Reportagem

“Os Picantes” do Huambo à conquista de Angola

Analtino Santos

Jornalista

Encontramos os mais queridos na casa de passagem do Governo Provincial do Huambo, na quarta-feira, quando já estavam a preparar a viagem de regresso, depois de uma intensa jornada vivendo a festa da vitória em Luanda. Augusto Mucoca, Agostinho Chiwale, Job Loy e Chiquilson são “Os Picantes”. Em primeira mão falaram-nos do tema “Nosso amor é top”, um guetho-zouk lançado antes de saírem do Huambo e que caiu perfeitamente no contexto vitorioso. Aliás, eles cantarolaram “Nosso amor é o Top dos Mais Queridos”...

17/10/2021  Última atualização 03H30
Top dos Mais Queridos © Fotografia por: João Gomes | Edições Novembro
Job Loy disse: "a ressaca ainda continua, o povo está a nossa espera. Dou graças a Deus, e como dizem os mais velhos, quem corre a mil tropeça, por isso estamos  a andar com calma. Este fim-de-semana a nossa agenda está apertada. Vamos ao município do Ucuma, a uma unidade das FAA da Região Sul, a convite do general Eugénio, depois a Chicala Choloanga”.

Augusto Mucoca, o líder do grupo, acrescentou: "a sensação é boa, estamos totalmente emocionados, é uma coisa inacreditável. E só temos de agradecer a todos que votaram em nós. Em parte esperávamos esta vitória, pelo trabalho que fizemos durante a campanha. E o que estávamos a prever tornou-se realidade, por isso damos graças ao Senhor, e mais uma vez obrigado”.

"O governo provincial está a preparar uma recepção na comuna da Chipipa e tudo está a correr bem. Está  a ser organizado um fim-de-semana de muita festa, com uma passeata pela cidade e teremos uma actividade musical com todos os artistas que concorreram connosco na fase provincial do Top dos Mais Queridos. Levamos o título para o Huambo e todos são vencedores, por isso vamos festejar juntos”, realçou Mucoca.


O segredo  
"Os habitantes do Huambo votaram, mas os nossos votos não vieram apenas da nossa província. Acompanhávamos os programas na Rádio Nacional e notávamos que muitos ouvintes de outras províncias votavam em nós.  Cabinda, Zaire, Uíge, Namibe, Luanda, Lundas, enfim, das dezoito províncias recebíamos indicações e fomos notando que não estávamos apenas com o Huambo”, frisou Delafuente, da equipa de marketing.


Ele revelou as várias etapas do trabalho: "qualquer um dos jovens integrantes faz parte do marketing. Por exemplo, no meu caso, eu faço outros trabalhos, mas quando recebi o convite e vi a humildade, foi bem fácil acreditar. Unimos forças, olhamos primeiro pela popularidade que acarretam no Centro Sul de Angola. Eles criaram uma equipa com uma estrutura forte, com um director de marketing jovem, iam com os cupões às ruas e faziam campanhas na internet. Mostramos aos mais velhos que têm de ser mais dinâmicos, porque a ciência não é estática. "Os Picantes” aperceberam-se disto, foram a busca de pessoas chaves, por exemplo na Rádio recorreram ao Ito Capitalista, que é um dos melhores promotores em Angola, e chamaram também jovens que dominam as redes sociais.


Convidaram pessoas para sensibilizarem na Alemanha, Capango, Cacilhas, Do Ferro e Benfica, que são as principais praças do Huambo. Até a Covid foi aproveitada oferecendo máscaras e sensibilizando a população”.  
Delafuente, que também é músico, sublinhou que "a humildade destes jovens faz com que nos apaixonemos pelo trabalho deles. Envolvem-se de coração e dão o melhor deles, porque acreditam no talento”.


Primórdios em 2008  
A história dos vencedores do Top dos Mais Queridos 2021 remonta a 2008, quando começaram a fazer sucesso no Huambo, Bié, Cuando-Cubango,  Cuanza-Sul e Benguela. Aliás, foram informados pelo jornalista Sousa Jamba que na Zâmbia os seus temas também são ouvidos. Agostinho Chiwale, vocalista, disse: "desde 2008 até agora tem sido muito trabalho. Fomos ganhando alguma experiência e sempre foi nossa intenção participar na evolução da nossa cultura”.

Chiquilson, o produtor do grupo, esclarece: "é importante frisar que para grande parte do país  o nome "Os Picantes” nasceu agora, mas no Huambo é uma marca, nós somos um grupo de massas e podemos afirmar que na Região Sul evento sem a nossa presença não é a mesma coisa”.

