Opinião

Os mártires da culpa

Quem disse que os outros devem pagar por existires? Uma vez em vida, principalmente quando passas a tomar consciência das coisas, dos teus actos, apócrifos ou não, és responsável por tudo o que te acontece e que não te acontece, és somente o único culpado até prova em contrário.

12/09/2021  Última atualização 07H50
Nem que te blindares de artefactos jurídico-legais, tiveres fundadas razões, juízos não temerários, deves sequer pedir indemnização aos teus progenitores, assuma o teu torto arado, pisaste em falso, sem condescendências, sinto que  o teu percurso é uma ladeira íngreme.

A culpa está cansada de ser morta, de ser levada à categoria de mártir, ao panteão dos sacrificados. Ela anda farta de ser culpada, vítima do enviesamento da história.
A vida é como a história, é recorrentemente falsificada, mas os métodos e as fontes estão aí, mas quem quer segui-los à risca ou rupturá-los?

Só faz ruptura radical  e epistemológica quem já foi ovelha (?).
Foste religado, o sol não se te abriu, Rás, Hélios e Apolos dar-te-ão um outro sol ardente.
Tudo que desejares é só pedires, mas no final da operação matemática os zeros não serão para ti.
Não chores mais. O leite não derramou tanto assim. Ainda vais a tempo de seres partícipe activo no processo de transumância. Nunca te passou pela tola tosquiares camelos em nome do gramado?

És bom pagador... mereces num amanhã não tão distante deste tempo receberes fiado.
Reza a práxis e toda carruagem de tudo aquilo que for verificável e demonstrável, que as exclusividades são por via de regra caríssimas. Não encontram repouso nas algibeiras de meros humanos, particularmente nestes tempos de recrudescimento de valores que se te impõem.

Esqueceste que as ternas noites que já não tens foram todas capitalizadas, drenadas aquando do esforço empreendido para aquisição de bons representantes legais? Sorria, nem todas as malas vão para Belém.
Basta teres uma simples enxaqueca, alguma tensão hormonal, uma mancha delével no teu estado de ânimo não excepcional que os teus legítimos representantes tomarão todos os assentos por ti. É pra isso que eles existem, estão aí para tomarem todas as tuas dores, servirem de coletes anti-balas ou na pior das hipóteses de duplos.

Se não sabes passaste a figurino, nem sequer ages sob a capa das sombras.
No cartório não há nenhum registo, memória, suor ou resquícios de vidas tuas.
É tão íngreme assim perceberes que cada vida e não cada cabeça uma sentença?
É crónica a fobia pelo ónus de qualquer prova.

Não existes como tal, és apenas um chassi respiratório que se movimenta às cegas, as rédeas não sabem os calos das tuas mãos.
Equídeos em debandada relincham, não sentem a estabilidade dos estábulos.
À rédea solta estão os teus representantes legais, seja o que as suas vontades determinarem, a cada sol que beija o zénite o vigor de seres tu no grande teatro avenida da vida a representares o que quiseres vai perdendo força anímica quanto baste.

Dás rédeas largas aos teus representantes legais, até parece que confiaste-lhes grandes dossiers que deverias ser tu a dares o devido tratamento. Parece-me que confiaste-lhes em demasia até o melindroso marca-passo para o controle do batimento do teu coração.
Protagonista da vida? Eu? Não, nem pensar. Para que? Não é em vão que os homens  criam tantas facilidades, algum iluminado teve que braçalmente ou intelectualmente suar a camisola  para que depois a vida não fosse mais vista como ovo de Colombo.

Reitero: foste religado. E se amanhã te disserem que os Toms e Jerrys: Paraísos e Infernos  já não fazem parte da dialética das vidas humanas, jurarás de pés juntos que alguém está a propalar inverdades e a incitar o não abrandamento de barricadas.
És capaz de fazer birra, ter um ataque de histeria, dar largas a um mal-estar sem razões aparentes.
As zonas turísticas do conforto obstruíram os vários troços que deveriam servir de atalhos para mostrar o quão perigoso é a droga de qualquer dependência.  
Não te é conveniente  redireccionar hábitos e costumes. Fica-te caro ou barato? Devias pelo menos experimentar.

Pedro Kamorroto

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