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Oportunidades de negócios em Angola fazem duplicar investimentos da IFC

O investimento da Corporação Financeira Internacional (IFC nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) duplicou na última década e a intenção é “aumentar fortemente” a sua presença, disse o vice-presidente da instituição para África e Médio Oriente.

19/12/2021  Última atualização 05H10
© Fotografia por: DR
"Do lado da IFC, estamos muito interessados em aumentar fortemente as nossas participações, os nossos investimentos, nos países lusófonos, não só em Moçambique e Angola, mas também nos outros países onde historicamente estivemos menos presentes”, disse Sérgio Pimenta, em entrevista, por vídeo-conferência, à Lusa, a partir de Washington.

O vice-presidente regional da instituição financeira para África recordou que a IFC tem uma presença de vários anos em Moçambique e tem um escritório em Luanda desde 2019, além de estar a trabalhar com Cabo Verde, através do Banco Mundial.

Segundo números da instituição, o portfólio da IFC, do grupo Banco Mundial (BM), que financia o sector privado, nos seis países africanos lusófonos - Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe - duplicou, nos últimos dez anos fiscais (2011-2021), de 132 para 267,5 milhões de dólares.
Segundo Sérgio Pimenta, o aumento das oportunidades de negócio e do interesse do sector privado em Angola contribuiu para este crescimento.

O Governo angolano, lembrou, "lançou-se num programa de reformas ambiciosas e numa transformação económica do país”, que, embora demore, já começa a dar resultados.

"Houve reais progressos que estamos a ver em Angola e isso tem criado condições para investidores privados estarem mais interessados em financiar projectos em Angola, não só investidores estrangeiros, que podem trazer capital, conhecimentos, mais experiência, mas também investidores angolanos”, disse.

Neste contexto, a IFC desenvolveu "uma estratégia relativamente ambiciosa, mas com uma visibilidade a médio prazo”, incluindo no sector financeiro e do turismo.

"Financiámos dois bancos para fazer (…) linhas de financiamento que permitem promover o comércio externo” de Angola, disse Pimenta, sublinhando que, ao financiar a banca, financia-se indirectamente pequenas e médias empresas, que, em África, têm grande dificuldade em obter crédito devido às altas taxas de juro e aos requisitos internos da banca, um problema agravado pela pandemia.

Também para responder aos constrangimentos provocados pela Covid-19, a IFC financiou uma empresa no sector da hotelaria.
"O sector do turismo - de lazer e de negócios - é um sector da economia muito importante em África; depois do sector da agricultura é o que mais empregos cria e é um sector que sofreu tremendamente no mundo inteiro por causa da pandemia”, recordou.

A IFC planeia ainda trabalhar em Angola nos sectores da saúde, agricultura e agronegócio: "Angola tem um potencial agrícola que é extraordinário e que não está plenamente desenvolvido”, argumentou.

"Temos uma carteira de investimentos pouco acima dos 100 milhões de dólares ao dia de hoje, mas este número deve aumentar fortemente nos primeiros meses de 2022”, disse, admitindo, no entanto, que tudo depende do progresso das reformas que o Governo angolano iniciou e da capacidade de investimento dos privados que a IFC acompanha.

Em Novembro, o Banco Mundial anunciou, no final de uma visita a Luanda, em que também esteve presente Sérgio Pimenta, que esta instituição vai financiar projectos no valor de 1,5 mil milhões de dólares, cerca de 1,3 mil milhões de euros, até Junho do próximo ano.


Outros países

Já em Moçambique, Pimenta destacou o financiamento, anunciado em Outubro, do projecto da central de Temane, a maior central eléctrica construída em Moçambique, após a independência, num pacote de dívida de 494 milhões de dólares.

Este projecto, sublinhou, "ilustra bem a capacidade da IFC, não só de financiar, mas de mobilizar financiamentos de outros parceiros e, trabalhando com o BM, ajudar o Governo a estruturar um projecto que depois é construído e financiado pelo sector privado”.

