Reportagem

Os estudantes que cantaram a Independência

Analtino Santos

Jornalista

Emergido do associativismo estudantil que em 1974 se manifestava pela alteração do conteúdo das disciplinas de Geografia e História, Os Angolenses são, seguramente, uma das formações do movimento da música de intervenção política que muito contribuiu na mobilização para a causa da independência de Angola.

13/11/2022  Última atualização 14H27

Quem ouve canções como "África do Magreb ao Zimbabwe”, "Continuação da nossa luta”, "Obscurantismo e miséria”, "Alegria pela via escolhida”, "Internacionalista”, "Mua Ngola Mua Tu Vualela”, "Abaixo o Apartheid” e "Ufolo Uetu”, prontamente toma contacto com a força das mensagens d’Os Angolenses, este grupo de estudantes da Escola Industrial Oliveira Salazar (depois da independência Complexo Escolar Karl Marx-Makarenko e actualmente Instituto Médio Industrial de Luanda - IMIL).

Os integrantes d’Os Angolenses, diferentes de outras formações e de muitos cantores daquela fase, apostavam na formação académica e tiveram a música como um hobby. E por via dela, da música,  desempenharam um papel importante no combate ao colonialismo. Alcançada a Independência foram surgindo outras responsabilidades e os palcos ficaram afastados. Hoje, poucos dos ex-integrantes da formação musical são reconhecidos como músicos.

 

Obreiro da música de intervenção

Para falar sobre Os Angolenses, o Jornal de Angola foi ao encontro de Vinício Júnior, agora reformado depois de ter servido como quadro sénior do sector de Energia, onde esteve envolvido em vários projectos de electrificação nas empresas públicas e no Ministério de tutela. O artista descreveu como tudo começou, quando, em 1972, tocava guitarra com Nelson Costa, colega na Escola Industrial, onde nos momentos livres exibiam-se, assim como no Marçal. Depois juntou-se a outros amigos do bairro, nomeadamente Mário Domingos, Zé Manel (irmão de Rosa Roque) e Joãozinho. Antes do 25 de Abril de 1974 este grupo de amigos foi convidado para actuar na festa de finalistas da Escola Industrial e pela, primeira vez,  apresentaram publicamente temas de matriz angolana, lá onde o normal era a música Pop. Vinício Júnior  e amigos levaram para o ginásio da Escola o que ouviam no Marçal e nos bailes doClube JUVA - Juventude Unida da Vila Alice.

 

Surgimento d’Os Angolenses

Vinício Júnior fala como tudo começou. "Aparecemos como Os Angolenses, em Julho de 1974, três meses depois do 25 de Abril. Havia várias actividades, palestras e manifestações estudantis  para mudar o conteúdo das disciplinas de História e Geografia. E nós, como éramos da associação dos estudantes, lutávamos para a alteração do conteúdo programático, o que aliás era a nossa principal exigência. Não fazia sentido estarmos em Angola e pouco conhecermos da nossa Geografia e História. Pela primeira vez houve, na escola, um grande acto político e foi aí que eu, o Armindo Ferreira e o Nelson Costa subimos ao palco, na companhia da Gigi, Zezé e da Carmen, as coristas. Todos nós éramos da Escola Industrial, onde nos exibimos”.

Ainda segundo a nossa fonte, depois seguiram-se convites para actuarem nas escolas Comercial (actual 1º de Maio) e Colégio Feminino (actual Nzinga Mbandi). Vinício Júnior acrescentou que, ao mesmo tempo, "fora do universo estudantil incentivavam-se os actos políticos no sentido de passar a mensagem às pessoas sobre o que era a luta e como fazer para chegar à Independência e passou-se a incorporar a música de intervenção política nesses actos”. 

Reconheceu que, numa primeira fase, não tinham inclinação partidária, o que pode ser confirmado em temas como "Quero ser alguém”, "Ser livre”, "Não devemos ter as campas cheias de flor porque morreu alguém”, e outros, que apresentavam nos actos públicos quase diários nas escolas, onde as pessoas se reuniam.

Vinício revela uma particularidade: passavam a letra das músicas em esténcil e o pessoal copiava. Assim fizeram, por exemplo, com a música "Hoji-ya-Henda”. "E depois o Armindo, que na altura era professor, começa também a criar músicas de intervenção. É nesta fase que começámos a falar, nas músicas, do MPLA”.

 

Relação com o MPLA

Como jovens estudantes e activistas pela causa da Independência, os membros d’Os Angolenses mobilizavam muita gente. "Nós participámos na inauguração da primeira casa da OMA, no Marçal, e acompanhámos o Carlos Lamartine e outros artistas. Aí, o grupo começa a ter muitos seguidores”, contou Vinício Júnior.

Foi naquele contexto que um jovem desafiou-os, perguntando-lhes se tinham reportório para tocar na festa de fim de ano do Benfica de Luanda. É assim que no dia 31 de Dezembro de 1974 actuaram no Eixo Viário, na companhia dos Águias Reais. Vinício recorda assim o momento: "Abrimos a festa, que considerámos ter sido uma vitória, porque apresentámos um reportório de músicas revolucionárias num ambiente maioritariamente de portugueses, onde apelávamos para nãomaltratarem os angolanos”.

Ainda a propósito das actividades do grupo, segundo Vinício Júnior, "o Tchito foi muitas vezes acompanhado, o próprio Robertinho fez parte da caravana que se deslocou a Ndalatando. A Dina Santos também foi acompanhada pelo grupo. Tinha, igualmente, o Bartolomeu de Carvalho ou simplesmente o Fula, vocalista do grupo que só cantava em Kimbundu. Fez, também, parte do grupo, o Beto da Sassassa, como saxofonista que fazia parceria com o Franco. O Godinho, grande trompetista, e vários outros bons músicos, deram o seu melhor para que o grupo crescesse muito”.

 

As gravações dos temas

"Quando o Armindo cantou ‘Ufolo uetu’, na Cidadela, teve grande impacto. Nós gravámos muitas músicas na Rádio e nem todas estão no disco do Poeira no Quintal. A primeira que gravámos foi ‘Quem chora Lumumba’. Temos também ‘África do Magreb ao Zimbabwe’, mas o nosso grande sucesso foi ‘Abaixo o Apartheid’, que parece que foi encontrada nos arquivos da Rádio Nacional de Angola. Quando o comandante Nelito Soares foi assassinado na Vila Alice, fizemos um tema para o povo cubano, com a chegada dos internacionalistas. Quando esteve cá o secretário cubano da juventude cantámos e ele chorou. O Jimmy, que foi comissário político, cantou ‘África do Magreb ao Zimbabwe’. Ele tinha uma criatividade muito grande e sempre aparecia com músicas novas. Ele tinha ainda a canção‘Esclavagismo e a miséria jamais”; temos ‘Mua Ngola Mua Tu Vualela’”...

 

"Quase” esquecidos

Vinício Júnior esclarece a quase omissão do grupo na história da música angolana. "Os integrantes d’Os Angolenses apesar de jovens não tinham uma ligação oficial com a JMPLA, como o Kissanguela ou com o Exército como o FAPLA-Povo. Chegou uma fase em que o movimento que sustentava o Governo tinha que ter uma ideologia para levar à juventude e aos militares, e, se calhar, esta é a razão. Mas nós continuámos e é preciso frisar que tivemos maior longevidade, por exemplo, que o Kissanguela que apenas tocou durante dois anos. Nós fomos até  meados dos  anos 80. Por outra, algumas pessoas atribuem alguns temas nossos a outros intervenientes”. 

Vinício Júnior lamentou a falta de reconhecimento oficial por parte do MPLA e enalteceu a homenagem feita ao agrupamento Os Angolenses pela Rádio Nacional de Angola, no âmbito do projecto Caldo do Poeira, em Junho de 2007, no Centro Recreativo e Cultural Kilamba. Falando desse momento, o artista afirma: "O reencontro foi muito difícil porque estávamos há muito tempo sem tocar. Foi interessante porque muita gente -, colegas de serviço e vizinhos -, que não sabia deste nosso lado, ficou espantada”. 

O guitarrista e fundador d’Os Angolenses valoriza a iniciativa da RNA e deixa um recado: "É a única homenagem que Os Angolenses conhecem. Para nós, que a nossa arma de combate foi a música,  era fundamental que alguém viesse um dia nos dizer OBRIGADO. Eu não vou muito pelos valores materiais. Sei de elementos de outros grupos a quem o Estado foi dando alguma coisa, mas para nós nunca”.

