Opinião

O valor inestimável das coisas da alma

Filomeno Manaças

As coisas da alma não têm preço! Sei que nada de novo estou a dizer. Nem sequer há a pretensão de apresentar a ideia como uma descoberta.

18/06/2021  Última atualização 06H10
Serve apenas para relembrar algo que vem de longe, dos nossos antepassados, portanto, intrínseco ao homem: a necessidade de valorizar as coisas da alma, pois é disso que ele vive.

A alma vive de coisas espirituais. Mas também de coisas materiais que satisfazem o espírito. Porém, aqui, a conversa é outra e tem pano para muitas mangas. Desde a concepção às formas de as obter, as teorias económicas tratam disso, à jusante. Cada indivíduo tem as suas aspirações - sociais, religiosas, culturais, económicas e políticas. Cada indivíduo quer ver essas aspirações plenamente preenchidas. E porque o homem só se realiza em sociedade, temos a alma colectiva. A alma colectiva é o somatório de várias almas. De milhares, de milhões de almas.

A alma angolana vai se recompondo. Aos poucos, mas vai se recompondo. Estamos numa época em que se quer cuidar de forma especial da alma angolana. É imprescindível que se faça. Não faz sentido falar do resgate dos valores morais se não se fizer. Não faz sentido falar da moralização da sociedade angolana se não houver gestos profundos nessa direcção. E tudo tem a ver com justiça, com a necessidade de termos um sentido de justiça que nos devolva a paz de espírito. A justiça não é só aquela que é feita pelos tribunais. A justiça social, a justiça moral, no sentido de reparação moral, transmite-nos sempre uma sensação de paz, de alívio. E isso tem um valor inestimável. Não tem preço!

É por esses caminhos que andamos nos dias de hoje, mergulhados na grande tarefa de reparar os buracos cavados na alma da nação. As coisas da alma não têm preço! O amor, o afecto, o carinho de um pai, de uma mãe, é insubstituível. Por mais ruim que ele (a) possa ser ou aparentar aos olhos de outros, será sempre benquisto(a) pelos seus e pelo seu círculo de amigos, camaradas. As coisas da alma são de trato sensível. Quem perde um pai, uma mãe, vai sempre sentir a falta dele(a). Preencher o vazio deixado não é coisa fácil. Por isso, diz-se que o amor de pai, o amor da mãe, é único.

As coisas da alma são exigentes, no sentido de que requerem atenção especial, delicadeza. Por isso, diz-se que quem ama deve tratar do(a) seu(sua) amado(a) como se fosse um vaso com plantas: deve regá-lo sempre. Deve cuidar para que elas não morram. Deve apará-las, quando necessário, e cortar as ervas daninhas que possam impedir o seu crescimento saudável.

É olhando para o lado puramente espiritual da alma, da alma angolana, que o Executivo decidiu dar tratamento especial às vítimas dos diferentes conflitos que sacudiram o país de 11 de Novembro de 1975 a 4 de Abril de 2002. E porque as coisas da alma não têm preço, não são negociáveis, quem perdeu os seus entes queridos aceitou, com a maior gratidão, o pedido de desculpas e de perdão apresentado pelo Presidente João Lourenço. Quem não tinha um certificado de óbito, e andou aos papéis durante esses anos todos, para conseguir tratar um simples documento, vai poder regularizar a sua situação. Quem não fez um óbito como devia vai poder fazê-lo e enterrar condignamente o seu ente-querido. São coisas da alma que não têm preço.

As coisas da alma não têm preço e, por isso mesmo, a reconciliação nacional tem um valor inestimável. É um processo. Ela (a reconciliação nacional) não começou e terminou com o fim da guerra. Exige gestos permanentes, tal como o vaso de plantas que é preciso regar sempre. É preciso, agora, trabalhar as pessoas. Moldar a alma é incutir valores no indivíduo. Começa na família, passa pelas escolas, pelo ensino e pelas igrejas. Todas essas instituições têm, cada uma a seu modo, de acordo com as suas especificidades, papel essencial a desempenhar.

As coisas da alma dão-nos dimensão, ajudam-nos a sentirmo-nos perenes, mesmo sabendo que a nossa existência no mundo é um instante. Mas esse instante das nossas vidas precisa de ser preenchido. Quanto mais for e com coisas que nos engrandecem, mais realizados nos sentimos. A vida não é só um estar, só desfrutar. É também, e essencialmente, um saber construir, estabelecer pontes, de diálogo, entre o passado e o futuro. E isso é agora, no presente, que se faz.

No plano político, é inquestionável o papel que os partidos têm na promoção dos valores da sã convivência, independentemente das diferenças de opinião quanto à forma de encarar a governação dos assuntos do Estado.
As coisas da alma não têm preço! Por isso, ficou assente que nenhuma das vítimas do 27 de Maio ou de outros conflitos será indemnizada. Quem esperava fazer negócio e arregalou os olhos porque, do fundo do túnel, conseguiu enxergar a luz dos cifrões, perdeu o seu precioso tempo e gastou tinta à toa.

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