Opinião

Os vídeos do Dubai

Sousa Jamba

Jornalista

As gravações que estão a circular de mulheres africanas a serem humilhadas sexualmente no Médio Oriente são horríveis. Infelizmente, os comentários que têm acompanhado os vídeos, muitas vezes, caem naquelas generalizações cheias de estereótipos.

13/05/2022  Última atualização 06H30

 Há alguns anos, lembro-me de um documentário sobre a vida sexual dos barões da droga na América Latina; as senhoras falavam de humilhações arrepiantes. Há um género de pornografia que atrai muitos por todo o mundo, em que as mulheres são humilhadas e, em certos casos, agredidas. Da mesma forma que a violação de mulheres (e de homens) tem pouco a ver com sexo e mais com violência, os vídeos do Dubai são uma manifestação desse desejo por parte de certos homens de verem certas mulheres humilhadas.

 Em 2019, o bilionário americano Jeffrey Epstein suicidou-se na cadeia quando esperava para ser julgado por ofensas sexuais contra menores. Aparentemente, Epstein organizava grandes festas nas suas casas nas Caraíbas que culminavam em certos homens ricos envolverem-se com meninas menores de idade. Ghislaine Maxwell, filha do milionário  Robert Maxwell, que morreu em 1991 depois de ter caído do seu iate, tinha a função de encontrar essas menores.

O poder corrompe; o poder que vem com o dinheiro também corrompe. Há muitas africanas que vão para o Médio Oriente, trabalham dignamente e regressam para os seus países com um capital para começarem um negócio. No Uganda, há muitas senhoras que fizeram fortunas viajando para o Dubai. Disseram-me que há agentes no Dubai que facilitam a vida de senhoras e senhores  que vão lá para fazer negócios. Só que há também agentes que organizam encontros entre homens ricos e mulheres vindas de África; é aí onde estamos a ver muitos abusos das jovens africanas.

Ultimamente, surgiu, entre muitos jovens africanos, um desejo que parece ser irresistível, de sempre querer dar nas vistas. No ano passado, um influenciador social nigeriano, com mais de dois milhões de seguidores, foi preso no Dubai e julgado. O Hashpappi, como ele é conhecido, ostentava viaturas, roupas de marca e muito mais sem ninguém saber o que ele exactamente fazia. O público estava mais encantado com as manifestações de riqueza. Há jovens africanos que usam o seu corpo como uma estratégia aceitável para fazer muito dinheiro. Disseram-me que em Angola, nos anos 80 do século passado, houve o fenómeno das "carimbadas” — depois de dormir com uma menina um grupo de expatriados metiam discretamente um carimbo nas nádegas que só se manifestava depois. Não sei se isso é mesmo verdade, mas essa história era contada com horror, numa altura em que o corpo de uma mulher ainda tinha muito valor.

Relações sexuais  transaccionáveis são muito comuns em várias partes do mundo e do nosso continente: uma senhora passa a ter relações íntimas com alguém em troca de dinheiro, bens, protecção, sem necessariamente ser oficialmente ligada a essa pessoa. Nessas relações há um grau de respeito; a mulher mantém a sua dignidade e, a certos momentos, pode até recusar ter relações sexuais com o seu patrocinador, que a vai entender. Nesse tipo de relações, o homem também faz tudo para dignificar a honra da senhora.

No Quénia e na Gâmbia, há o fenómeno de mulheres ricas europeias que vão à procura de jovens africanos; há casos em que esses jovens chegam até a ser levados para a Europa. Em Viena, Áustria, conheci um jovem ganense que tinha várias namoradas que lhe pagavam pelos seus serviços. Ele era muito atraente — alto, corpo de atleta e muito versátil na pista de dança. Neste caso, há simulações de romance; o jovem ajuda a manter as fantasias das "tias”, que nem sempre resultavam  em depravação.

Quando eu vivia no Reino Unido, havia casos, alguns fictícios, de cabeleireiras britânicas que iam para o Sul de Portugal à procura de romance.  Uma vez fui para o Sul de Portugal num grupo de turistas britânicos para ser um participante observante. Nas discotecas de Albufeira, no Algarve, havia jovens com cabelo gelificado e peitos peludos a não quererem sair do meio da roda; num instante já havia casais em grandes beijos nos cantinhos. As britânicas pagavam pelas bebidas e refeições pelo resto da noite, que culminavam nos quartos dos hotéis. Sim, há quem diga que isso era uma verdadeira Sodoma e Gomorra; porém, não havia histórias da dignidade de alguém ser destruída.

A solução para isso tudo é o fortalecimento do poder das mulheres. Existem grandes redes de tráfico de mulheres africanas no mundo.  A BBC no ano passado teve um documentário de mulheres africanas que iam para ser prostitutas na Índia. Os "cafetões” por trás dessas redes são cruéis; eles ficam com os passaportes das meninas que são endividadas por causa dos bilhetes de passagem. Os vídeos que estão a circular de africanas a serem humilhadas fazem parte dessa cultura, em que às coisas materiais são dadas mais importância do que a honra e dignidade…

 


Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião