Cultura

Olhar retrospectivo ao Maio musical

Analtino Santos

Jornalista

O mês de Maio, marcado por duas efemérides importantes, Dia Internacional do Trabalhador e Dia de África, ao contrário dos dois anos anteriores, contou este ano, em Luanda, com actividades e concertos musicais

29/05/2022  Última atualização 12H10
© Fotografia por: DR

Dois programas radiofónicos homenagearam ícones da música angolana. "Poeira no Quintal”, da RNA, escolheu Anselmo de Sousa Arcanjo Júnior "Marito” e "Sons da Banda” Bernardo Jorge Martins Correia "Bangão” (in memoriam). Em termos de concertos assinalamos o "Muzonguê da Tradição” com o trumunu entre Os Kiezos e Os Jovens do Prenda, e Mago de Sousa no Palácio de Ferro  .

História de Marito 

Isaías Afonso, Chabanu, Dikambu, Raúl Tollingas, Teófilo Moniz, Lolito, Pombinha, Dulce Trindade e outros amigos juntaram-se, a 12 de Maio, a Marito e familiares para celebrarem os 74 anos do verdadeiro "dono” dos Kiezos. O convívio resultou em dois programas especiais "Poeira no Quintal”, emitidos nos dias 15 e 22. 

Anselmo de Sousa Arcanjo Júnior é Marito porque nasceu no mês de Maria. No programa da RNA, Marito foi tratado por Teófilo Moniz, um dos principais intervenientes, como "o Francó de Angola e um dos mais brilhantes discípulos de Duia”. Houve momentos de revelações, como as feitas por Chabanu: "Nós o tratávamos por Nzanga dya Mbombo, em português Lagoa de Bombó, e também como o Cabrito que Comeu Fuba”.

Marito voltou ao passado, quando ainda gozava de boa saúde. A filha reconheceu que houve uma ligeira recuperação no estado de saúde do pai. "Às vezes surgem algumas crises, não de epilepsia, mas de fórum neurológico”, disse.

A filha de Juventino Arcanjo, o finado vocalista e tocador de bongós, confirmou a cumplicidade entre os irmãos. Numa outra revelação, Chabanu acrescentou: "Nós iamos combolar (conviver) no Cassequel do Buraco”. Dulce Trindade, hoje um músico amadurecido, disse que foi "recrutado” para os Kiezos por Juventino.

Isaías Afonso disse esperar encontrar o registo duma entrevista em que Marito afirma que "Os Kiezos, enquanto eu estiver vivo, é meu conjunto, da minha mulher, do Kituxi e do meu irmão Juventino”.  Teófilo Moniz argumentou que "é bom quando a pessoa tem este tipo de sentimento, porque quando ele diz que Os Kiezos é meu não está a dizer literalmente que o conjunto é sua propriedade, mas que é dele e daqueles que o fundaram e também daqueles que o ouviram e seguiram e até dos outros elementos, também o conjunto é deles, não do Marçal e de Luanda, nem de Angola, o conjunto Os Kiezos é da Humanidade”.

O antigo integrante dos África Show, Raúl Tollingas, levantou poeira na sala de Marito. "Nós os músicos do Marçal, independentemente de tocar noutros conjuntos, éramos dos Kiezos”.

O quesito afinação também mexeu o debate. "Ngola Ritmos levou o ritmo das congas para a guitarra, o Duia trouxe a inovação de solar e o Marito popularizou a estilização da música angolana, ou seja, deu a plástica nela. Hoje o que a gente faz na guitarra, quer Zé Keno, Botto Trindade, Teddy Nsingui e outros, baseia-se nele. Para mim, Marito é o transmissor”, alfinetou Teófilo Moniz, que assumiu ser Marito o guitarrista com mais instrumentais solados. "Marito tem 24 temas gravados e não conto o La Minuta”.

Teófilo Moniz, antigo craque do futebol e fiel seguidor dos Kiezos, sugeriu ser "importante que uma pauta com as músicas de Marito seja exposta para acesso público”.

