Opinião

Os nós dos marimbondos

Luciano Rocha

Jornalista

Os nós que continuam a impedir o desenvolvimento angolano, sufocando todos os sectores, parece não terem fim, mal se consegue desfazer um, de imediato surgem outros atados por mãos ardilosamente ágeis.

27/05/2021  Última atualização 06H50
A situação não é nova, vem do tempo em que os nós deles eram apresentados como bóias de salvação de um país destruído por sucessivas guerras e as mãos criminosas que as faziam como as de deuses, com poderes para pôr e dispor a bel-prazer em proveito próprio, mas que deixavam cair generosas migalhas para serem aproveitas por quem  os reverenciava e podiam, inclusive, servi-los. Era o tempo das "vacas gordas”. Assim foram instituídas as castas intocáveis, imunes à decência e impunes à lei do país, que, recorde-se, já as tinha para serem cumpridas pelos outros, os que cumpriam horários, não raro, para se sustentarem e às famílias, pagarem os estudos dos filhos. E já se davam por felizes. É que naqueles anos já havia desemprego e jovens à procura do primeiro posto de trabalho.

Eles, os novos-ricos, ocupavam o tempo a desbaratar o erário, dando sentido à palavra nepotismo. Inundavam tudo, quanto dependesse de dinheiros públicos, com familiares, amigalhaços e fiéis elogiadores da "vida de lorde” que levavam. Ainda lhes sobrava tempo para fazerem florescer o mercado paralelo interno. Por exemplo, com medicamentos, veículos de toda a espécie - maximbombos, ambulâncias, tractores, o que lhes desse na real gana para aumentarem riquezas privadas com bens de todos nós. Também coleccionaram vivendas, prédios, aviões, iates. A par de cartões dourados e platinados, que tiram, lentamente, de carteiras de peles genuínas na hora de pagarem manjares, jóias, roupas, o quer que seja, que lhes permite, ostentar fausto. Continuam a fazê-lo cá dentro, mas especialmente nas grandes metrópoles estrangeiras, perante o riso, mal viram as costas, de quantos os atendem.

A lista dos "nós” que continuam a sufocar o desenvolvimento angolano é muito mais vasta. Bastava, porém, que fossem apenas aqueles para justificarem o estado de descrença da alma angolana. O archote Fevereiro de todas as esperanças esmorece, tremule em cada vez menos nos corações de muitos de nós. Principalmente dos das novas gerações, para quem pouco mais é do que um feriado, com discursos de circunstância, dia de não trabalhar, acordar tarde, "almoço de sábado”, beber uns copos, farrar, ver, na televisão, um desafio de futebol entre potências mundiais. Novembro, que marcou o concretizar do sonho grande, teve de ser comemorado com armas na mão e corre o risco de seguir-lhe as peugadas. Em Setembro de 2017 soprou uma aragem de tempo novo, com a promessa de combate, sem tréguas, aos usurpadores do erário. A jura misturou-se, de imediato, com incertezas baseadas em comprometimentos iguais feitos, não havia muito tempo, embora por outro protagonista. Até surgirem as primeiras detenções, de figuras graúdas do partido no poder e, inclusivamente, do Governo, por suspeitas de desvios de bens públicos. Foi, "a pedrada no charco”, o desfazer de dúvidas, mas, também, a certeza de que as ramificações dos crimes contra a Terra Angola eram maiores do que se podia imaginar. Pior, que os marimbondos não só tinham deixado o país à beira da banca rota, como seguidores dilectos, apostados em seguir-lhes os exemplos.

Os "nós” que continuam a sufocar Angola têm novos atadores, pelo que cada um que se desfaz há sempre quem os volte a fazer. Como os primeiros marimbondos, os da segunda geração ocupam lugares que lhes facilitam as tarefas. Como os antecessores aceitam cargos sem estarem minimamente preparados. A sede insaciável de dinheiro fácil e protagonismo cega-os.
A luta contra os crimes de "colarinho branco” vai demorar, com avanços e recuos, mas só sem esmorecimento pode ter algum êxito. Até agora, pelos vistos, vimos apenas a ponta do icebergue.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião