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ONU é acusada de minimizar grave situação no Sudão do Sul

“A comunidade internacional e a ONU poderiam fazer melhor se, realmente, afirmassem as coisas como elas são e o que se vê da ONU, neste momento particular, é uma tendência para minimizar a gravidade do que está a acontecer no Sudão do Sul, o que eu penso ser perigoso”, afirmou Mark Millar, analista de conflitos no Conselho Norueguês para os Refugiados.

09/07/2021  Última atualização 08H00
© Fotografia por: DR
"O que percebo da ONU é que eles querem realmente sair da situação muito difícil em que vêem o país. Começa-se a ver nas narrativas coisas que minimizam a seriedade dos acontecimentos”, acrescentou.

O país mais jovem do mundo, 193º Estado-membro das Nações Unidas, declarado independente em 9 de Julho de 2011, faz hoje dez anos, mas não tem razões para celebrar o "Dia Nacional”.

O Sudão do Sul mergulhou numa guerra civil em finais de 2013, da qual saiu, mais no papel do que na realidade, em Setembro de 2018, com a assinatura de um acordo de paz dito "revitalizado”, e contabiliza desde a independência cerca de 400 mil mortos, 2,2 milhões de refugiados e 1,4 milhões de deslocados internos, segundo o Conselho Norueguês para os Refugiados.

Millar deu como exemplo do que afirma o facto das Nações Unidas se referirem aos sucessivos eventos de violência interétnica, sobretudo entre Nueres (pastores) e Dinkas (agricultores), as maiores etnias do país, apontando sempre o "aspecto local” dos mesmos - "falam sempre em violência intercomunal”, com o objectivo de "afastarem a ideia de que isto possa fazer parte do conflito nacional”.

"É possível ver a ONU como que, penso, a esgueirar-se pela porta e a tentar arranjar desculpas, à medida que vai saindo, o que é muito preocupante, porque, se esta coisa se reacende, se as coisas voltam a ficar más, qual vai ser o seu empenho na protecção dos civis?”, interrogou Mark Millar, cujo posto de trabalho é em Juba, capital do Sudão do Sul.

O Sudão do Sul nasceu numa altura em que os Estados Unidos acreditavam no "milagre das intervenções militares como forma de criação de novos Estados democráticos em lugares no mundo,  onde isso é impossível”, parece responder Aleksi Ylonen, investigador finlandês.

"Foi um falhanço desde o início”, diz Aleksi Ylonen. "Mas havia uma enorme esperança neste processo, instilado pelos Estados Unidos, que conseguiram passá-la às organizações internacionais. As Nações Unidas foram envolvidas, mas é interessante que, na altura, as instituições africanas, como a União Africana e os líderes africanos de todo o continente, sendo um deles Muammar Kadafi, afirmaram que aquilo não fazia sentido”, descreve o especialista finlandês.

"Não se pode ter um novo país a partir do nada”, dizia o então líder líbio e sustentava que teria de haver algum tipo de acordo, algum tipo de federação ou confederação dentro do Sudão, "porque assim não funcionaria”, explica ainda Ylonen.

A União Africana acabaria por, finalmente, "ser convencida pelas grandes potências, sobretudo ocidentais, e embarcou na ideia” de apoiar o nascimento do mais jovem país do mundo, diz o investigador. Kadafi ficou sozinho, e acabaria morto no rasto de uma "Primavera Árabe”, por alturas em que o Sudão do Sul chegava à ONU. Mas é quem parece ter tido razão.

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