Opinião

Olimpíadas sem deuses

Manuel Rui

Escritor

Na Grécia antiga, antes de Cristo, duas cidades se destacavam, Atenas e Esparta. Atenas pela sua cultura e arte, Esparta pelo seu empenho a guerra. Daí que hoje se continue a designar um regime rigoroso por espartano.

05/08/2021  Última atualização 05H40
Ao que parece, havia jogos pan-helénicos, isto é, gregos, e os mais importantes eram os Olímpicos, desde 776, séc. Va.C (antes de Cristo).
Realizavam-se de quatro em quatro anos. Nesse tempo na Grécia, a religião era politeísta, havia vários deuses e deusas e o deus supremo era Zeus e em sua honra se realizavam os jogos no santuário de Olímpia. Tratava-se de um festival religioso e atlético.

A escultura e a cerâmica representavam os atletas e o desporto, o bronze e o mármore, é preciso lembrar o "discóbolo” e cunhavam-se moedas relativas a modalidades desportivas. Não podiam participar nos jogos os "bárbaros” (estrangeiros), os escravos e as mulheres. Os atletas eram de classes mais poderosas e começavam a ser adestrados desde a infância (como as escolinhas de futebol). Os vencedores eram homenageados na sua cidade, erguiam-se estátuas em sua honra, poderiam receber alimentação gratuita e serem cantados pelos poetas.

Os jogos começavam com a cerimónia do juramento, a organização era rigorosa desde os arautos que publicitavam os jogos até à seleção dos juízes das modalidades principais e havia juízes de supervisão, os helanócidos.
A lenda sobre a origem remota das olimpíadas está atravessada por lutas titânicas entre divindades da mitologia grega com a vitória de Zeus ser Cronos em Olímpia.

Enquanto duravam as Olimpíadas paravam as guerras. Era a trégua sagrada visando proteger espetadores e atletas durante a vinda estadia e regresso.
As modalidades principais eram as corridas pedestres, corridas a cavalo, de carroças puxadas por éguas, luta, pugilato e pancrácio (luta violenta por vezes até um dos contendores morrer)quem sabe se não terá sido a inspiração dos homens que enfrentavam leões no Coliseu de Roma.

O pentatlo, diferente do atual, incluía lançamento do disco, do dardo, salto em comprimento, corrida e luta.
Os vencedores recebiam uma coroa de folhas de ramos de oliveira, ligada ao mito de Daíne, uma ninfa que se transformara em loureiro para fugir de Apolo.
Também a chama olímpica que se mantinha acesa durante os jogos fundamenta-se no facto de para os gregos a história da humanidade começa com o fogo que Prometeu roubou aos deuses.

Se a verdade é que havia a trégua sagrada o certo é que a guerra do Peloponeso acabou violando esse princípio.
Esparta era mais forte e Péricles deixou uma lápide: "caminhante vai dizer a Esparta que morremos aqui por obediência às suas leis.”
Com a decadência da Grécia, o império romano e depois a fé cristã, as olimpíadas foram consideradas heresia com ligação ao politeísmo.

Em Junho de 1894, o barão francês Pierre de Coubertin organiza um congresso na Sorbonne em Paris e propõe o ressurgimento das olimpíadas. Foi constituído um comité olímpico internacional.
Foi decidido que os primeiros jogos modernos deveriam ser em Atenas e assim foram realizados com sucesso em 1896. Inspirada na Grécia antiga a chama olímpica só aparece na era moderna, em Amesterdão, 1928.

Estamos agora em condições de cotejar as olimpíadas de antes e depois de Cristo. Começamos logo por destacar que agora não se param as guerras, antes pelo contrário.
Nos jogos de 1936, a Alemanha nazi aproveitou os mesmos para propaganda política para esconder o seu racismo e militarismo.
 A Europa e a América intentaram o boicote que de todo não aconteceu.

Hitler ficou escandalizado com atletas americanos judeus e negros e quando o lendário Jesse Owens, negro americano ganhou a medalha de ouro dos 100 metros, o chefe nazi abandonou a tribuna sem apertar a mão ao medalhado.Outros incidentes ocorreram. Assim em 11 de Setembro  extremistas da Palestina sequestraram atletas de Israel.

Da ação resultaram 11 atletas mortos. Em 1996 em Atlanta nos USA,  uma explosão deixou 2 mortos  e 110 feridos.
No entanto, em todos os 125 anos da era moderna nem as duas guerras mundiais nem o covid conseguiram parar os jogos.
Hoje, as olimpíadas são o fenómeno mais internacional que o mundo conhece. Dá prestígio político e durante a guerra fria transformou-se numa batalha entre capitalismo e socialismo à semelhança da luta pela conquista do espaço.

Na era moderna há medalhas de ouro, prata e bronze. Pode-se falar numa indústria do olimpismo e a luta dos países que se candidatam a sede.
Esta indústria passa pelas marcas de equipamentos, os direitos televisivos e agitação e propaganda sobre os heróis que  transportam a bandeira às costas e escutam seus hinos nacionais.
Também, os jogos são aproveitados para jogadas políticas e luta, por exemplo, contra o sexismo reflectido nos equipamentos eram impostos às mulheres…biquínis.

Podemos dizer, no entanto, que a tocha simbólica que um dia destes passa pela lua, chega a substituir os deuses da antiga Grécia mas não passa por todos os  corações famintos de paz e amor…e só esta confissão sobre a extraterrestre venezuelana do triplo salto, eu cansado de gente do mundo (parece verso para morna) me apaixonei por ela, casaria com ela na próxima encarnação mesmo que tenha que usar escadote para (reticências).

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