Opinião

Os desafios da ética na investigação científica

Ângelo Kalopa Kalañge*

* Docente universitário, palestrante e escritor

O desenvolvimento da tecnociência resultante da sapiência humana, principalmente na era da globalização, funciona como uma espada de dois gumes. Se por um lado fortalece o poder do homem no domínio, controlo e transformação do entorno para o seu benefício, por outro lado, tem servido como instrumento letal e prejudicial à sua vida e a do meio ambiente, numa só palavra, de todos os seres bióticos e abióticos.

08/07/2024  Última atualização 08H10

A ética, tal como muito bem nos ensina o Filósofo Mário Sérgio Cortella, é uma área do saber filosófico, que ajuda a responder três questões basilares: Posso? Quero? Devo? Conforme se pode constatar, as questões em causa condensam duas dimensões tais como a deontológica, que permite ao homem saber o que deve ou não fazer enquanto ser de relação, bem como a diceológica, que o impele para o mundo dos direitos que tem a exigir na vida socio- organizacional e/ou no cosmos (mundo).

Na era da Revolução Industrial, a reflexão sobre a ética no campo da investigação científica desempenha um papel crucial, na medida em que ajuda o homem a cultivar a consciência ética, ecológica, deontológica, diceológica e de responsabilidade social para que o exercício da actividade científica se operacionalize numa perspectiva antropocêntrica e humanística com vista a gerar vantagens para o homem e a natureza.

Outrossim, a ética exerce um papel de grande importância na investigação científica, que consiste em assessorar o cientista/investigador para a adopção de uma postura ética capaz de respeitar a dignidade humana e fazer o uso do conhecimento científico para o seu bem e da preservação do Planeta Terra, que o Papa Francisco designa por "Nossa Casa Comum”, em Laudato Si, promover a cultura de probidade, honestidade intelectual, responsabilidade e virtude no processo investigativo e finalmente, serve para impor limites ao homem de modo a que não use o poder da ciência para fins letais, a exemplo do ocorrido na fase de lançamento das bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki. (II GM 1945)

Assim sendo, interessa destacar quatro elementos fundamentais que envolvem o processo de investigação científica: o sujeito: aquele que investiga, tendo como ponto de partida a existência de  um problema, o objecto: a matéria-prima da investigação, os meios: que têm a ver com o procedimento metodológico utilizado pelo (a) investigador (a), incluindo os recursos material e financeiro para a concretização dos objectivos da pesquisa e o fim: referente ao resultado da pesquisa que deve beneficiar o homem e o seu entorno.

Por isso, a articulação harmoniosa e complementar entre a ética e a ciência se configura como um imperativo, sobretudo na era da informação e da crise de valores, uma vez que estabelece o equilíbrio no exercício da actividade científica. Desta feita, susbcrevemos a afirmação de Van Potter nos seguintes termos: "O progresso científico não é um mal, mas a verdade científica não pode substituir a ética”.

Os princípios éticos consagrados no código de conduta Europeia do Investigador são: confiabilidade: serve para garantir a qualidade na investigação reflectida no desenho experimental, nas metodologias a usar, na análise dos resultados e no uso dos recursos; honestidade: qualidade que serve para incutir na consciência do investigador, a cultura de honestidade: respeito: qualidade humana que permite ao investigador manter o respeito e consideração pelos outros, os ecossistemas, património cultural e meio ambiente; responsabilidade: qualidade que permite ao investigador ser responsável com a investigação.

O Filósofo Austríaco Karl Raimond Popper ajuda-nos também a elencar as tarefas docientista e/ou investigador resumidas em: fazer um bom trabalho em sua área de actuação, admitindo suas limitações; evitar o perigo de uma especialização estreita, para permitir manter um interesse não somente pela sua área na qual é especialista, mas estar disposto a dialogar com outros campos do conhecimento científico; procurar manter uma atitude de modéstia intelectual, ao reconhecer que está sujeito a erros, que a crítica de outros pode ajudar na compreensão de um problema ou de uma possível solução.

Para Van R. Potter, (apud NETO, 2008, p.26), o surgimento da Bioética no século XX, ciência que regula o comportamento humano no campo da vida e da saúde à luz de valores e princípios morais racionais, vem justamente para toda a humanidade tomar parte activa e de modo consciente nos processos da evolução biológica e cultural.

Refere-se que a falta de ética na investigação científica pode gerar várias consequências negativas ao homem e à natureza, das quais se destacam a violação sistemática dos direitos humanos, o plágio e a degradação do meio ambiente que pode constituir vítimas humanas e ameaça à sobrevivência dos seres bióticos e abióticos no Planeta Terra, a título de exemplo.

Em sede do acima exposto, conclui-se que a relação entre a ética e a ciência não deve ser dicotómica, mas sim, natural e complementar, uma vez que visa ajudar a moralizar a consciência do homem/investigador no sentido de fazer da ciência um instrumento capaz de gerar benefícios a si e ao meio ambiente, primando pela integridade e honestidade intelectual.

 

*Docente Universitário, palestrante e escritor.

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