Falando de Justino Handanga e Bessa Teixeira, duas das principais referências musicais da província, disse: "devemos respeitar estes dois senhores, porque são monstros da música nacional. Mas "Os Picantes” têm trabalhado  muito, por exemplo, a nível provincial um Justino Handanga e um Bessa Teixeira deveriam ter uma boa equipa de trabalho a  fazer uma grande campanha. Mesmo a nível nacional os nossos kotas não têm aguentado a pedalada dos mais novos, por exemplo o Tiviné, Rei da Costa, Tweets da Coffex, e outros, que também concorreram ao Top.

É importante falar que esta campanha não tem nada a ver com o artista com boa voz ou que canta bem, é a aceitação do povo”.


Principais sucessos
O grupo "Os Picantes” conquistou o país com "Crise no lar” mas tem mais de 35 temas musicais e dois álbuns no mercado, "Sonhar não é proibido” e "Nguatisi Sinbuana Ndivela”. Estão a preparar o próximo álbum e o vídeo-clipe do tema "Crise no lar”.


O seu produtor, Chiquilson, um dos mais solicitados no Huambo, diz: "vamos a busca de muita coisa, desde o Sungura, Tshissossi, Hip Hop, Afro-House, Gheto-Zouk, Kizomba, Semba, algumas vezes viajamos no Naija e no Zulu”.
Augusto Mucoca realça: "o nosso principal sucesso é ‘Mambo está torto’, em umbundo ‘Eme ngue ya pemba”, que foi lançado em 2013 e continua  a bater.


É o nosso cartão de visita, com ele conquistamos a confiança do povo. Depois temos "Gente fina é outra coisa” com o mais-velho Justino Handanga, e ainda "Sonhar não é proibido”, "A vida vai e tudo acaba neste mundo”, "Muati sisi mwana nivela” (ajuda-me quando estou doente e não depois da morte), "Família interesseira”, "Coronavírus”, "Tchi munu koto ohenda chicota”, e outros temas onde o amor e temas sociais levantam a poeira no Planalto Central”.

Augusto Mucoco, também compositor, fala desta edição do Top dos Mais Queridos e do processo criativo dos Picantes: "esta edição do Top dos Mais Queridos deu abertura não apenas às províncias, mas também aos novos talentos e chegou no bom momento. Desta forma deu oportunidade a todos os bons artistas de fazerem boa música. Antes essa oportunidade não nos era dada. Para dizer que existem muito bons fazedores de música nas províncias.

Quanto ao tema vencedor foi o Chiquilson que produziu, a ideia da música foi minha. Aparecemos com este estilo que é somente dos Picantes, colocamos e roubamos um pouco do Kilapanga, Semba, Kuduro, Sungura, Rap, Tchissossi e então criamos também uma vibe do Afro-House tradicional, porque metemos língua umbundo. Muitos questionam por que "Os Picantes”, tão jovens, cantam em língua nacional e nós respondemos que não sentimos vergonha da língua e que cantamos para encantar o público e, para tal, é importante interpretar coisas que o público reconheça o mérito. A música foi bem criada e todos aderiram, por isso a vitória”.


Chiquilson, que em paralelo com "Os Picantes” tem trabalhado com outros artistas do Huambo,  acrescentou: "felizmente Os Picantes tiveram visibilidade com a participação no Top dos Mais Queridos, o que que falta aos outros para chegarem mais longe. Na verdade existem outros bons produtores e músicos. Com esta abertura do Top dos Mais Queridos o país vai descobrir muito bons talentos.


Olha, a música não é só gravar e ter talento, é preciso também fazer promoção da mesma. Os Picantes chegaram até aqui porque investiram, ganharam fãs, convenceram o público”.

"Foi um prazer e uma grande honra tocar com a Banda Movimento, uma das melhores e com muita experiência. Também aproveitamos e mostramos a nossa dança, gostamos de inovar. É nossa intenção criar toques que fiquem com todos, por isso criamos coreografia que cai bem com a música”.
"Nós não vamos fazer carreira em Luanda. Quando recebermos convites, sairemos do Huambo para as outras províncias, ou seja, para Angola. Não queremos abandonar o Huambo, queremos mudar o quadro, porque antigamente para o músico bater e ser aceite no mercado tinha de emigrar para Luanda”,  realçou  Chiquilson, que revelou que "já existe uma pequena abertura com a Clê”, a conhecida promotora musical.

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