Opinião

Os limites dos discursos

Pode um discurso, uma entrevista ou um artigo, por si só, modular a realidade, fazendo crer que o que se diz é verídico? Na prática política, em Angola, há ou não um excesso de discursos que, vistos à lupa, seriam considerados irrealistas e cheios de lugares comuns?

15/01/2019  Última atualização 10H36

Há uns anos atrás acontecia, com frequência, em todo o mundo, que, num contexto tanto de menores índices de escolarização, de cultura geral e de massificação do acesso à informação como da prevalência das elites e do Estado policial, a força de um discurso no comício, à ocorrência da resposta numa entrevista televisiva ou radiofónica, a subtileza e a teatralização de um bom artigo de jornal com uma fotografia publicada que humanizasse o político fosse decisivo à hora de provocar tanto a sua aceitação como a sua popularidade e, em caso de escrutínio regular, o beneplácito dos eleitores.
 Ainda continua a acontecer, mas em menor medida: estamos em face de uma mudança de paradigma dos limites entre o público e o privado que afecta todas as esferas da vida social e, portanto, os políticos não são os únicos afectados. Como nunca antes, a diferença entre dizer e fazer funciona como espelho para dirimir a verdade da impostura, o realismo do populismo, a bazófia da reflexão séria e o discurso vazio da reflexão essencial.
O discurso floreado surgido de um simples laivo de inspiração e de desatino só prova a desorientação de quem o faz. O cidadão está cada vez mais atento a cada notícia ou opinião sobre qualquer político, cientista, artista, médico ou qualquer outro concidadão: não teme em pôr, ao mesmo nível, a capa de um diário de grande tiragem com uma mensagem de duzentos caracteres nas redes sociais twitter e no facebook. Já não é preciso publicar um extenso libelo para incitar a desconstrução da imagem pública de alguém, indíviduo ou instituição.
Ser bem parecido, estar bem vestido, expressar-se bem e ter carisma continua a facilitar no momento de estabelecer empatia com quem dialogamos, mas, não é suficiente. Há uma tendência a suspeitar da sobre exposição mediática de quem quer que seja: o que o cidadão quer são factos que incidindo no seu dia a dia a curto, médio e longo prazo, acabem por evitar o marasmo, o imobilismo e a mesmice melhorando a sua qualidade de vida.
É tanto ingenuidade como irresponsabilidade continuar a pensar que, num contexto de maior pluridade informativa, com os canais alternativos, as plataformas de cidadania e o protagonismo das redes sociais, por força da repetição, os discursos hegemónicos de poder e o de “fazer de conta” vingam independentemente do resto: o declínio da palavra vã e ilusória coincide com a consolidação da gestão e da cultura digital, com o fim da burocracia e a democratização do acesso tanto aos documentos e às fontes bibliográficas como, em geral, à informação pública.
Os políticos que surgem ou que acedem ao poder, - e utilizam a mídia como instrumento de legitimação-, devem ter argumentos mais sólidos, estar enraizados na história colectiva que o empatiza com os cidadãos e, de algum modo, ser mais autênticos - no sentido de sinceros-, com propostas novedosas e uma visão de futuro cada vez mais realista. Sem medidas legislativas, projectos exequíveis e acções desenvolvidas com o objectivo de obter resultados bem determinados, tarde ou cedo, os discursos só descredibilizam quem os profere e não há dúvidas de que, grosso modo, o cidadão está farto deles: a acção e a eficiência entusiasmam e cativam muito mais.
Antes, os cidadãos careciam de vias e meios para escrutinar rapidamente os políticos: o trabalhador que ia à manifestação ou ao comício, o telespectador ou o leitor do jornal acreditava que, se ele estava aí, a imagem pública dele era real, autêntica e verdadeira. Hoje nada é visto nem aceite com a mesma inocência de antes e o adoutrinamento político e ideológico não é um antídoto eficaz contra a lucidez, a tecnocracia e o conhecimento.
A generalização social da religiosidade como espaço de ideologias múltiplas, reforçada pela existência de partidos políticos com diversas orientações programáticas tornou o debate de ideias mais complexo e difuso, também. A sociedade está mais atenta tanto aos políticos astutos com as piruetas dos pregadores: ela quer e espera factos concretos de uns, conforto espiritual dos outros e atitude exemplar de todos. Convém à sociedade angolana preferir as disrupções ideológicas em torno de um novo humanismo e as acções pragmáticas que ajudem a enfrentar os seus problemas, transformar a realidade, os objectos, as mentalidades e os comportamentos. 
Urge, pois, estarmos mais atentos aos limites dos discursos. Muitas vezes o que interessa é o que os discursos não nos dizem e o que vale a pena interpretar é a intenção política que eles evidenciam ou dissimulam: leia e eduque-se, informe-se e participe e, por favor, aja que o país é nosso.
* Historiador e crítico de arte

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