Especial

Ondjiva clama por mais investimentos privados

Domingos Calucipa | Ondjiva

Jornalista

Em meio da crise económica que se arrasta desde finais de 2014, agravada com o surgimento da pandemia do novo coronavírus este ano, a cidade de Ondjiva, capital do Cunene, revela-se como um fraco destino de visitantes e sobretudo de investimentos privados nos últimos anos na zona Sul do país, o que está a contribuir em grande medida no pouco ou quase nulo crescimento do seu tecido económico.

25/12/2020  Última atualização 13H26
© Fotografia por: DR
Olhando para as vizinhas cidades do Lubango (Huíla) e Moçamedes (Namibe) que, a despeito da cerca sanitária imposta à capital do país, continuam a ser destinos preferenciais de visitantes, quicá pelas suas potencialidades económicas e turísticas. 

Ondjiva parece perder interesse para muitos nacionais e estrangeiros, depois que foi encerrada a fronteira com a vizinha Namíbia, devido à pandemia, país que até então atraía gente de diferentes pontos do país por motivos vários. 

Para justificar tal panorama, basta observar a drástica queda de hóspedes nas unidades hoteleiras da cidade (não obstante manterem os preços das diárias), o pouco desembarque de passageiros vindos do Lubango por via terrestre nos términos de autocarros, sendo a única ligação com o resto do país, assim como a não retomada até aqui dos voos domésticos na linha Luanda/Ondjiva.

A outra imagem que mostra que a cidade de Ondjiva parou no tempo e no espaço é a paralisação ou literal abandono de várias obras de construção civil, quer ligadas aos programas do Governo como do investimento privado, gorando as espectativas dos munícipes. 

Numa ronda a algumas unidades hoteleiras da cidade, o Jornal de Angola apurou que o fluxo de hóspedes caiu em mais de sessenta por cento desde o início do ano. Tal é o caso da Pensão Maroka, no bairro Naipalala, que com os seus 24 quartos, que antes ficavam quase sempre preenchidos, hoje assinala uma queda de clientes já mais vista ao longo dos seus quase doze anos de existência.

N’kumah Kawindima, um dos responsáveis da pensão, disse que do total de quartos que a unidade dispõe menos de dez ficam ocupados, com uma média de procura diária de três a quatro clientes, mesmo mantendo o preço único da diária de 8.500 kwanzas, de há dois anos.

O responsável afirmou que diante de tal cenário, a unidade viu-se obrigada a dispensar por tempo indeterminado cinquenta por cento dos trabalhadores no início da pandemia, mas actualmente está com catorze empregados dos 23 existente até antes do surgimento da doença.

Outros serviços que decaíram bastante, avançou, são os do restaurante que só mantêm por causa dos hóspedes, uma que deixaram de ser lucrativos devido a alta dos preços dos principais produtos no mercado, como o peixe, a carne de vaca, esta que passou de 1.500 para 2.000 kwanzas o quilo, enquanto a galinha custa agora 3.000 kz contra os anteriores 1.500 kz.

Na Pensão Kumbuessa, no centro da cidade, a realidade não é diferente. Com os seus 25 quartos, cujos preços vão de 8.600 a 15.400 kwanzas, apenas sete ou oito chegam a estar ocupados, e apenas por visitantes em trabalho, nada daqueles que vêm em lazer, quando antes era necessário solicitar reserva para conseguir um quarto, segundo Edma Lopes, uma das responsáveis. O destaque nesta unidade é a manutenção do número dos funcionários.

Contexto força paralisação de obras

Entre as empreitadas paralisadas ou abandonadas na cidade de Ondjiva que se esperava virem dar outra imagem a urbe quando concluídas, destacam-se os quatro edifícios da avenida que dá para o aeroporto local, sendo três de cinco andares e um de sete, destinados ao ramo hoteleiro e outros ligados à extinta seguradora AAA, assim como o hotel de quatro estrelas no bairro Naipalala, praticamente já concluído.

