Opinião

O valor da desculpa

Sousa Jamba

Jornalista

O pedido de desculpas pelo Presidente da República, João Lourenço, merece os aplausos de todos. Há momentos na vida que nos devemos retrair um pouco do espírito adversarial do tabuleiro político do nosso país e adoptar uma visão mais histórica.

28/05/2021  Última atualização 06H05
Lutar batalhas políticas presentes olhando sempre para o retrovisor, não resulta em nada. O passado deve servir como um guia para se evitarem os erros no presente. Quando se tenta, a todo o custo, enuvar o passado, então estamos a preparar o caminho para muitos erros. É por isso que se estuda Literatura, História, Ciências Políticas, etc.

Eu tinha 11 anos em 1977. Na altura estávamos a viver na Zâmbia — numa comunidade de angolanos que estava permanentemente colada à Rádio Nacional de Angola. Saímos do Huambo em Fevereiro de 1976, quando a UNITA se retirou da cidade. Fomos de carro até Cuito Cuanavale e depois a pé até à Zâmbia. A caminhada durou três meses. Mesmo quando não havia comida em 1976, naquelas matas do Leste, havia sempre alguém com pilhas e uma rádio para seguir o noticiário a vir de Luanda. Acreditávamos muito na nossa propaganda; muitos diziam que seria apenas uma questão de meses o MPLA iria desfazer-se. O 27 de Maio de 1977 animou brevemente esta fantasia.
Em 1981, ainda na Zâmbia, na casa da minha falecida irmã, recebemos a visita de uma outra irmã, também já falecida, que não parava de falar do 27 de Maio. A irmã que nos tinha visitado tinha passado algum tempo em São Paulo, como presa, suspeita de fazer parte de uma rede de operativos da UNITA em Luanda. A Mana disse-nos  que de repente, na cadeia, começaram a notar que membros do MPLA estavam a ser detidos. Lembro-me claramente das duas irmãs a conversarem em tom baixo, falando de amigos seus que tinham desaparecido no 27 de Maio. Na altura eu tinha 15 anos e lia muito.

 Eu sabia já da noção da revolução comer os seus próprios filhos. Os meus professores admiravam profundamente o Dr Agostinho Neto, que eles viam mais como um grande poeta africano.  Lembro-me do Professor Musakanya de História; Soko de Matemática; Chibwe de Literatura Inglesa. Todos tinham sido expulsos da Universidade da Zâmbia, porque tinham participado numa violentíssima manifestação nas embaixadas francesa e britânica por causa dos mercenários ocidentais que se envolveram no lado da FNLA. Estes professores eram todos marxistas — radicais que não tinham nenhum tempo para os Senghores deste continente com a sua história de um Marxismo  Africano. O então Presidente Kenneth Kaunda tinha muito medo dos jovens marxistas; Kaunda nunca se cansava em insistir que a Zâmbia era um país baseado no Humanismo, uma espécie de Socialismo Cristão.

Em 1984, regressei a Angola, para a Jamba, capital do território na altura controlado pela UNITA. O Dr Jonas Savimbi admirava muitas figuras no MPLA, incluindo o Dr Agostinho Neto. Lembro-me de discursos do Dr Savimbi em que ele louvava a  coerência de Lúcio Lara. E me lembro, claramente,  de um discurso onde ele menosprezava Nito Alves. Para o Dr Savimbi, Nito Alves foi um ingénuo que tentou liderar uma insurreição sem ter planeado bem. Mais tarde, conclui que o Dr Savimbi tinha uma profunda aversão a Nito Alves, porque na própria UNITA tinha havido, também, várias insurreições que foram reprimidas. O fraccionismo, afinal, não era apenas um fenómeno do MPLA; a UNITA também tinha as suas divergências, que, em certos casos, foram resolvidas com violência. Há, na UNITA, várias figuras que foram simplesmente expurgadas da sua História.

Infelizmente, existe também, em Angola, a cultura do reducionismo — tudo que tem a ver com o meu adversário político é nefasto, ponto final. Esta visão em preto e branco distorce a História e não nos ajuda a evitar os erros no presente. Quando o Presidente João Lourenço fala de uma resposta desproporcional, em relação aos revoltosos em 1977, isto é aplicável não só à UNITA, mas também  à FNLA. Tenho um amigo que perdeu o pai em 1972 no Kinkuzu, a base da FNLA no Congo. Os momentos de desculpas são também momentos de humildade. A humildade resulta naquela visão empática, na capacidade de ver o mundo através dos olhos dos outros e reconhecer que somos todos iguais nas nossas falhas e nas nossas valências…

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