A humildade do guitarrista também foi realçada. "Ele é tão simples que nunca deu uma de que é o maior da música ou do conjunto. E o meu principal espanto foi quando ouvi um relato, quando uma caravana de músicos brasileiros veio para Luanda. Levaram partituras para que Os Kiezos lessem e executassem os temas. Marito perguntou ‘quem vai cantar?’. Seria o Martinho da Vila. Marito pediu apenas para Martinho da Vila cantar e, depois de ouvir, falou aos companheiros qual seria a nota para acompanhar e assim fizeram. (...) Afirmo que a academia do Marito é o Marçal, o Bairro Operário, o Prenda e outros musseques”, enfatizou Teófilo.

 

"Ponto Rebuçado” no Muzonguê

O Muzonguê da Tradição, com o conjunto Os Kiezos, a orquestra Os Jovens do Prenda e Suzanito, levou, no Dia do Trabalhador, um grande número de aficcionados ao Centro Recreativo e Cultural Kilamba. 

Os integrantes dos Kiezos foram os primeiros a subir ao palco, e, durante duas horas, apresentaram canções conhecidas. Suzanito foi o artista individual convidado para recordar Nick, o artista que colocou Avô Kumbi como ponto de referência no Golfe 1.

Nas primeiras duas horas e meia, entre instrumentais com Brando, Gegé Faria, Dulce Trindade, Tony Samba e Sabino, foi reproduzido o que Marito, Hélder Vieira Dias, Carlitos Vieira, Adolfo Coelho, Tony Galvão e outros tocaram; a dupla Zé Manico e Manuelito rebuscou as quetas de Juventino, Vate Costa, Toni do Fumo, Zecax e outras vozes que levaram Os Kiezos até ao Ponto Rebuçado.

Os Jovens do Prenda fecharam o dia. Pelo facto de estarem em constantes actuações mostraram maior sincronia, reflectida na qualidade do som. Com o sucesso "Farra na Madrugada” proporcionaram uma "farra do trabalhador”. Dom Caetano não comunicou apenas como MC; não resistiu e cantou alguns "números” para deleite da assistência.

Na parte final, o trio Augusto Chacaya, Didi da Mãe Preta e Baião, anciãos da música, com Zé Luís, João Daloba, Benjamim, Cláudio Clic Clok, Elevy, Tony do Fumo Filho, Miau, Esteves Bento e os miúdos dos sopros mostraram que "este ritmo é só nosso”,  que "o intriguista é como o carvão” e que "quem procura, acha”.

Mago de Sousa  no Palácio de Ferro    

O músico e compositor Mago de Sousa realizou no dia 14, no Palácio de Ferro, um concerto comemorativo dos seus 37 anos de idade, celebrados no dia anterior. Nikila de Sousa, Adi Buxexa e Anabela Aya foram os convidados numa noite em que a magia dos temas fez delirar a plateia.

O artista foi acompanhado pela banda Free Balance, que abriu o espectáculo com temas instrumentais, trazendo à colação mestres da guitarra como Zé Keno, Marito dos Kiezos e Botto Trindade, com Nelo a revelar ser um solista promissor. 

Nikila de Sousa foi o convidado  mais esperado da noite. O produtor, que é responsável pela entrada de Mago de Sousa no meio artístico, estremeceu o Palácio de Ferro com os temas "Clemência” e "Cibernética”. Sendo um concerto comemorativo, Anabela Aya deu o seu toque com "Parabéns”, brindando dessa forma o aniversariante.  

Mago de Sousa arrancou o concerto ao som de "Quando os meus olhos”, uma balada romântica do seu próximo disco, e apresentou temas como "Silêncio”, "Boémia”, "Paola”, e outros. 

João Mago Belo de Sousa começou a sua carreira musical em 1999, com os amigos Lázaro, Evanilson e Lauro. O Hip Hop foi o estilo de eleição no início da carreira. Em 2004, apostou na formação superior na Namíbia e lá criou o grupo Os Originais.  Com o fim desta banda, abraçou a carreira a solo em 2015, iniciando com o single "Carolina”.    

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