Opinião

Os nossos problemas ambientais

A história recente de Angola, não obstante os efeitos que o conflito civil provocou no nosso atraso em matéria de desenvolvimento sustentável, tem um aspecto que não pode ser ignorado: A guerra provocou “sempre” uma grande mobilização nacional. Seja em termos do recrutamento dos jovens que eram levados ao combate contra os seus próprios irmãos, seja porque permitiu elevar o sentimento de patriotismo, sobretudo quando esteve em causa o prolongamento da guerra fria com a presença de forças estrangeiras no “nosso teatro de operações militares”. Encaramos como uma luta de preservação da soberania ou como propagação de um ideal (aqui talvez os nossos historiadores um dia se encarreguem de confirmar as reais motivações dos demais elementos da UNITA, para além de Jonas Savimbi).

04/09/2019  Última atualização 07H30

Mas a guerra, motor da história e factor do progresso da civilização humana, não é o único elemento que gerou momentos de grande mobilização nacional. Nesta senda, os momentos eleitorais em Angola têm sido igualmente fases de uma grande participação, independentemente da tendência de abstenção que se vem registando nos diferentes pleitos.
Se esta mobilização política, quiçá com fundamentos ideológicos, tem sido sentida nestas ocasiões, faz falta uma maior mobilização das forças da sociedade para analisarmos os reais problemas do País. No fundo, qual deve ser a agenda de transformação, quais são os grandes desafios nacionais e como poderemos todos estar mobilizados e participar na sua resolução. Qual é o nosso programa de combate à corrupção, à impunidade, da adopção da probidade pública, como é, por exemplo, a aceitação verdadeira dos concursos públicos acabando-se com as adjudicações, que tornam regra a excepção. Sim, não podemos apontar apenas para as ideias e acções dispersas que ocorrem. Precisamos assumir um compromisso nacional e uma abordagem que seja coerente e generalista.
Como vamos resolver a questão da educação nacional? E isso não passa apenas por construir mais escolas e colocar mais professores no sistema… Como combater as assimetrias, embora no meu último artigo tivesse valorizado a nobreza do PIIM neste sentido. Mas ainda assim, e o day-after do PIIM? Vamos continuar a ignorar exemplos como a “aldeia Camela Amões”, assobiando de lado, ao invés de percebermos o modelo e quiça replica-lo?
Apesar do que referi acima, há um desafio de sustentabilidade ambiental que vem agudizando e que merece por isso a nossa maior atenção e reflexão. A sucessão de casos de seca no sul de Angola, com epicentro no Cunene, são já um sinal do quanto as crises climáticas começam a ter reflexos em Angola, sobretudo em matéria de nutrição alimentar. A seca naquela região está a agudizar os cenários de fome no seio da população e do próprio gado, ante um papel menos acutilante das associações, igrejas e até da própria comunicação social que poderia contribuir de modo mais significativo na consciencialização e educação cívica da população para as boas práticas. Como as pessoas podem ter uma dieta saudável em cenários de precariedade? Que práticas adoptar na agricultura e pastorícia naquelas condições?
Um outro aspecto que merece a nossa reflexão aturada prende-se com a desflorestação. O mundo está todo em alerta máximo, sobretudo depois do recente episódio de intensas queimadas no Amazonas, colocando pressão ao governo brasileiro para que a floresta seja património mundial e deixe a esfera territorial única do Brasil. No fundo, a desflorestação é um dos factores mais críticos que provoca o aquecimento global. E entre nós, equiparativamente, a modalidade de exploração da madeira, no nosso País, estava a assumir contornos verdadeiramente preocupantes, pois colocava em risco o indicador do Programa Nacional sobre as Alterações Climáticas que indica que 43,3% da superfície do nosso território é coberta por florestas, mas uma parte muito ínfima é floresta densa e húmida.
Se no meio rural a desflorestação, a erosão dos solos e o aparecimento de ravinas em várias regiões, assim como a poluição das águas são alguns dos nossos maiores desafios, no meio urbano o busílis da questão é a gestão eficiente dos resíduos sólidos e melhorias no saneamento urbano, para que as pessoas possam viver com maior dignidade como sucede há alguns anos em bairros como o Mártires de Kifangondo – transformado em reduto islâmico – e o Tala Hadi, que hoje as pessoas chamam de “Tala Alice”, em paralelismo a Vila Alice (mesmo se esta hoje também não é a mesma coisa de outros tempos), por causa das melhorias que a requalificação do Tala Hadi trouxe aos seus moradores.
A gestão dos resíduos não pode passar apenas pela recolha, por si só, deve assentar fundamentalmente numa melhor educação e conduta dos próprios citadinos, sobretudo numa altura em que estes comparticipam nos custos da recolha. E que tal obrigarmos as empresas a colocarem tampas sobre os contentores, que agora se encontram a céu aberto, provocando essa prática danos à saúde humana e ao ambiente.
Ademais, notamos todos os dias que as nossas cidades estão a ser inundadas pelo plástico. É hora de contrapormos esta tendência. Quem circula pelas estradas nacionais assusta-se com a quantidade de plásticos sobre o capim na berma das estradas. O plástico é um produto altamente poluente e resistente. É por isso que a sua utilização deveria ser desaconselhada, sendo substituída por produtos recicláveis, a exemplo do que sucede já em outras latitudes como o Ruanda. Não temos uma indústria transformadora forte, mas temos fábricas de plásticos e estas florescem. No actual contexto, vejo com bons olhos a utilização do Imposto Especial de Consumo (em sede do IVA) para tributar os sacos de plástico. Eu sou, como se pode notar, um acérrimo defensor da introdução de uma taxa (imposto) pela utilização do plástico, cujo beneficiário poderia ser o fundo ambiental ou as próprias municipalidades (futuras autarquias), impondo uma restrição da sua utilização ao que é estritamente necessário.
Finalmente, a substituição da energia térmica por outras fontes mais sustentáveis (sobretudo menos poluentes) deve emanar de uma visão ambiental e económica, que torna possível conciliar a industrialização de que precisamos e a conservação do ambiente, como de resto vem sendo defendido nas várias convenções internacionais – Kioto, Copenhaga, Paris, etc. O que me parece urgente é que possamos despertar para o impacto das transformações ambientais que ocorrem também no nosso território. Seguirmos o exemplo de reflorestação da Etiópia, por exemplo. Não podemos estar indiferentes. Pelo contrário, é urgente tomarmos consciência e agirmos, nos pequenos gestos individuais que fazem toda a diferença.

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