Além disso, a IFC fez linhas de crédito para comércio externo em Moçambique e tem uma carteira com projectos no sector da silvicultura, agricultura e agronegócios, sector em que o país "também tem muito potencial”, afirmou Pimenta.
Para Cabo Verde, a IFC tem uma parceria com o BM, que lhe permite ter uma presença indirecta no país através do escritório do Banco Mundial.

A instituição tem estado a aumentar a sua presença em Cabo Verde, com "visitas, reuniões, contactos, participação em eventos, diálogo com o Governo, diálogo com o sector privado, diálogo com os parceiros de desenvolvimento e isso está a trazer os seus resultados”.
"Nós temos hoje um ‘pipeline’ de projectos reais em Cabo Verde que penso que vamos poder assinar nos próximos meses”, afirmou.

Com a Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Guiné Equatorial, a IFC espera utilizar uma parceria anunciada na semana passada com o Banco Africano de Desenvolvimento e o seu Compacto para Financiamento do Desenvolvimento para os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, ou Compacto Lusófono, como uma oportunidade para "realmente fazer mais operações nesses países”.

"Penso que é uma oportunidade forte e estou confiante que vamos lá chegar”, afirmou Sérgio Pimenta. O vice-presidente da IFC para África lembrou que o papel da instituição "é apoiar o desenvolvimento do sector privado no objectivo do desenvolvimento” dos países onde actua.

"Não é só financiar um projecto pela alegria de financiar um projecto, é realmente porque esses projectos vão ter impactos em termos de criação de emprego, em termos de criação da actividade económica, em termos de integração regional e em termos de promoção da qualidade de vida, particularmente para os jovens e para as mulheres”, sublinhou.


UM OLHAR DIFERENTE SOBRE O CONTINENTE

"Pandemia acelerou digitalização,
a urbanização e a visão regional ”


O vice-presidente da Corporação Financeira Internacional para África e Médio Oriente disse que a pandemia de Covid-19 acelerou três tendências em África: uma visão regional sobre o continente, a digitalização e a urbanização.

"Antes da pandemia, África era uma região que, na globalidade, tinha um crescimento muito forte, não uniforme, principalmente porque as maiores economias não cresciam de forma tão forte como as outras, mas havia várias com um crescimento muito forte, e a pandemia, que originou a primeira recessão em 25 anos, acelerou três tendências", disse Sérgio Pimenta em entrevista por vídeo-conferência à Lusa, a partir de Washington.

"Olha-se para o continente de uma maneira mais regional, com a implantação da Zona de Livre Comércio Continental Africana [AfCFTA, na sigla em inglês], um documento importante, há clientes nossos que exportavam para outros continentes e que agora preferem vender para o país vizinho, dadas as dificuldades de exportação, e esta é uma tendência que já existia, mas que teve uma aceleração muito interessante, porque quanto mais integrada e resiliente África for, mais força vai ter", disse o vice-presidente da IFC para África e Médio Oriente.

Depois, Sérgio Pimenta nota uma mudança na urbanização: "África sempre foi vista como um continente maioritariamente rural, com a maioria da população e da pobreza nas zonas rurais, mas 50% das pessoas estão já nas cidades e a aumentar, uma tendência acelerada com a pandemia, e que é preciso analisar, porque as questões de desenvolvimento e pobreza em meio urbano são bem diferentes das mesmas questões no meio rural". Os países africanos, acrescentou, têm de ser apoiados nesta "transformação urbana para terem urbes ecologicamente sustentáveis e com emprego, áreas onde é preciso trabalhar fortemente".

Por último, Sérgio Pimenta nota a digitalização da economia como a última tendência acelerada pela pandemia de Covid-19 em África, sector em que a IFC contribuiu com financiamentos de mil milhões de dólares, no ano fiscal que terminou em Junho.

"Já existia antes da pandemia, mas a digitalização teve um aumento muito forte e é um dos aspectos mais importantes, porque se já existia antes da pandemia uma diferença entre o continente africano e o resto do mundo, temos de ter muito cuidado para que a diferença não se acentue e, pelo contrário, haja menos e que África fique integrada na economia digital".

Para este responsável, "África tem oportunidades para uma transformação real da economia e do tecido socioeconómico e isso vai permitir um desenvolvimento do continente para o futuro".

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