Opinião

Os renegados

Jacques dos Santos

Escritor

Mudei o meu pensamento sobre o que vale ou não a pena considerar prioritário ou importante nos dias que correm. Há coisas que, por capricho de quem pode e manda, já não devem merecer a preocupação dos banidos deste país.

06/06/2021  Última atualização 06H35
De que vale aos renegados desta terra falar, por exemplo, do que vai mal na nossa comunicação social? Ainda assim, teimosamente, penso que deveria haver outro cuidado no leque de informação posta à disposição do público. Falo nisso há muito tempo. Impõem-se melhores ofertas, novos conteúdos para ajudar a alterar os gestos da população, desde os mais insignificantes aos de maior pertinência.

Apesar dos nossos constantes reparos, somos assiduamente surpreendidos por trabalhos de medíocre qualidade e de difícil classificação. Obriga-nos a meditar e a entender melhor o significado das imagens e, sobretudo, o enorme desperdício de tempo e dinheiro que seu tiliza em coisas fúteis. Como se já não bastassem as fake news, mentiras e intrigas das redes sociais, produzidas por quem não tem coragem de as subscrever, refugiando-se nos cantos dos esgotos nojentos do anonimato. O nosso PR, no acto de posse de novos responsáveis dos órgãos de Defesa e Segurança, falou da necessidade de uma mudança radical de costumes. Falou bem, mas a população ficaria mais satisfeita se nos anunciasse essa mudança em todos ou na maioria dos órgãos do aparelho do Estado. Os erros são muitos e por demais visíveis, a justificar essa conversão, que é urgente e há muito exigida pelos cidadãos.

A propósito da minha última crónica, escrita num espaço onde tento fugir ao deslumbramento dos temas e admito certa incapacidade de reconhecer circunstâncias; onde me esforço por assumir a humanização e a importância das palavras com que me expresso. A propósito, dizia, um conterrâneo meu que admiro pela estrita vigilância que exerce sobre o nosso esquisito quotidiano, não gostou de certas passagens do meu texto. Disse-mo frontalmente, criticou sem kijila e eu aceitei as suas considerações e até agradeci algumas das suas chamadas de atenção. Assim deveríamos proceder sempre.

Depois de falarmos e como me acontece amiúde, lembrei-me da nossa bwala, Calulo, e de uma determinada época, longínqua. Do tempo antigo e das suas particularidades. Eram tempos já de alguma resistência ao que nos era imposto, uma certa rebeldia escondida não apenas pelos métodos do opressor presente, mas também pela presença de outros estrangeiros residentes, sabíamos porque estavam ali, o que representavam, o que resultara da guerra mundial e do fascismo. A nossa vida, embora difícil pela opressão, era boa desde que houvesse comida, escola, trabalho, qualquer que fosse, farra e futebol para distrair. Recordei então a época áurea da Associação Desportiva Palmeiras, a campeã invicta, liderada por Toneca Campos, o homem que, naquele tempo, fez praticamente nascer o futebol do Libolo e deu-lhe projecção fora das suas portas. Merece e deveria ser lembrado para sempre pelo que fez.

Isso não conta agora, porque o que me interessa realçar hoje e na continuidade das minhas reflexões à volta das semelhanças existentes entre o futebol e a política, é a prova de que nem sempre o poder vence a razão. Então, e para que se saiba, refiro o período em que Toneca era o dono do Palmeiras e mandava no futebol libolense, ditava a sua lei, treinava e fazia as equipas, jogava e era o capitão. Tinha que ser assim porque era dono do seu dinheiro, quem pagava tudo, equipamentos, transportes e todo o resto. Facilmente criou à sua volta a áurea do poder, um certo autoritarismo.

Quero, posso e mando, dominavam a mente e as atitudes de Toneca que, naquele cenário colonial, até era um ser diferente, por ser adepto da inclusão dos negros na sociedade. Fazia-o do modo que sabia e podia e assim ganhava a consideração dos nativos e a aversão dos colonos. Mas, por óbvias razões, não havia contestação interna no Palmeiras, ninguém se atrevia a criticar as suas atitudes. Até ao dia em que surgiu em Calulo um jovem vindo do Huambo, com umas ideias avançadas. Chamava-se Armando Figueiredo e discordava das teorias de Toneca em relação ao futebol.

A tal ponto que conseguiu que muitos dos jovens futebolistas da ADP, aliciados por ele, abandonassem o Palmeiras, "o mais querido”, e criassem, sob a égide de um pequeno movimento "revolucionário”, a Juventude Libolense. Mais tarde e fruto de outras divergências, nasceu um outro grupo a que chamaram de "Os Renegados”. Ambos usavam equipamento preto, a Juventude com uma estrela amarela bem no sítio do coração, sobre a qual sobressaíam as iniciais JL e "Os Renegados” com a estampa de um R grande e branco no peito. Estes episódios incutiram no pensamento dos jovens daquele tempo que, com força de vontade, era possível vencer os mais fortes. No primeiro desafio disputado entre a Juventude e o Palmeiras, os novos adversários "varreram” o campeão por contundentes quatro a um. Toneca e os seus partidários provaram pela primeira vez, o travo amargo da derrota.

Deixei de me incomodar com o clube do coração, o Palmeiras, e passei a entender o que significava realmente a rebeldia, ser do contra. Ainda não conhecia bem os valores da democracia, mas entendia o quanto perdíamos em dizer sim a tudo o que viesse do grande capitão, do comandante, do homem que mandava no futebol de Calulo.

Veio depois a tragédia de 1961 que levou muitos dos nossos companheiros, já eu rumara para o Dondo. Pessoas como Toneca Campos e alguns outros brancos como ele que se misturavam com os negros tiveram amargos de boca com as autoridades coloniais. Ameaças disfarçadas vindas de tacanhas e imbecis mentalidades, sem capacidade para elucidarem mal-entendidos ou verificarem mentiras mal construídas, tudo pelo simples facto de Toneca e seus comparsas serem próximos dos negros, por viverem e partilharem de algum modo, as suas vidas e emoções. Em certos momentos comparo-os à violência injustificável a que assistimos hoje, na nossa terra libertada.

Por essas razões, talvez por outras onde a mentira e a brutalidade do poder tem guarida, me causem um certo mal-estar as imagens e as palavras que dão corpo ao documentário "O Banquete”, que a TPA nos serve nestes dias de angústia e tenta, de uma forma não muito do meu agrado, contar aos angolanos, entre outras, a mirabolante história de um major esquemático que, nas barbas do poder, se fartou de encher malas com dinheiro, entre kwanzas, dólares e euros, valores altíssimos, capazes de resolver problemas de muitas comunidades e gente doente e necessitada.

A condução desta história de corrupção, pouco transparente aos olhos do telespectador, a ferir inclusivamente preceitos constitucionais, merecia outro guião e sobretudo coragem para um verdadeiro trabalho investigativo que levasse ao desmascaramento das quadrilhas montadas sem vergonha. Volto ao início para repetir o que penso da comunicação social. Deve ser, tem que ser, competente, séria, decente e isenta. Sem vaidades ridículas de repórteres feitos à pressa, a não justificar os milhões que certamente se gastaram nesta como noutras produções. Em suma, precisamos de uma comunicação verdadeiramente profissional.

E, por aqui me fico hoje. Aguardando os episódios que se seguirão desta novela, decididamente de medíocre qualidade. Com a decepção a envolver-me por tudo quanto acontece na nossa terra, espero voltar ao contacto com os meus leitores no próximo domingo, à hora do matabicho.

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