Opinião

Os paradoxos de Boris Johnson

Sousa Jamba

Jornalista

Lembro-me, claramente, em 1991, quando vi pela primeira vez o Primeiro-Ministro britânico, Boris Johnson. Na altura, ele era correspondente do jornal “The Daily Telegraph”, para o qual eu era colaborador; tínhamos um amigo em comum, o director do

14/01/2022  Última atualização 07H55
jornal, Charles Moore. Na altura, o correspondente do jornal em Bruxelas, Boris Johnson, já tinha a reputação de  alguém altamente brilhante, mas que  às vezes fazia as coisas da sua própria maneira; Boris Johnson nem sempre seguia as regras.

 Fui seguindo a sua cintilante carreira como chefe da Câmara de Londres e depois Primeiro-Ministro. Entretanto, Boris Johnson foi fazendo coisas que numa outra figura seriam imperdoáveis — não só ter amantes, mas também ter vários filhos.  Nisso tudo havia um lado dele que os britânicos achavam altamente atraente; ele tinha um humor autodepreciativo e parecia não prestar muita atenção à sua aparência — houve vezes que apareceu com camisa desfeita, cabelo despenteado, etc.  Há quem tenha lamentado, na altura, que se Boris Johnson fosse uma mulher, a indiferença à sua aparência não seria tolerada.

 Ontem vi Boris Johnson no Parlamento, contrito, bem arrependido, pedindo desculpas. Em Maio do ano passado, quando a nação britânica estava em confinamento, por causa do Covid-19, organizou-se uma festa na residência do Primeiro-Ministro, onde se serviu comes e bebes e uma boa quantidade de álcool. Primeiro as autoridades foram negando que isso teria acontecido; depois os detalhes da festa, incluindo o convite feito para os funcionários do escritório do Primeiro-Ministro para relaxarem, já que o clima estava perfeito. Finalmente, Boris Johnson e os seus próximos não tinham como negar que houve uma festa na residência do Primeiro-Ministro. Boris Johnson disse que a festa foi no jardim — que tecnicamente é uma extensão do escritório.

 Há uma investigação para averiguar o que se terá realmente passado. Mesmo que sobreviva à presente crise, o facto é que Boris Johnson perdeu o seu prestígio; enquanto o resto da nação enfrenta tantas dificuldades, ele está a ser acusado de ignorar as dificuldades por que passam as pessoas. Até membros do seu partido Conservador insistem que ele deveria demitir-se.

 A Grã Bretanha é um país com uma monarquia e uma aristocracia, mas também com um sentimento profundo de igualdade. E isso tem a ver com guerras. Depois da Primeira Guerra Mundial, em 1918, muitos intelectuais britânicos, alguns com fortes ligações à esquerda, começaram a analisar seriamente a guerra em que os filhos dos aristocratas ficavam na retaguarda, enquanto o resto servia para carne de canhão ou então tinha que aguentar as péssimas condições nas trincheiras. Muitos intelectuais britânicos foram comovidos pela Revolução Russa de 1917 e falava-se de uma revolução semelhante acontecer no Reino Unido. O resultado foi o surgimento de uma sociedade guiada à criação de um nivelamento social; houve, por exemplo, várias campanhas de alfabetização e também os sindicatos passaram a ter muito poder. A revolução industrial aconteceu no Reino Unido e passou a ver um consenso que as estruturas do governo, da economia e as altas secções do exército tinham que tomar em conta o princípio da meritocracia.

Depois houve a Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945. A Grã Bretanha, uma ilha, tinha que ser defendida por todos. Em 1945, o Partido Trabalhista ganhou com uma vitória esmagadora, derrotando o partido do grande Winston Churchill. A aristocracia britânica também passa a sofrer uma profunda transformação; a questão não era apenas estar lá no topo, mas também contribuir com muito sacrifício na defesa dos interesses da nação. Muitos aristocratas, com imensas fortunas, começaram a ir para a função pública para servir e não fazer dinheiro.

 Há quem diga que o eleitorado britânico confiava em aristocratas porque não iam para o governo roubar e também não eram fáceis de ser subornados. As grandes universidades também começaram a dar bolsas para alunos vindos de famílias altamente humildes. Quando eu contribuía para a revista "The Spectator” — onde Boris Johnson era também colaborador e eventualmente director — tive a tarefa de visitar a vila em Lincolnshire, onde a Senhora Thatcher nasceu; o pai dela tinha uma pequena loja. Margaret Thatcher só conseguiu ir à Universidade de Oxford em 1950 por causa de uma bolsa.

 Os britânicos odeiam a noção de uma lei para uns (os líderes) e outra para o público. Quando estive no Reino Unido, ouvia sempre a citação de que se a justiça tivesse voz então seria de um juiz britânico. Também se dizia que é difícil comprar uma carta de condução ou certificado académico no Reino Unido. Isto é verdade. Há poucas nações no mundo que têm instituições que são tão prezadas pelos seus cidadãos como o Reino Unido. A ideia de que o próprio Primeiro-Ministro é que violou a lei é algo que os britânicos não engolem com facilidade…

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