Cultura

Os Kiezos querem perpetuar o legado do guitarrista Marito

Analtino Santos

Jornalista

O músico Marito, exímio guitarrista e fundador do Conjunto Os Kiezos, morreu esta segunda-feira, aos 75 anos, numa unidade hospitalar, em Luanda, vítima de doença. Autor de instrumentais como “Memória de Lamartine”, “Semba Henda”, “Saudades de Luanda”, “Ngola”, “Mu-xima” e outros, Marito deixa um grande legado para os mais novos.

13/09/2022  Última atualização 06H20
Morte do exímio guitarrista e fundador do Conjunto Os Kiezos, Marito deixa um vazio irreparável à cultura nacional © Fotografia por: DR

A informação foi confirmada ontem, no final da manhã, por Hildebrando Cunha e Gegé Faria, integrantes e membros da direcção do Conjunto Os Kiezos. Ambos quando miúdos foram admiradores de Marito e mais tarde acolhidos e companheiros no conjunto do Marçal.

Hildebrando Cunha, actual solista e principal responsável do conjunto, disse  que a morte do guitarra "é uma perda irreparável para os Kiezos e para a cultura nacional. Estamos todos tristes, porque tínhamos uma relação de palco e de vida. Conheci-o ainda miúdo quando ele e o meu irmão mais velho, Benvindo, aprendiam tocar guitarra com o Mestre Duia. Nos Kiezos entrei primeiro como contra-solo e quando ele foi perdendo alguns reflexos tornei-me solista. Agora nós vamos cumprir o desejo de Marito, os Kiezos não podem acabar e continuaremos a injectar sangue novo para que se perpetue a obra do conjunto”.

Por seu lado, Gegé Faria realçou a qualidade do guitarrista Marito. "Eu o acompanhava quando era miúdo, no nosso Marçal, sempre o admirei e depois em meados de 1980 passei a ser seu colega, como integrante dos Kiezos, em substituição do Calili ou do Gino. Neste momento, vamos junto da família prestarmos a nossa solidariedade”.

A comissão directiva da União Nacional dos Artistas e Compositores - Sociedade de Autores, endereçou uma nota de condolências, chegada à nossa redacção, onde refere que "a comissão directiva da UNAC-SA tomou conhecimento do passamento físico de An-selmo de Sousa Arcanjo, de nome artístico "Marito dos Kiezos”, membro da UNAC-SA, com o nº188, ocorrido no dia 12 de Agosto de 2022, vítima de doença. Por este infausto acontecimento, inclinamo-nos perante a sua memória e endereçamos à família en-lutada os nossos mais sentidos pêsames”.

 

Tempos difíceis nos Kiezos

Pouco menos de um ano, são cinco as perdas do Conjunto Os Kiezos. Em Outubro do ano passado morreu o baterista Juca Vicente e um mês depois Carlos Timóteo "Calili”, baixista que também trabalhou para os Jovens do Prenda. No fim do mesmo ano, foi a vez de Kituxe, membro fundador do conjunto. No início deste ano, em Janeiro, o infortúnio aconteceu com a morte do guitarrista Zeca Tirilene.

 

Últimos momentos

Gilberto Júnior, jornalista e pesquisador da música angolana, escreveu o seguinte: "Figura lendária dos Kiezos e da música popular angolana, inspirou todos os grandes solistas que emergiram depois dele, casos de Zé Keno, Baião, Botto Trindade, Belmiro Carlos "Nito”, Brando e outros. O semba acaba de perder um dos seus maiores símbolos”.

Outro entusiasta da música popular angolana, o jornalista e escritor Albino Carlos teceu o seguinte comentário: "Triste notícia, essa da partida do Marito. Não tenho palavras para descrevê-lo como artista e génio da guitarra. Só sei que a música angolana perde o ritmo”.

Isaías Afonso, realizador e apresentador do programa radiofónico "Poeira no Quintal”, dentre os vários mo-mentos partilhados recorda a edição especial de celebração do 75º aniversário em Maio desde ano.

Teófilo Moniz, um fã confesso dos Kiezos, enalteceu o seu ídolo do seguinte modo: "Ngola Ritmos levou o ritmo das congas para a guitarra, o Duia trouxe a inovação de solar e o Marito popularizou a estilização da música angolana, ou seja, deu a plástica nela. Para mim, Marito é o transmissor e o guitarrista com mais instrumentais solados”.

Em jeito de conclusão, o antigo futebolista afirmou: "É importante que uma pauta com as músicas de Marito seja exposta para acesso público”.

Marito esteve doente há quase uma década, com raras aparições públicas, das quais se destacam a presença com Yuri da Cunha, no concerto "Cantar Teta Lando”, no ano passado, e no Show do Mês em 2019. O guitarrista foi várias vezes homenageado, no "Muzonguê da Tradição”, no Centro Recreativo e Cultural Kilamba.

 

Mário Gomes e Yark Spin

Em Julho de 2019, no Royal Plaza, Marito testemunhou dois jovens, na altura promissores, hoje reconhecidos guitarristas na música angolana: Mário Gomes e Yark Spin. Na altura, os dois executaram "Muxima” e "Ngola”, actuação que impressionou a plateia. Na primeira noite, num sábado, a emoção tomou conta de Marito e o homenageado teve uma indisposição, prontamente socorrido pelos Serviços de Urgências Médicas.

De nome próprio Anselmo de Sousa Arcanjo, nasceu no dia 12 de Maio de 1947, em Luanda. Optou o pseudónimo de Marito porque nasceu no mês de Maria. A música co-meçou a desenvolver muito cedo no Marçal. Em 1965, na zona do Kapolo Boxi, com os amigos Domingos António Miguel da Silva "Kituxe”, Aristófanes Rosa Coelho "Adolfo Coelho”, Avozinho e Tininho criaram o conjunto Os Kiezos, formação que dentre os vários integrantes destacamos Juventino, seu irmão e companheiro musical, Vate Costa, Fausto Lemos, Tony do Fumo e Zecax.


 "Partiu o artista, mas ficou a sua obra”

O ministro da Cultura, Turismo e Ambiente, Filipe Zau, informou, em nota de imprensa, que tomou conhecimento e lamenta a morte, ocorrida na madrugada de ontem, em Luanda, por doença, do guitarrista Anselmo de Sousa Arcanjo Júnior "Marito”, uma referência da música angolana e africana.

Para o ministro, como destaca na nota, Marito, guitarrista e um dos fundadores do agrupamento "Kiezos”, foi uma referência incontornável da música popular urbana angolana e africana, sendo que o seu nome ficará gravado nos anais de uma futura história da música angolana, que, necessária e obrigatoriamente terá de ser redigida, em prol da identidade cultural do país e do reconhecimento de todos os que contribuíram para o enriquecimento do património cultural imaterial.

"Marito" nasceu em Luanda, a 12 de Maio de 1948. Era filho de Anselmo de Sousa Arcanjo Júnior e de Violante João de Oliveira. Deixou oito filhos. Começou por tocar viola de lata, em 1965, tendo, mais tarde, sido acarinhado pelo guitarrista Eduardo Adolfo Garcia "Duia”, que tocava no conjunto Gingas.

Ainda em 1965, foi membro fundador dos Kiezos, juntamente com o seu irmão Juventino, Kituxe, Adolfo Coelho e Fausto Lemos, no bairro Marçal. Em nome dos funcionários do seu departamento ministerial, Filipe Zau endereça à família enlutada, aos demais membros dos Kiezos e à UNAC-SA os sentimentos de pesar.

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