As cinco edificações encontram-se paralizadas há mais de cinco anos fruto da crise económica e financeira. Outras construções paralizadas que atribuiríam um postal diferente a cidade são as destinadas a acolher os gabinetes provinciais de apoio ao governo da província, as obras de requalificação e ampliação da estrutura da antiga seguradora AAA que passará a Tribunal Provincial, bem como a centralidade local e projectos de construção de casas sociais no bairro Kaxila III.
Pequenos negócios
Um verdadeiro exemplo de resiliência às intempéries provocadas sobretudo pela pandemia é demostrado pela pequena loja de materiais informáticos, a F-Sat, e o mini-mercado BFM Comercial.

O primeiro estabelecimento, um dos mais antigos do ramo na cidade, não obstante ter as prateleiras quase vazias de produtos como computadores, dispositivos de armazenamento de dados, telefones e outros materiais, procura manter as portas abertas ao público com o pouco que dispõe.

A  trabalhadora do pequeno espaço disse que o estabelecimento está a enfrentar enormes dificuldades em reabastecer-se de novos produtos que, normalmente, são adquiridos em Luanda que vive sob cerca, e na Namíbia, que tem a fronteira fechada.

Já a loja BFM procura reabastecer-se nos poucos armazéns grossistasexistentes na  cidade com bens tidos como essenciais ou mais mais consumidos que, normalmente, não demoram nas prateleiras, como água mineral, refrigerantes, detergentes e outros de cozinha.
Custo de vida

O custo de vida em Ondjiva tornou-se um dos mais altos do país nos últimos anos, muito por causa de não produzir quase nada e da sua quase total dependência da República da Namíbia, onde a população busca quase tudo, desde bens de  consumo à solução de problemas de saúde.

Se com a eclosão da crise económica e financeira que fez disparar o preço de câmbio do dólar norte-americano, o rand sul-africano e o dólar namibiano, a vida dos munícipes encareceu, o que dizer com o encerramento forçado da fronteira terrestre? A resposta encontra-se facilmente nos preços dos produtos praticados actualmente, quer nos mercados, quer nos estabelecimentos comerciais.

Um quilograma de fuba de milho limpa custa agora, por exemplo, 350 kwanzas quando no Lubango é adquirido a 275 kwanzas, o óleo a 1.300 contra 1.100 a 1.200 kwanzas anteriores. O açúcar a 550 kwanzas enquanto na cidade vizinha pode ser adquirido a 450 kwanzas. A caixa de peixe carapau congelado custa entre 22.000 e 25.000 contra os 17.000 a 20.000 kwanzas. Uma lata de leite Nido de 1.800 gramas custa entre 12.000 e 14.000 kwanzas.

Quanto a vestuários, o recurso da maioria dos munícipes de Ondjiva passou agora a roupa usada nos mercados, já que boa parte das boutiques fechou as portas por dificuldades de aquisição de produtosfora da província.Adquirir um eléctrodoméstico hoje é uma auténtica dor de cabeça devido aos elevados preços praticados nas lojas, já que são adquiridos 

Motos dominam serviço de táxi

Numa cidade com uma das melhores malhas rodoviárias do país, as motorizadas, vulgos "Kupapatas”, tomaram o controlo do serviço de táxi, dentro e fora do perímetro urbano, em detrimento dos toyota corola azuis e brancos que vão desaparecendo da via devido à acção do tempo.

Grande parte em péssimo estado técnico depois do cancelamento há mais de oito anos por decreto da importação de veículos com mais de três anos de fabrico, os turismos azuis e brancos vão desaparecendo da via e contam-se aos dedos.Hoje, o principal transporte de táxi são motorizadas que trilham a qualquer hora do dia à cidade e os bairros da periferia, que cobram a corrida entre 150 e 500 kwanzas, dependendo da distância e da hora. 

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