Opinião

Os bilheiros também te choram!

Augusto Cuteta

Jornalista

Naquele dia o José Meireles foi visitar-me em casa, ainda em Viana. Eu era repórter da Editoria Sociedade, onde comecei a dar, há mais de duas décadas, os primeiros passos de Jornal de Angola, antes de ir ao Dossier. Depois de pedir uma água bem fresquinha, a dama ofereceu ao meu antigo chefe de reportagem um sumo.

30/05/2021  Última atualização 11H43
A dama tinha muita estima e consideração pelo Meireles, aliás, pelo senhor Meireles, como ela gostava de o tratar. Talvez por ter sido o único chefe do Jornal que tinha respondido ao convite de ir ao nosso casamento, em Setembro de 2001.
E a consideração era recíproca. Aliás, quando decidiu se juntar à esposa com quem viveu até ao dia da sua morte, o kota Meireles mandou-nos um convite especial para estarmos na festa de pedido. Ali, ainda me lembro, o Man-Meiras, como eu o chamava, dançou até o novo dia nascer!


Ora, lá em casa, em Viana, batemos um papo rápido. Depois, o homem despediu-se. Antes de arrancar, baixou o vidro lateral esquerdo e chamou por mim. Perguntou-me se aquela casa era mesmo minha, ao que respondi positivamente.
O homem desceu outra vez da viatura. Agarrou-se aos quadris e deu-me uma ordem - era o que ele gostava de fazer connosco, seus pupilos - para que eu encontrasse, naquele dia mesmo, um terreno! Pedi calma ao kota. Liguei ao Luís Sapalo, que veio posteriormente a se tornar num grande amigo dele. Expliquei a situação. Com esse companheiro, fomos atrás dos terrenos. Encontramos vários. O Man-Meiras queria comprar, numa só assentada, dois espaços. Mas eu e o Luís aconselhamo-lo a ter ainda só um e apostar nas obras. E foi o que fez.


As obras decorreram rápido. Antes de cair doente, essa casa, onde viveu até a data da sua morte, já tinha as paredes externas pintadas de verde, uma cor que ele adoptou depois, nos últimos anos, como marca, até nas roupas! Ele dizia que o verde era a esperança de que tudo daria certo!
Como chefe de reportagem ou editor de Sociedade o Meireles foi sempre um homem rígido. Exigente mas compreensivo quanto às debilidades dos seus repórteres. Por isso, ajudava-nos a crescer. No fundo, aquele indivíduo casmurro, tinha um coração bom, de dar inveja. Não gostava, isso sim, de gente sem compromisso com as causas do Jornal. A esses, o kota baptizou-os de bilheiros, baldas..!


Naquele seu sorriso lindo e andar a rabugento, que invadia a redacção, Meireles punha toda a máquina do Jornal operacional. Era mesmo um homem de soluções. Ele tinha fontes e, além disso, deixava claro que o lugar dos repórteres era na rua, atrás de informações e na produção de matérias.
O Jornal de Angola o tinha perdido quando ele saiu para o jornal "O País”. Depois o homem regressou, mas, em pouco tempo, entregou-se à diplomacia. Na Nigéria foi adido de imprensa. E foi lá onde boa parte de toda a desgraça começou! Em menos de um ano Meireles regressou ao país. Mas, doente e sem dinheiro, ficou quase dependente da ajuda de amigos e de outras pessoas mais próximas.


Doeu muito vê-lo internado no Sanatório de Luanda. Na primeira visita que lhe fiz nesse hospital, eu tive medo de perdê-lo. Porém, ele lutou e saiu-se vencedor.
Voltou ao trabalho, mesmo com inúmeras debilidades. Não era o mesmo homem que me tinha recebido no Jornal. Mas esteve sempre pronto para a labuta. Quase quatro anos depois, a morte o tirou do nosso seio. Na última segunda-feira fomos levá-lo à sua última morada.


Querendo ou não, a partida para o além do Meireles afectou a todos. Pelo que vejo, desde que ele fechou os olhos e deixou de falar definitivamente, até os "bilheiros” do Jornal também o choram!
Descanse em paz, Man-Meiras!

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