Reportagem

Os cemitérios seculares que resistem ao tempo

Silvino Fortunato

Em vários lugares do corredor que fica entre Lukala, no Cuanza Norte, e Vista Alegre, no Uíge, podem ser vistos amontoados de pedras expostos em encostas de montanhas ou em pequenas elevações, que os moradores destas localidades disseram ao Jornal de Angola tratar-se de “Mbila za Mbundu”, o mesmo que “Cemitérios dos Ambundu” na tradução literal, cuja existência remonta há vários séculos.

30/10/2022  Última atualização 14H12
Cemitérios seculares © Fotografia por: DR

Geralmente podem ser encontrados agrupamentos que variam entre cinco a mais de dez destas campas, nunca excedendo as pouco mais de vinte. Nos arredores ou por entre os sepulcros cresceram árvores hoje visivelmente envelhecidas.

Abílio Panzu, com cerca de 90 anos de idade, disse que quando criança essas tumbas já existiam. "Os mais velhos diziam desconhecer os autores das referidas campas, que chamavam Mbila za Ambundu”, disse, adiantando que ouvia histórias que apontavam para a existência de animais que profanavam os cadáveres enterrados em túmulos rasos.

Mesmo no seu tempo da adolescência, segundo o ancião, nunca viu tais animais, que presumivelmente extinguiram-se com o tempo ao não se adaptarem às mutações do ambiente. A possibilidade da existência de animais que profanavam os cadáveres é partilhada pelo Capita (a mais alta autoridade entre os três sobas da aldeia de Kaboko, onde são avistados vários destes cemitérios). Domingos Macotilo lembra que os seus avôs diziam que tais animais "eram muito grandes e violentos”.

Perguntado se os seus avôs chegaram a conhecer os referidos animais, Domingo Macotilo disse que teriam ouvido as histórias dos pais. "Nem eles também viveram esse tempo. Também ouviram dos seus antepassados”.

O Jornal de Angola encontrou essas concentrações de campas precisamente em montanhas, montes e cordilheiras das localidades de Mataba e Coio, em Lukala,  Kakulo Kabaça, Mbondo Kaluaxi e na Banga, no Cuanza Norte, entre as margens Leste e Ocidental do rio Nzenza. Outras podem ser encontradas na antiga região do Pangu, que os colonos chamaram Aldeia Nova, ainda no Cuanza Norte, quando aqui se estabeleceram muito provavelmente no início do século XIX, propriamente nas aldeias de Kapichongo, Mbala Kibuba, Mbanza ya Mbanze e outras dispostas numa cordilheira junto do rio Lufua, que vai desaguar no rio Ndanji. Em Mbanza Kabolo tais Mbila za Mbundu estão espalhados e em grandes concentrações, um cenário que continua a ser visto em toda a rota que vai atingir a Vista Alegre, no município do Kitexi. O Jornal de Angola não encontrou nenhum destes cemitérios em florestas, estando todos expostos em lugares apenas com capim rasteiro.

Pode-se ver que a maioria destas concentrações está em lugares próximos de grandes rios ou de cursos permanentes de água e em terrenos propícios para a actividade agrícola assim como para a caça, o que pode pressupor que estes Ambundu teriam estabelecido aí concentrações populacionais. As populações que actualmente residem nestes territórios dedicam-se à pesca fluvial, à caça e à lavoura.

O Jornal de Angola constatou que o território de Lukala é habitado por falantes de Kimbundu; estes estão igualmente na Banga, na parte ocidental do rio Nzenza, em Mbondo Kaluaxi e em Kakulu Kabaça. Os Hungu estão no corredor norte do rio Lumbinji, ou seja, nos territórios que se denominavam Pangu, até Mufuki, que também é habitado pelos Ngola.

  Tradição oral versus História

Numa entrevista que concedeu ao Jornal de Angola, o rei Ndembu a Mufuki, em Kambamba, Vista Alegre, município de Ndanji a Kitexi, na província do Uíge, afirmou que o seu povo pertencia aos Ngola. 

A região do Ndembo a Mufuki terá sido o destino final de alguns povos Ngola expulsos de Luanda por colonos portugueses, por volta do século XVI, sendo também o ponto de encontro de outros povos que, pelos mesmos motivos, chegaram a esta região.

A autoridade local acreditava tratar-se dos seus antepassados que fugiram da Ilha de Luanda, passaram por Mulemba Xangola, dirigiram-se ao actual Kifangondo, de onde subiram com o rio Nzenza (Zenza ou Bengo) e se estabeleceram na região do Pungu-a- Ndongo, sempre sob o comando do rei Ngola Kiluangi Kia Samba, sendo Ndambi a Ngola e Mbandy a Ngola os seus dois fiéis coadjutores.

O agora Dembo Dom Henrique Manuel, actual soberanode Mufuki, acompanhado dos seus colaboradores e conselheiros, adiantou  que quando chegaram em Malanje e morre o rei Ngola Kiluanji Kia Samba, Mbandy a Ngola tomou as rédeas da direcção do povo e julgando não existir aqui condições de segurança, perante as investidas coloniais e a impossibilidade de continuarem a fuga, tiveram de recuar, cruzando novamente várias regiões das actuais províncias do Cuanza Norte e Bengo, por onde foram ficando alguns dos integrantes da caravana, formando aí povoações, como o Kilombo dos Ndembu, a própria região dos Ndembu (Dembos), Kakulu ka Ngola, Mbula a Tumba, Pangu e outras cercanias hoje habitadas por populações Kimbundu e Hungu.

"Já não voltaram com a mesma linha de Catete, por onde tinham subido. Vieram já desta linha de Ndalatando, atravessaram o Nzenza e desceram com o rio Lumbingi”, indicou o soberano.

Os demais, sempre às ordens e mando do rei Mbandy a Ngola, continuaram até atingirem as áreas de Nambuangongo e se fixaram em Mukondo. "Nem um ano fizeram, o próprio rei, o Mbandy a Ngola, morre”.

Entretanto, o professor de História do Instituto Superior de Ciências da Educação, Nicodemos Paulo Bunga, refuta a presença das referidas figuras naquela região e época.

"Ngola Kiluangi, MBandy a Ngola ou o Mbandy a Ngola nunca estiveram nesta região”. Para ele, muitos soberanos das épocas mais recentes foram tomando os nomes de altas entidades mais antigas do reino, daí que as fontes orais liguem determinados acontecimento a estas altas entidades históricas mais antigas.

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