a urina de coloração amarela mais carregada, olhos amarelo ( icterícia) e o aumento progressivo do abdómen por acúmulo de líquidos (ascite). Os pacientes com hepatite B que não têm acompanhamento médico regular podem passar rapidamente para a fase das complicações da doença. Alguns só chegam a conhecer a doença na manifestação das complicações.


Quais são os grupos de risco de contágio da hepatite B?
Os filhos de mães portadoras da doença, o cônjuge de uma pessoa com o vírus, quem recebe uma transfusão de sangue, as pessoas que consomem excessivamente bebidas alcoólicas e as que têm muitos parceiros sexuais.


Hepatite B pode ser contraída também através da água?
Não. Tem de ser através de secreções que têm o vírus. Tem de haver sempre uma porta de entrada para o organismo, ou seja, quando há contacto de transmissão de secreções entre um portador e um receptor (saudável) ou por via de transfusão de sangue inseguro.


Há cura para essa patologia?
Não gosto responder a essa pergunta, porque essa questão já tem uma componente de sofrimento. Se eu dizer que tem cura, o paciente vai pedir a cura para se salvar. Se eu disser que não há cura, muitas vezes o doente aumenta o grau de frustração, pensa que já não há esperança de vida. Mas digo, na hepatite B o mais importante não é saber se tem cura ou não. Porque temos muitas doenças que não têm cura. Os diabéticos, praticamente não têm cura, ele vai ser diagnosticado sempre. Por exemplo, os doentes que usam óculos, como eu, têm esperança de que um dia vão dispensar o uso de óculos. Vamos tentar imaginar os deficientes físicos, é uma insuficiência que carrega para a vida toda. Mas não é por causa dessa deficiência ou problema que a vida deles perde qualidade. Pois com os doentes de hepatite B é a mesma coisa. O mais importante é saber que tem acompanhamento médico.


Qual é o objectivo do acompanhamento médico?
Se já é portador, o objectivo é prevenir as complicações. Quando prevenirmos as complicações, o doente pode ter boa qualidade de vida. As consultas têm como objectivo prevenir o aparecimento do ciclo positivo. Há  doentes que chegam às consultas médicas com complicações, como ascite, aquilo que chamamos de "barrigad’água, que é o acúmulo anormal de líquidos dentro da cavidade abdominal ou hemorragias digestivas, em que a pessoa lança sangue, que alguns confundem com tuberculose, mas que, muitas vezes, são varizes do esófago que já romperam como resultado da cirrose do fígado. Nesta fase, os médicos fazem um tratamento paliativo. É aquele paciente que é tratado hoje, mas, depois de uma semana, a doença volta. Uma das grandes complicações de hepatite B é o cancro do fígado, que chamamos de carcinoma. Têm muitos doentes nas unidades públicas na fase terminal, ou seja, com cancro, que recebem um tratamento paliativo, que permite ter uma vida digna até morrer.


Pode explicar o que é hemorragia digestiva?
A hemorragia digestiva é quando o doente perde sangue por meio do aparelho digestivo. O paciente está anémico, sem sangue por dentro. A perda do sangue é provocada por úlceras. A nível do intestino podemos ter os pólipos, que são substâncias que desenvolvem dentro do intestino. Depois pode ter vários sangramento que chamamos de uma semente do futuro cancro.  São as queixas de prisão de ventre, hemorróidas, que são acompanhadas de um sangramento pelo recto.


O que é cirrose do fígado?

Cirrose são lesões no fígado que fazem com que o órgão perda a sua função e até à falência completa. É resultado de inflamações e agressões crónicas, como o ataque de vírus de hepatite A, B e C e de abuso de bebidas alcoólicas.  A hepatite A tem uma acção mais aguda. Tal como a hepatite B, a hepatite A fica no organismo para sempre, provocando danos que chamamos de consequências da hepatite crónica. A hepatite A é mais frequente em crianças.


Qual é o tratamento?
Há um tratamento convencional que tem como objectivo diminuir a carga viral. Quando baixar, os protocolos recomendam o uso de um antiviral. O paciente tem o fígado cheio de vírus. O doente faz a medicação e essa quantidade de vírus vai reduzindo de tal maneira que o fígado vai manter a sua função. Esse tratamento não é para curar, mas reduz a carga viral e evita o surgimento de complicações. Assim, o doente está a ser acompanhado e  pode ter boa qualidade de vida. O médico vai prescrever o tratamento em função do grau de progressão da doença. Os principais objectivos são, primeiro, diminuir a reprodução do vírus para retardar o surgimento da cirrose, e, segundo, prevenir as complicações antes que surgem e tratá-las em caso de estarem presentes.


Mas há uma fase em que o doente de hepatite B não precisa de tratamento?
Sim, há uma fase em que não precisam de tratamento. Precisa de exames médicos regular e, embora sejam mais caros, determinam o número de vírus que o paciente tem. Por norma, o doente vem à consulta de seis em seis meses. O doente tem consulta médica e os exames básicos. Chega a uma fase em que os exames mostram que esse paciente precisa já de um tratamento de carga viral, que é feito numa base diária. Fica tudo isso em função de exames e do estado do paciente que começa a fazer o tratamento.


É difícil a aquisição de medicamentos para a hepatite B?
Sim. O paciente que chega à fase de tratamento da hepatite B deve continuar a tomar medicamentos sem  parar. E esses remédios nos mercados informais são poucos acessíveis, são caros quando podemos encontrar no mercado privado e há doentes sem capacidade de pagar esses medicamentos. Pelo menos que haja subvenção dos remédios para combater à hepatite B, como acontece com os doentes com HIV/Sida. Só assim se pode ajudar todas aquelas pessoas que não têm condições financeiras para pagar os remédios.


Quais são os cuidados a ter para não sermos infectados com hepatite B?
De uma forma simples, as pessoas com esta doença são proibidas de doar sangue, ter relações sexuais e evitar o uso de bebidas alcoólicas. As pessoas devem conhecer o estado serológico. É importante saber se somos portadores ou não de hepatite B. Basta fazer um teste. A recomendação é fazer uma consulta médica, que pode ser feita pelo médico infectologista ou ser seguido por um médico de medicina interna. Por norma, essas consultas são feitas de seis em seis meses, porque a doença, na maior parte das vezes, está num estado em que não produz sintomas, mas que qualquer momento pode desenvolve. Aí começa as grandes complicações (circulo positivo).


Qual é o procedimento caso os resultados dos exames do paciente num rastreio sejam negativos?

Se for negativo, faz três doses de vacinação contra a hepatite B, sendo a primeira, no primeiro dia, a segunda, 30 dias depois, e a terceira, seis meses após a primeira. Desta forma a pessoa fica imunizada. Se for positivo, vai fazer a consulta médica de Acompanhamento, de seis em seis meses.


Vocês têm disponível a vacina para prevenir a hepatite B?
Tem sim. E o nosso Centro Médico Paull, nas imediações do Zé Pirão, tem disponível C.


Qual é o número de doentes sob vosso acompanhamento?
Em termos estatísticos, desde 2018, registamos um número cumulativo de 122 pacientes que acompanhamos nas nossas consultas, de seis em seis meses. Deste número, 24 são doentes com necessidade de medicamentos.


Que camada social é mais susceptível ao contágio da doença?
A hepatite B não tem camada social. Temos vindo a fazer testes serológicos e a hepatite B infecta todas as camadas sociais. Temos feito estudos sobre a hepatite B em várias províncias do país, com principal incidência em Luanda, Uíge, Benguela e Malanje, e os dados apontam que, em Angola, 12 em cada 100 pessoas padecem de hepatite B. É um número muito grande. Existem muitos casos entre nós. A grande maioria está na fase silenciosa sem nenhum sintoma. Só não o sabem porque nunca fizeram o teste. Estudos feitos pelo Dr. Peliganga Luis Baião, entre 2005 e 2007, no Cuito, província do Bié, já demonstravam que, em cada 100 dadores de sangue, 11 eram portadores desse vírus e, em cada 100 mulheres grávidas, nove tinham o vírus e corriam o risco de transmitir para o bebé. O nosso grupo de trabalho tem efectuado um programa de educação, incluindo a testagem voluntária da hepatite B em Luanda e em outras províncias. Hoje, já é notório nos nossos hospitais o aumento de doentes por complicações da hepatite B. Muitos deles morrem rapidamente e essa tendência vai aumentar nos próximos tempos.


Qual das hepatites é mais frequente em Angola, A, B ou C?
A pesquisa feita em 2012 concluiu que a mais frequente é a hepatite B. Este estudo ajudou-nos a encontrar a respostas, o porque temos muitos casos de hepatite B. Também permitiu estruturar melhor a estratégia de combate à hepatite B, sem excluirmos as hepatites A e C. A pesquisa levantou questões muito importantes sobre a formação de técnicos para o combate à hepatite B, meios de diagnósticos e tratamento da doença. Foi um estudo realizado no âmbito da minha formação na Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, Brasil, tinha estrutura de liderança, com perfil para criar um programa de investigação de doenças virais crónicas na província do Uíge. Foi criada uma equipa constituída por  cinco especialistas, dos quais dois técnicos de laboratório, dois enfermeiros e três especialistas de laboratório de análises clínicas. A equipa estava em ligação com o sistema  de recolha de dados do Hospital Provincial do Uíge. Este trabalho surgiu em torno da problemática da hepatite B, no Hospital Central do Uíge. Recolhemos os dados, fizemos os testes e, no fim tivemos as conclusões do trabalho de pesquisa.

Vasco Guiwho

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