Opinião

Os cenários nos “países endémicos” a Golpe de Estado

Faustino Henrique

Jornalista

O que ocorre no Sudão, Chade, Guiné Conacry e Mali, depois do Golpe de Estado que, obviamente, não será, em cada um deles, o último, ajuda a compreender que, de facto, não há coincidências em política, independentemente das semelhanças nos passos que os militares dão.

17/11/2021  Última atualização 09H37
Parece, claramente, que se estão a imitar  milimetricamente ao ponto de perdermos  a conta quem estará a imitar quem, mas curiosamente os cenários que os esperam, aparentemente previsíveis, são os mesmos, com uma ou outra excepção.
Parece exagerado dizer o que se diz, relativamente a possíveis cenários que ocorrerão ao longo dos processos de transição individuais de cada país, ao que poderá suceder pouco depois da passagem de poder militar a civil, bem como ao aparentemente imutável "modus vivendi"  de políticos e militares nos quatro países aqui em análise.

 Os militares, nestes países, habituados a um certo "direito adquirido" de se imiscuírem de determinarem o curso dos acontecimentos políticos, obviamente que não permitirão que essa realidade termine tão cedo. Daí as várias tentativas para permanentemente esvaziarem o papel e o poder que as instituições devem desempenhar, independentemente da tentativa, algumas vezes bem sucedida, da sociedade civil e oposição em cada um dos quatro países. 


Depois da alteração da ordem política e constitucional em cada um daquelas países mencionados, todos eles "endémicos" no que a prática de golpe de Estado diz respeito, fruto de alguma pressão regional, africana e internacional, optaram por "montar" inicialmente estruturas civis para conduzir o processo de transição.

No Mali, o coronel Assimi Goitá, para ver reduzir a pressão da CEDEAO, da União Africana e dos parceiros internacionais, cedeu em Setembro de 2020, "cosmeticamente" o poder à estrutura civil, liderada pelo indicado Presidente Bah Ndaw e Primeiro-Ministro, Moctar Ouane, com uma "Carta de Transição".

Nove meses depois, contrariando todas as expectativas e evocando "razões de segurança" em que teve que escolher, como disse, entre a estabilidade e o caos, o coronel Assimi Goita derrubou as duas figuras, assumindo-se como Presidente do país.

Na vizinha Guiné-Conacry, o também coronel Mamady Doumbouya, fazendo um compasso de espera sobre o que se passaria no Mali, sobre a leitura e decisões da União Africana e do bloco regional, seguiu atentamente todos os desenvolvimentos que viam de Bamakó.

E assim os militares guineenses "cozinharam" igualmente uma carta de transição e, ultrapassando eventuais pressões para a colocação de uma estrutura civil, estranhamente, Mamady Doumbouya, que se mostrou sempre desinteressado no exercício do poder, "auto-coroou-se" a si mesmo como Presidente de transição.

Não há dúvidas de que, quer Assimi Goita, quer Mamady Doumbouya, terão aprendido alguma coisa com o processo ocorrido no Chade, quando Mahamat Idriss Deby, conseguiu ensaiar e consolidar o poder dos militares, com a criação do Conselho Militar e a promessa de 18 meses de transição.

Se no caso do Chade a União Africana e as organizações regionais em que se insere o país de Ngarta Tombalbaye, o "país de Independência", nada fizeram, compadecendo-se com o processo que lá decorre, este precedente serviria também para o Mali e a Guiné Conacry. Esse é o entendimento, demasiado óbvio e esperado, a que chegaram os líderes militares daqueles países da África Ocidental.

No Sudão, onde curiosamente também existia uma estrutura civil, o Conselho Soberano, ainda que às ordens  dos militares liderados pelo tenente general Abdel Fattah Al Burani, para liderar o processo de transição, na verdade, o maestro de todas as jogadas era precisamente o oficial superior que sucedeu no poder a Omar Al Bashir.
E curiosamente, no Sudão, os militares usaram os mesmos pretextos dos homólogos malianos para derrubar o Governo civil, aceite pelos mesmos, alegando que a detenção do Primeiro-Ministro Abdellah Hamdok tinha sido para alegadamente evitar a guerra civil.

A União Africana, a Liga Árabe e a ONU, como sempre e nos moldes semelhantes ao da matilha a latir de forma estridente ante a caravana triunfante e imparável, nada fizeram para inverter o quadro de retorno a um Governo civil, acabando aquelas três organizações "desafiadas" com o anúncio do tenente-general Al Burani de que seria ele próprio o Presidente de transição. 


O cenário está montado nos quatro países, Mali, Chade, Guiné Conacry e Sudão para que os militares continuem a ter uma palavra a dizer no que a condução dos destinos daqueles Estados diz respeito.

Mas nada indica que será diferente com os actuais militares que, escrevam o que digo, vão acabar por "experimentar o gosto pelo exercício do poder" e, contrariamente à ideia de que entregarão o poder a um ente civil democraticamente eleito, vão eles mesmos acabar por se apresentarem às eleições.

E, ainda nesta senda, nada indica que governarão melhor que os predecessores, razão pela qual as mesmas razões que levaram os actuais militares que dirigem estes quatro países ao poder poderão ser, igualmente, evocadas por outros militares, provavelmente ainda no decorrer dos actuais processos de transição. O tempo vai acabar por demonstrar até que ponto os militares que dirigem o Mali, Sudão, Chade e Guiné Conacry foram visionários e patriotas para erradicar o actual círculo vicioso de golpes de Estado ou se estamos apenas diante de meros intervalos com os actuais processo de transição até que aconteçam novas intervenções dos militares.
Aguardemos.

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