Opinião

Obrigado à vida!

Manuel Rui

Escritor

O colonialismo derivou dos barcos à deriva que a Europa, num mundo ainda plano, mandou invadir o outro sem ainda o conhecer nem sua morada. Tão pouco sem ser convidada. Invadir era descobrir.

04/11/2021  Última atualização 04H30
Foi a denominação do outro que tudo sabia contra o que em seu entender, outro que nada sabia como se tivesse começado a viver depois de descoberto. Colonizadores e colonizados. O colonialismo. O esclavagismo como sistema diferente da escravatura como estatuto. A modernidade, o capitalismo. O continente europeu como referência.

Na decorrência da dita modernidade com o mundo dividido entre centro e periferias.

Hoje, fica obrigatório nas nossas escolas, pelos menos nas superiores, estudar-se a COLONIALIDADE como o "lado obscuro e necessário da Modernidade” (BALLESTRI, 2013), isto é, a forma dominante do controle de recursos, trabalho, capital e conhecimento limitados a uma relação de poder articulada pelo mercado capitalista. A Colonialidade como matriz de poder, saber e ser.

QUIJANO (2005) sobre a Colonialidade do Poder, relacionada com a globalização e capitalismo eurocentrado onde a ideia de raça legitima as relações de dominação. A Colonialidade do Poder (CARVALHO 2003)”consiste na identificação dos povos conforme certos fenótipos estabelecidos e impostos pelo pensamento Ocidental.” Raça como instrumento de dominação mais eficaz e durável, mais outros elementosdo pensamento eurocêntrico, como o género, a sexualidade, o conhecimento, as relações políticas, ambientais e económicas (QUIJANO, 2005). Para LUGONES (2014), a Colonialidade do poder é o pilar quer para a Colonialidade do saber como a Colonialidade do ser.LANDER (2005) fala em conhecimento hegemónico, a negação ou invisibilidade do conhecimento produzido pelos países marginalizados. A Colonialidade do Ser descobre-se na subalternização de povos, dos grupos silenciados, oprimidos, colocados à margem, como os negros, os índios, as mulheres, os mestiços, os LGBT como tratam ALCANTARA, SERRA e MIRANDA, 2017). Quando a Colonialidade também mexe com a linguagem consumando a desumanização.

Hoje comecei com este tema para falar naqueles sábios da antropologia que intentam a descolonialidade como o meu amigo BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS. Ambos trabalhámos na revista de cultura e arte "VÉRTICE” de Coimbra, um baluarte antifascista, a que me foi dada a honra de redactor responsável para a secção de literatura. Um dia, Boaventura fazia em Lisboa, na livraria "Pó das Letras,” a apresentação do meu romance JANELA DE SÓNIA. Nesse então, ofereceu-me a obra EPISTIMOLOGIAS DO SUL. Fiquei deslumbrado e quando Boaventura veio a Angola eu é que apresentei essa obra aqui em Luanda.

Graças a quem me fez ser humano. A memória devia registar o nosso próprio parto. Para agradecer melhor à vida. Aos amigos. Como cantava minha Diva Violeta Parra, GRACIAS À LA VIDA. Agradeço à vida que me fez aprender e sentir a humildade de ainda saber pouco. Coincidente e inconscientemente, eu havia escrito para a última conferência de "escritores afro-asiáticos”, uma comunicação que desagradou a alguns mas ficou paradigmática em algumas universidades: "Eu e o outro.”

Agora, neste dia e neste jornal, o meu amigo Cori terá feito a surpresa de convidar o Boa para se juntar à homenagem que me prestam escrevendo um texto sobre a minha obra. Fico sem fala. Graças à vida. À nossa vida. À vida do meu amigo que se entrega na batalha pela defesa das nossas epistemologias, contra a linha abissal que nos separa e o epistemicídio, a destruição do nosso ser existencial.

O Boa, sábio de renome universal, viveu numa favela do Rio de Janeiro, para aprender, fez rap, publica poesia, dá aulas e ainda lhe sobra tempo para escrever sobre mim. Graças à vida. À nossa vida. Ele que luta pela desarticulação da cartografia epistemológica do pensamento abissal para a reinvenção dos lugares. Desmentir as mentiras que sobrevivem nos monumentos e estátuas com base na apropriação dos saberes que se negam, pois não foi Vasco da Gama, mais uma vez foram os guias locais que ensinaram, foi Majid que indicou o caminho marítimo de Mombaça à Índia…

A epistemologia hegemónica não aceita a diversidade, daí que Boaventura proponha um diálogo horizontal entre todos os saberes, a ecologia dos saberes.

A maior parte de nós nem repara na Colonialidade quando se fala em lusofonia. Quando uma metrópole já é periferia mas faz televisão para África quando nós não fazemos RTPEuropa… Graças à vida.

No programa "Carrocel” que gravei na TPA, as crianças plenas de alegria e espalhando beleza, disseram, cantaram palavras minhas e inventaram outras para mim. Fotografias e mais fotografias. E perguntas, muitas perguntas. E os jovens que cantaram o Hino no dia da Independência? Olhem, vocês têm razão. Deviam chamar todos. Já são mais velhos. Juntar todos para virem cantar. Graças à vida!Obrigado ao Cori. Ao Boaventura. Obrigado a todos. Obrigado à palavra que me alimentou.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião