Opinião

Os passos da reconciliação

Cândido Bessa

Director Adjunto

Os angolanos acabam de galgar mais um degrau nesta longa caminhada à reconciliação nacional e para erguer a Nação que queremos. Na semana que termina, o país viu o seu Presidente da República, humildemente, a pedir perdão e desculpas públicas, não só às familías das vítimas dos conflitos políticos ocorridos em Angola entre 11 de Novembro de 1975 e 4 de Abril de 2002, mas a todos os angolanos.

30/05/2021  Última atualização 08H35
É de toda a justiça reconhecer este gesto de puro humanismo do Chefe de Estado. Um bom passo para "curar as feridas psicológicas das famílias e regenerar o espírito de fraternidade entre os angolanos, através do perdão e da reconciliação nacional”. As aspas servem para assinalar as palavras do próprio Presidente da República, há quase dois anos, na altura da criação da Comissão para a Elaboração de um Plano de Acção para Homenagear as Vítimas dos Conflitos Políticos.

Para se chegar ao momento actual, João Lourenço ordenou, na altura, que se ouvissem os partidos políticos com assento parlamentar, organizações religiosas reconhecidas como tal, organizações "idóneas” da sociedade civil e outras. Que não se excluisse ninguém. Queria uma discussão o mais alargada possível. Afinal estavam em causa os caminhos para a verdadeira reconciliação entre os angolanos.

O que se viu na quinta-feira, 27 de Maio, e na véspera, com o Presidente a falar à Nação, vão além dos acontecimentos de 1977. Diz respeito, também, aos conflitos nos quais morreram milhares de angolanos. Há casos de famílias inteiras dizimadas. Hoje, cada um de nós tem, pelo menos, um membro da família que partiu, devido ao conflito armado. Há mortes que podiam ter sido evitadas. A ganância pelo poder a qualquer preço por parte de alguns, resultou em mortes desnecessárias, infra-estruturas destruídas e atrasos até hoje por recuperar na estrutura mental de muitas pessoas e no desenvolvimento do país.

Há exemplos bastantes, em toda Angola, das consequências da guerra. Mas, como disse o Presidente João Lourenço, o momento agora "não é de se apontar dedos”. Concordo plenamente. Estou, também, de acordo que o "pedido público de desculpas e de perdão” reflecte um  "sincero arrependimento e vontade de pôr fim à angústia que ao longo destes anos as famílias carregam consigo por falta de informação sobre o destino dado aos seus ente-queridos”.


A seguir ao acontecimento histórico, assistimos a manifestações de vária ordem. Muitas no sentido favorável, destacando a profundidade do gesto do Presidente da República. Vimos rostos, antes fechados, mais esperançados com a possibilidade de, agora, várias décadas depois, poderem proporcionar aos entes-queridos o merecido repouso. Vimos, também, famílias a elogiarem o autor da iniciativa, que tornou possível testemunhar um momento em que quase ninguém acreditava, tais eram as posições extremas das partes envolvidas.

Como sempre, há aqueles que não acreditam na bondade dos outros. Como não a têm, são impossíveis de reconhecê-la no outro. Porque não a carregam no coração. Ninguém dá o que não tem. Não se espera um gesto de amor, de alguém que não é digno de tal nobreza. É assim na vida. Infelizmente, o mundo também  é feito de pessoas assim. Que insistem em ver vermelho onde todos enxergam azul.

Faço minhas as palavras do Presidente. "Este povo heróico e generoso,  que já deu provas de saber perdoar, merece ouvir, igualmente, de quem tem a responsabilidade de o fazer, um pedido público de desculpas e de perdão pelas almas de Tito Chingunji, de Wilson dos Santos e respectivas famílias, das valentes mulheres das fogueiras da Jamba, dos passageiros do comboio do Zenza do Itombe, dos mártires da cidade do Cuito-Bié, do Huambo e de outros não citados aqui”.

Não é meter a "foice em seara alheia”, como se apressou a reclamar um dirigente de um partido político. Pretender que lembrar os males protagonizados pelo seu grupo é imiscuir-se nos problemas internos, amplia a maldade e não a reconciliação. Cada um deve assumir a sua responsabilidade na harmonização deste país. Este momento deve constituir mais uma oportunidade que a vida nos dá para abrirmos os corações.

Coincidência ou não, logo após o acto de Luanda, vimos, no Rwanda, o Presidente francês, Emmanuel Macron, reconhecer a "responsabilidade esmagadora” do seu país no genocídio de 1994. Macron rejeitou qualquer culpa ou cumplicidade francesa no assassinato de mais de 800 mil rwandeses, mas admitiu que Paris, mesmo de forma inconsciente, teve um papel na "engrenagem que conduziu ao pior”.

Dias depois, foi o Governo alemão a pedir perdão ao povo namibiano pelo massacre das populações de etnia herero e nama, durante o período colonial. Para compensar, a Alemanha promete contribuir com mais de mil milhões de euros em ajudas para o desenvolvimento da Namíbia.

Mas é do meu país que quero falar. Bem vistas as coisas, acontecimentos como os de quinta-feira ajudam a restituir a confiança e a renovar as esperanças no futuro. Que o exemplo de grandeza manifestado pelo Presidente da República sirva de exemplo para outros actores, com responsabilidades na nossa sociedade.

Por isso, peço aos mais jovens que tirem boas ilações deste momento histórico que o país está a viver. Não é hora de retroceder. Que cada um assuma a sua responsabilidade para erguer a Nação que pretendemos justa para todos.

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