Opinião

Onde está o meu País? (Ao 11 de Novembro)

Apusindo Nhari

Jornalista

O país pode ser algo muito diferente para cada um de nós. Podemos ter dele uma visão intimista, ancorada numa recordação, numa ideia, ou numa expectativa.

08/11/2020  Última atualização 07H33
 E pode ser algo muito concreto, onde se pode encontrar a completude ao observar o pôr-do-sol num local privilegiado da sua extensa geografia.
Onde está este nosso país, onde buscá-lo?

Na sua generosa natureza... na sua água abundante e generosa e nos tantos rios e afluentes: desaguando de norte a sul no Atlântico, atravessando o continente até ousar chegar ao Índico, ou espreguiçando-se languidamente pelas terras do fim do mundo, descendo devagarinho por entre as chanas e planícies para oferecer, generosa e subterraneamente, oásis aos desertos austrais, no Namibe e no Kalahari.

Nas florestas densas do Mayombe e do Úcua, nas inúmeras reservas florestais e intermináveis savanas, do Macondo ao Luena e do Lucussi ao Chongorói.

Na diversidade que a sua paisagem nos oferece: ao longo da longitudinal escarpa que por vezes se esconde num intenso verde, como na Cumbira. E que, por degraus, nos eleva ao imenso planalto continental, aos seus morros de redonda imponência, tão como o Moco. No pontilhado granítico de que o Luvili é o mais distinto exemplo. Nos acidentes geográficos que nos oferecem a espuma das quedas d'água em Kalandula e no Ruacaná. Nas suas pedras, negras e pousadas, em Pungo Andongo. Na Leba vertiginosa e na Fenda da Tundavala que nos impõe o respeito e a serenidade...
Nos percursos que nos deixam sem fôlego e nos permitem apreciar tanta beleza: mesmo na aparente monotonia ao longo das extensões onduladas do sudeste, que nos descansa os olhos, e nos destrói o medo. Na fresca verdura que afaga os planálticos caminhos do Pundo ao Alto Hama, da Caála a Catengue, ou do Dondo até ao Wako. E em cada imbondeiro de Catete ao Mazozo. Nas suas praias sem fim. Nos percursos de euphorbias e matebas da orla marítima, até chegar às terras onde a magia do deserto pinta de amarelo o sul - desafiando o mar - e onde as baías, do Tômbwa aos Tigres, nos preparam ao milagre da foz do Cunene.

Na sua História e na sua Cultura... do Reino do Congo ao Água Rosada. Na Ginga rainha e nos reis, Ekuikui ou Mandume. E em todos os outros reinos de ancestrais e desaparecidas fronteiras. No caleidoscópio de culturas que ansiamos se enriqueçam e da sua alquimia façam brotar do crisol, uma nova cultura de paz. Caleidoscópio onde matizes coloniais resultaram no comércio inter-continental de escravos e nas mestiçagens.

Nas esquebras da ocidentalização, que transformaram as culturas originais, obnubilando-as, e agregando-lhes -quantas vezes da forma mais cruel -os elementos que nos permitem (e limitam) escrever aqui na língua que já foi só portuguesa, e que agora também é nossa.

Nas múltiplas línguas nacionais, tão ricas como descuidadas. Nos vilarejos e cidades de traça colonial, ou nos kimbos e ehumbos do país profundo. No ungo, na marimba ou no kissange. E nas melodias, nos ritmos e nas danças que atravessam os palcos, um pouco por todo o mundo. Nos provérbios e adivinhas que ecoam sabedorias milenares.
E na luta pela descolonização que nos deu a Independência, um valor absoluto. Que é preciso não deixar nunca desassociar do valor igualmente absoluto da liberdade.

E na sua gente... nas suas maravilhosas, horríveis, trabalhadoras, preguiçosas, belas, feias, negras, mulatas e brancas pessoas. Cidadãs ou excluídas. Nos que evoluem com novas ideias, deslumbrando-nos, e nos que se mantêm apegados a retrógradas práticas. Pessoas honestas, corruptas, enfim, humanas, cujos dramas vivemos e sofremos. Nos homens bons e nas mulheres valorosas, que nos fazem orgulhar.

Nos sorrisos disfarçados dos que nos vêm passar em carros velozes e nos acolhem, em cada mercado ao longo da estrada. Nos olhares interrogativos das crianças descalças que nos olham e nos julgam tão diferentes cidadãos.
Na inquietude que sentimos em cada zona periférica das cidades que atravessamos. No aquilatar do quão desiguais somos ainda. Por termos desconseguido que haja para todos, água e electricidade. Nem educação. Nem centros médicos com os recursos suficientes para debelar as doenças endémicas que matam muito mais que a pandemia. Nem saúde reprodutiva. Nem saneamento. Nem justiça. Nem pão.

No povo, mas não um povo abstracto, condimento de palavras de ordem. No povo concreto, de carne e ossos, que bordeja as estradas e picadas, esperando. Que sobrevive nos bairros pobres das nossas cidades. No povo que resiste, orgulhoso, de enxada na mão, para que a vida continue. E, ainda assim, recebe (por vezes com genuíno entusiasmo...), com vivas e cantares, com danças e sorrisos, todos os que o visitam, e os que regularmente fazem essa viagem para lhe pedir lealdade, e o voto.

O meu país...
... está na alma das coisas e na alma da gente! Na magnificência da sua geografia que nos apequena. Naquilo que não precisamos de adivinhar: o que já as estatísticas descensuradas revelaram, em inquéritos feitos à pobreza multidimensional que ostentamos. E que não nos deixam outro caminho, não o de olhar para o povo, mas pelo povo. E de tudo fazer e tudo lutar para transformar a situação.
O meu país só será realmente em nós, quando for mãe e pai para todos.


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