Opinião

Os cowboys de Joaquim Chissano

Os radiófilos têm algo em comum: ver em tudo uma razão para reportarem ou produzirem um programa radiofónico para as grelhas das suas estações emissoras. Aconteceu comigo por diversas vezes ao longo da carreira desenvolvida na Rádio Moçambique. Por exemplo, quando li a obra “Vidas, Lugares e Tempos” – Texto Editores, Moçambique, 2010 - 1ª. Edição

20/06/2021  Última atualização 04H20
© Fotografia por: DR
"Vidas, Lugares e Tempos” é título de um livro de memórias escrito por um homem que pode responder por três nomes, cada um deles com a sua história e contexto: Dambuza, Cissé ou Joaquim. Dambuza, conferido à nascença pelos pais e em homenagem a um seu ancestral; Cissé, disfarce de Chissano no passaporte emitido pelas autoridades nigerinas para que ele pudesse viajar nos primórdios da sua carreira política; e Joaquim, de Joaquim Alberto, o nome próprio do antigo presidente da República de Moçambique e tomado no acto do seu registo civil na Circunscrição de Chibuto, hoje província de Gaza.

Ainda lia a obra quando encontrei algo que achei de muito interessante para partilhar com os ouvintes, e agora, cinco anos decorridos, para compartilhar com os leitores desta coluna, angolanos que espero se revejam nalguns dos seus episódios: um pedaço do percurso de vida de Joaquim Chissano e fora da sua verve política, que esta já quase toda a gente conhece.
O fragmento tem a ver com a adolescência daquele que viria a ser, um dia, chefe de Estado de Moçambique e passada nos arrabaldes da cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, onde se fixou, para estudar, após sair do seu torrão nativo.

Em concreto, trata-se da maneira como o Joaquim e outros meninos como ele criavam ou recriavam as sinopses do género de filmes mais famosos da sua época, os Westerns, também conhecidos por "filmes de cowboys” ou "filmes de faroeste”, que retratavam a violência a Oeste do rio Mississípi, o chamado Oeste Selvagem, ou o Velho Oeste, nos Estados Unidos da América.

A criatividade com que desenvolviam as suas ideias indicia, desde logo, que os meninos haviam, de alguma forma, assistido a algumas daquelas películas, razão por que se serviam de muitos dos seus enredos para aquilo a que chamavam de latas, ou seja, os filmes inventados. Sem idade, mas sobretudo sem dinheiro, não sei como as terão assistido ao vivo em salas de cinema convencionais, nomeadamente o Cinema Império, "um edifício destinado a espectáculos para indígenas”, conforme rezava o jornal "Lourenço Marque Guardian” por alturas da sua construção, em 1949, pelo empresário português José Leite Matos Saramago. À socapa, certamente, para que se lhes fosse implantando o hábito de pequeninos.

No programa radiofónico a que me referi, e como aperitivo para o seu objecto de fundo, as latas de Dambuza e seus parceiros, fez-se uma resenha das trilhas sonoras de Westerns que fizeram furor em Moçambique, mais concretamente nas décadas de 1950, 1960 e 1970. Uma após outra, foram rodando os sons de filmes como "O Bom, O Mau e o Feio”, produzido em 1966; "Por um Punhado de Dólares”, rodado em 1964 e dirigido pelo italiano Sérgio Leone; "Por Alguns Dólares a Mais”, com Clint Eastwood e Lee Van Cleef nos papéis mais sonantes; "Rio Bravo”, de 1959 e dirigido por Howard Hawks, com John Wayne no papel principal; "Vera Cruz”, produzido em 1954; "O Forte Apache”, de 1948; "Django”, Western italiano produzido em 1966; e, finalmente "O Cowboy da Meia-Noite”, de 1969. E depois voltou-se ao livro "Vidas, Lugares e Tempos”, ou seja, às latas de Joaquim Chissano e seus amigos. Escreve Chissano, na sua obra:

"Como não tivéssemos dinheiro para ir ao cinema, inventámos uma forma de ver filmes, ou melhor, de ouvir filmes. Era um cinema oral. Contávamos uns aos outros aquilo que chamávamos ‘latas’, isto é, uns filmes imaginários tão bem contados que pareciam verdadeiros, mesmo quando já sabíamos de início que eram ‘latas’.

Cada um tinha de assumir ter assistido a um filme de CowBoy, que nós pronunciávamos Khó Boi. Sabíamos que nesses filmes o herói era sempre o rapaz que lutava contra todos os bandidos e salvava a moça de episódio em episódio. A menina era sequestrada pelo bandido-chefe e, uns segundo antes de ser morta, lançada no precipício ou na jaula de leões, o rapaz salvá-la-ia com um tiro bem acertado no braço do bandido que a estava a arrastar. Não era preciso contar com tanta prosa. Bastava dizer:

Então o rapaz chega e o bandido vê-o primeiro e pega na pistola e … mazoar. O rapaz, com calma, levanta as mãos e logo pum na pistola do bandido e thó thó, mata o bandido da frente; thó, mata o da atrás, xiku twin (salta) em cima do cavalo, tra tra tra tra desamarra o cavalo da menina e o cavalo branco da menina tra tra tra tra e a menina nwen gadla, já montou, tra tra tra tra à velocidade, pá, velocidade, pá, acelera e choca no muro. É pá! O rapaz está ferido, pá.
Tã, tã, tã, tã. Os bandidos estão a tocar corneta para avisar para cercar o rapaz, os gajos são muitos. Mas é pá, o rapaz é esperto.

Solta o cavalo, empurra a pedra, a pedra cai, o cavalo corre sozinho, empurra outra pedra, os bandidos pensam que a moça também caiu e, mas é pá, o rapaz está escondido atrás doutra pedra, lança a corda no pescoço do primeiro bandido, lança mais outra vez no pescoço de outro bandido, xiku twin leva os cavalos dos bandidos e as armas dos gajos e bam bam, bam bam, dispara contra um, contra outro, mais outro, e os gajos fogem e a menina salvou, mas quando faz assim, para mudar de cavalo para dele pá, o chefe dos bandidos twin txa. Agora, pá, a menina está outra vez nas mãos dele pá. Disparar? Não pode porque a menina está à frente. O rapaz tra tra tra tra tra e quando o bandido dispara o rapaz já estava por baixo da barriga do cavalo e deixa o cavalo da menina e o cavalo dele corre para ela e ele twin tcha já montou e twin twin twin passa ao lado escondido, vai para a frente, agarra um ramo de uma árvore e, quando o bandido passa, xiku twin katla, já agarrou o bandido. Toma, toma, soco, soco, o bandido também é forte, agora é o chefe deles também toma soco, o rapaz cai e quando quer levantar toma pum, mas o rapaz faz cambalhota e com o pé kak, partiu o queixo do bandido, mas já não tinha bala; quer disparar e a pistola tlik, é pá o bandido tira a faca, a moça não podia, estava amarrada, mas com a perna empurra uma pedra, o bandido pensa que é alguém, olha para trás e o rapaz twin pum, soco, apanha a faca e manzaoar e pronto; amarra o gajo, chega no princípio onde queria o bandido lançar a moça e adeus bandido com o cavalo dele grrri mpum. Depois abraçou a moça, beijou, subiu no cavalo da moça, os dois, até chegar na montanha onde que tinha uma casa bonita zim, zim, zim, zim, zim, ‘deu voltas com a menina nos braços e na cama pfóóó. Depois tratou as feridas e Thé end.’”

Um interesse particular vai para a música de fundo que se escrutinou para acompanhar a leitura dramática da lata produzida por aqueles meninos dos subúrbios de Lourenço Marques. Chama-se ela "Sleepy Little Town”, dos The White Buffalo, e foi extraída da trilha sonora do filme "Era uma Vez no Oeste”, rodado em 1968, com Henry Fonda e Cláudia Cardinale nos papéis principais. Não tendo sido obviamente este o filme a inspirar os meninos para os seus argumentos, porque, como se disse, a película é da segunda metade da década de 1960, só nos resta especular que terá sido a partir de filmes como "A Fera do Forte Bravo”, de 1953; "A Lei do Bravo”, de 1955; "Antro da Perdição”, de 1954; "Assim São os Fortes”, de 1951; ou "Búfalo Bill”, de 1944. Mas isso só o Dambuza no-lo poderia confirmar. E talvez até nem interessa sabê-lo, uma vez que as lendas, os factos, os heróis, as vinganças, os sarcasmos, o humor ácido desses filmes tiveram sempre o mesmo foco e espírito.
Luís Loforte

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião