Opinião

Os moinhos do eurocentrismo

João Melo*

Jornalista e Escritor

No passado dia 9 de Novembro estive na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, num colóquio de homenagem ao professor Pires Laranjeira, jubilado em 2020 na Universidade de Coimbra, justamente considerado o maior especialista português das literaturas africanas de língua portuguesa, após a morte de Manuel Ferreira.

17/11/2021  Última atualização 09H39
Participaram no colóquio, que teve uma segunda parte em Coimbra, nos dias 10 e 11, professores portugueses, brasileiros, alemães, franceses e angolanos, assim como estudantes e alguns escritores.


Apresentei na sessão realizada no Porto uma comunicação intitulada "D. Quixote contra os moinhos do eurocentrismo”. O presente artigo é uma adaptação resumida dessa comunicação, cujo propósito central foi, além de reconhecer a importância da obra de Pires Laranjeira para os estudos literários africanos em todo o mundo, destacar o seu trabalho de divulgação das literaturas africanas de língua portuguesa e dos seus autores na imprensa lusitana.

De facto, ele tem sido uma espécie de D. Quixote (no sentido positivo e não ridicularizante do herói de Cervantes) contra a postura cada vez mais eurocêntrica e subserviente do chamado "mercado literário” português, na contramão, inclusive, de outros mercados mais desenvolvidos, que começaram a prestar nos últimos anos uma maior atenção às literaturas não-ocidentais. O actual boom das literaturas africanas, registado em capitais como Paris, Londres, Nova Iorque e Berlim, é prova disso.


Este ano, recordo, os escritores africanos ganharam todos – todos! – os prémios literários mais importantes do mundo, a começar pelo Nobel. Isso é também, por certo, consequência desse boom, tal como sucedeu, décadas atrás, com o boom das literaturas latino-americanas.

Alheio a essa tendência, chama a atenção o facto de nenhum veículo da chamada imprensa mainstream lusitana dedicar espaços regulares à abordagem das literaturas africanas, a começar por aquelas escritas em língua portuguesa (notícias de livros e lançamentos, mesmo ocorridos em Portugal, recensões e críticas literárias, entrevistas com os autores, etc.). Aparentemente, para tais veículos, essas literaturas resumem-se a quatro ou cinco escritores. Alguns dos outros são "acantonados” na RDP África e na RTP África, como se o gueto fosse o seu lugar. A grande maioria é simplesmente ignorada.

Nem sempre foi assim. No período imediatamente pós-independências dos países africanos de língua portuguesa, os contactos e trocas literárias no referido espaço linguístico eram frequentes e efectivas, da circulação de livros aos encontros periódicos entre escritores e outros artistas. Tal intercâmbio contava com o devido apoio institucional, em ambos os lados, a começar pelas organizações de escritores e não só, e tinha uma razoável repercussão na imprensa. O facto de quase todos esses escritores se conhecerem pessoalmente e terem, alguns deles, partilhado experiências de luta comuns certamente contribuiu para isso.

A partir do fim dos anos 80 e início dos anos 90, a situação começou a mudar. A mudança geracional ocorrida, mas sobretudo as alterações políticas em todos os países de língua portuguesa foram tornando aquelas trocas mais raras e problemáticas e com menos impacto na vida cultural de todos eles, para não dizer nulo. O interesse dos leitores portugueses pelas literaturas africanas, incluindo o dos leitores "especializados” (escritores, críticos literários, jornalistas culturais), diminuiu substancialmente. Factores vários contribuíram para isso, inclusive "partidários”.

A imprensa mainstream lusitana é a principal responsável pelo desconhecimento quase total que os leitores têm das literaturas africanas de língua portuguesa e dos respectivos autores. Depois, vêm as editoras, os críticos literários (onde estão eles?), os agentes e os produtores de festivais e outros eventos literários. O famigerado "mercado” é isso. Não é nenhum cazumbi.

* Jornalista e escritor

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