Opinião

Os caminhos da esperança

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

É difícil encontrá-los, mas os caminhos da esperança estão sempre aí: eles unem os indivíduos e os povos, também.

13/09/2022  Última atualização 06H55

Com mais ou com menos fortuna, cada um de nós termina identificando o caminho: fica sabendo exactamente qual é e a determinada altura, opta por segui-lo quando se impõe, sem se desesperar, sozinho ou com o abraço amigo, seguindo o conselho de outrem, indo com ele ou, apenas, fazendo um exame de consciência que nos liberte.

Acontece com qualquer sociedade ou comunidade humana o mesmo que aos indivíduos: tarde ou cedo, o brilho da lucidez termina por aparecer como uma pedra incontornável. E, então, só resta segui-lo sem máscaras e de modo consciente. Não importa o grau e o nível de desenvolvimento histórico, social, económico e cultural: as sociedades e os indivíduos necessitam de se questionar a si próprios para recriar-se, melhorar e avançar.

Tal é assim que, com o título que retomo aqui para esta crónica, "Le Chemin de L`espérance” (Edições Fayard, 2011) Stéphane Hessel e Edgar Morin dedicam um livro, especificamente, um ensaio breve mais profundo e detalhado à questão: ele tem o mesmo formato e está escrito muito ao estilo dos libelos panfletários que se podem  distribuir pelas ruas da cidade para alertar ao cidadão que passa, absorvido pelo estresse da vida moderna, de que há uma crise política que é, também, em parte uma crise civilizacional.

O livro de Stéphane Hessel e Edgar Morin pretende situar a França no mundo e não faz sem antes voltar a situá-la no contexto europeu. Mas, o maior interesse do livro está, certamente, no facto de os mesmos  avançarem uma série de leituras e as consequentes propostas práticas sobre diferentes assuntos de interesse público, cujas soluções não devem estar completamente entregues a um grupo reduzido de especialistas, por mais bons que eles o sejam nas suas áreas.

Desde uma perspectiva multidisciplinar visando a maior regeneração social de que a França necessita, nos dias de hoje, estes dois intelectuais franceses fazem reflexões sobre variadíssimos aspectos, como por exemplo: o porquê das reformas e das transformações do Estado moderno; sobre a necessidade de desenhar políticas públicas que permitam o cidadão viver melhor e dispor de uma boa qualidade de vida; sobre como é necessário pensar numa estratégia para a revitalização da solidariedade social e os moldes mais práticos da ajuda aos mais vulneráveis.

Mas, Stéphane Hessel e Edgar Morin vão ainda mais longe: chamam atenção sobre a questão do quão imperioso e urgente é uma política específica para a juventude, em todas as suas dimensões; de como a sociedade não deverá se demitir na necessidade de um programa para a moralização contínua; fazem uma reflexão sobre o trabalho e sobre o emprego, na época actual; preocupam-se em fazer uma análise da política de consumo, os seus benefícios e as suas consequências sociais; fazem uma autópsia das desigualdades sociais, as suas características e de como deveriam esbatê-las; trazem à discussão uma política nova para a educação, para a cultura estética e para a reforma da política e pela revitalização democrática.

Lendo-os torna-se evidente que, também nós devemos encontrar os caminhos da esperança aqui nessa nossa Angola, e à nossa maneira.

Como indivíduos há quem encontre o caminho da esperança no trabalho físico, no desporto ou, simplesmente, em qualquer forma de acção, nalgum esquema que lhe permita autosustentar-se; outros há que se socorrem da fé, do discernimento ou da reflexão, de todo o tipo– religiosa, espiritual, intelectual ou qualquer outra-; não escasseiam aqueles que o encontram na literatura e nas artes, ou mesmo aqueles que optam por expedientes diversos e com razão.

Porém, como sociedade, sempre que haja a certeza do impasse, onde quer que se sinta a força do afunilamento de ideias e das opções políticas e sociais não basta o recolhimento, a evasão, nem as trincheiras.

É neste momento que a imaginação e o furor criativo devem unir-se a paz e a justiça social para abrir uma janela (ou uma porta, tanto faz) à esperança. Não vale a pena fingir que não sabemos quão difícil é admitir que, afinal, de certa forma, erramos. Não vale a pena persistir nos erros quando o que se divisa logo a seguir é um beco sem saída: no entanto, os caminhos da esperança estão aí bem à frente dos nossos olhos.

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