Apesar disso,  Vinício prefere olhar para o lado positivo: "Uma das grandes alegrias para nós, foi dias antes da Independência, a televisão  passar um espectáculo d’Os Angolenses. Isto para mim foi a maior conquista, na altura. E depois, horas antes da proclamação da Independência, passou o tema do Armindo que fala dos sinos que iriam tocar no dia da nossa Independência”.

  Cumprimos o nosso papel

O guitarrista da revolução tem a seguinte opinião sobre o que ele e os seus companheiros fizeram em prol do país: "Costumo dizer que a música não é factor impeditivo para nada e nós nem sequer falamos o que somos e o que fomos. Na sociedade as pessoas podem desempenhar vários papéis e gostávamos do que fazíamos. Criámos o grupo e tínhamos um papel que era ajudar as pessoas a traçar os trilhos da Independência de Angola. Foi numa fase em que todos tínhamos de dar a nossa contribuição. E quando vimos que cumprimos o nosso papel demos seguimento às nossas vidas. Depois tocámos em salões como o Marítimo da Ilha, Bela Vista, Desportivo União do São Paulo e fizemos digressões profissionais. Também começámos a trabalhar com outras pessoas para mudar o conteúdo das músicas. O Celino cantava temas em espanhol, tornamo-nos um grupo como qualquer outro”.

 

Disco "Eu e Ela”

Anos depois de terem sido homenageados pela RNA, Vinício, empolgado, começou a produzir algumas músicas e assim reuniu material suficiente para gravar o disco "Eu e Ela”, com temas instrumentais. "Contei com alguns amigos artistas e abro com um tema em homenagem ao Marito dos Kiezos”, esclareceu, acrescentando que de vez em quando aparece a tocar em ambientes de descontracção com amigos. "Alguns colegas pedem para levar mais a peito a música, mas penso que já não tenho tanta coragem para os palcos. O que peço aos guitarristas é que criem mais e não sejam repetitivos. Olha que eu, agora como reformado, em casa continuo a criar novas coisas”.

  Quem é Vinício Júnior

VinícioJúnior nasceu aos 18 de Agosto de 1956, na Rua da Chapada, no Marçal, e cresceu entre este e o Bairro Indígena. Filho de um famoso rádio-técnico do Marçal, responsável por arranjar os instrumentos  e aparelhagens dos conjuntos musicais, muito cedo "ataca” as guitarras. Aos sete anos já tocava de ouvido. Havia um forte movimento cultural, com concursos infantis no Bairro Indígena, onde tocava com violas de lata de azeite. E recorda amigos como Pai Adão, Maiuca, Nandó e Noé. E mais velhos como Tonito Fortunato, Manuel Faria, Taborda Guedes, Sabú Guimarães, Vum-Vum, Cirineu Bastos, Morgado e Lila Burity.

Nesta fase da sua construção musical Vinício destaca, no Marçal, o Gouveia, personagem pouco referenciada mas muito importante na Escola do Semba, grupo de percussão que aos domingos realizava matinês com os miúdos sentados em bancos corridos. Com ele estavam o Kadiako e o Mota. Aí toma contacto com os nossos instrumentos, ouvindo músicas em Kimbundu. 

Próximo de sua casa, actuava o Quinteto Angolano do Dominique, depois o Dimba Angola, Luanda Show, Bossa 70, Mini Bossa e Os Giendas, este grupo de que fazia parte Adolfo Duia. 

O pai ofereceu-lhe uma viola e foi aprimorando a sua execução com Nelson, outro fundador d’Os Angolenses que já dominava as notas e foi dando dicas ao amigo, que já solava bem. No JUVA, clube da Vila Alice, ouviu pela primeira vez alguém a solar uma música de Duia,   e depois consegue fazer o seu primeiro solo de música angolana, "Mariana”, do Mestre Duia.

Ainda criança, Vinício Júnior teve a percepção de que as coisas não estavam boas porque, volta e meia, via no meio em que vivia adultos a serem presos. Reconhece a existência de mais velhos nacionalistas como Gabriel Leitão, Ciro Cordeiro da Mata e outros.

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