Opinião

O tempo para se encher o meio copo

Nos balanços dos dois anos da governação do Presidente João Lourenço, as imagens se sucedem. A da casa estropiada que precisa ser reparada enquanto os moradores ainda clamam por melhorias. Ou do motorista que precisa trocar o pneu com o carro em andamento. O comandante que precisa descartar pesos inúteis para manter o avião estável e a voar. O novo treinador da equipa que precisa de vitórias enquanto ainda remodela o elenco.

30/09/2019  Última atualização 07H14

Sabemos todos e sabemos cada vez com mais profundidade dos problemas que a actual governação recebeu como herança. Como a notória cultura de nepotismo, compadrio e corrupção que era imperativo enfrentar e vencer. Como continua a ser decisivo desemperrar e trocar peças na máquina administrativa, para que as políticas e investimentos públicos produzam resultados e os insumos não caiam em desvios ou parem nos buracos negros da burocracia. Sem falar na necessidade de mudar o cariz de economia dependente do petróleo. E há desemprego, problemas de saúde, educação, seca... a lista é conhecida.
As acções e os números da governação mostram que há melhorias em grande quantidade e importância. Desde os movimentos de reacção do Produto Interno Bruto rumo a um crescimento efectivo em 2020, aos acordos firmados com vários parceiros internacionais, do FMI à China e países da Europa e não só. O fim dos monopólios e oligopólios nas telecomunicações, petróleos, diamantes, cimento e até na análise de alimentos já se reflecte em preços mais realistas, aumento da concorrência, o que é sempre salutar em qualquer economia. No caso das telecomunicações a ampliação do mercado e abertura do capital da Angola Telecom vão resultar em maior liberdade económica que logo chegará aos bolsos dos consumidores.
Este tempo, entre as medidas da governação e seu efeito e benefício no quotidiano das pessoas é o nó que está a ser desatado. O aporte de dois mil milhões de dólares do Fundo Soberano para as obras e serviços previstos no Plano Integrado de Intervenção nos Municípios tem a consequência de gerar muitos empregos por conta de cada obra a ser realizada país afora. A construção de hospitais, escolas, residências e outros equipamentos sociais vai gerar de imediato empregos na construção civil, transporte e logo vão melhorar o comércio, a pequena indústria e os serviços nas várias localidades. Este é o exemplo mais claro do tempo necessário entre a assinatura de um documento e o resultado na ponta, onde está o cidadão, que vai obter ou recuperar um emprego, usar seu rendimento para dar alimentação, conforto, saúde e segurança para a família.
Por outro lado, porque a fome tem pressa, a governação também está a promover em várias províncias as transferências sociais monetárias directamente às famílias no programa Valor Criança. Quem dera, todas as medidas de governação pudessem chegar com tanta rapidez e clareza de significado a todos os beneficiados. Quem dera que as notícias dos financiamentos internacionais se transformassem no dia seguinte em novos empregos.
Há o tempo habitual entre as imagens que vão para os jornais e TV, a assinatura de contratos, a geração de outros documentos, as transferências, confirmações, abertura de concursos públicos, declaração de empresa vencedora, assinatura de novos contratos, estudos e planeamento até a contratação de pessoas, que é o primeiro benefício até à conclusão da obra, quando aí os seus efeitos positivos podem se repercutir pela comunidade. Ainda assim, se a construção terminada for uma estrada, por exemplo, deverá gerar um outro tempo, da decisão de empresários a se instalar naquele município, antes isolados por conta de caminhos deficientes. E um novo processo se inicia, mudança, construção da planta, até o efectivo funcionamento da empresa que vai criar novos empregos e benefícios para a comunidade.
Num outro estágio, de tempo mais prolongado e decisões ainda mais complexas, estão as viagens do Presidente e seus encontros com outros líderes, empresários, medias, para mostrar os resultados das reformas em Angola, as medidas anti-monopolistas, as adequações às regras do mercado global, a preocupação em reduzir os números da inflação, as melhorias na política cambial e no ambiente de negócios, demonstrar que os focos de corrupção estão ser combatidos, que o país diminui o risco e aumenta a recompensa do investimento.
Numa mostra notável da relatividade do tempo, as mudanças realizadas na actual governação estão a ser consideradas como tendo sido rápidas, com resultados efectivos e consistentes. Se aqui em Angola é possível encontrar quem reclame da lentidão da conclusão dos processos e punição final exemplar aos prevaricadores e desmantelamento das suas redes, no exterior, medidas exemplares como a condenação de antigos gestores com altos cargos, repatriamento de recursos do exterior, recuperação de activos e abertura de mercado são reconhecidas pela agilidade, correcção e respeito à Constituição e a Lei.
Por falar em lei, os planos de governo e a legislação efectivamente aprovada pelo Parlamento, que já entra em vigor, impressionam pela dinâmica, amplitude e importância. Num período que pode se considerar curto do ponto de vista dos processos habituais dos poderes, Angola já tem a Lei da Concorrência, Lei do Investimento Privado, Lei das Privatizações, a legislação básica para implantação das autarquias e sobre a implantação do Imposto sobre o Valor Acrescentado.
A avaliação dos dois anos de governação do Presidente João Lourenço, naturalmente vai ter dados positivos e negativos. O próprio Presidente reconheceu em entrevista recente que as reclamações de alguns sectores da sociedade são legítimas e que não se pode esperar que alguém faça em dois anos o que não foi feito em 44, “seria ingenuidade”.
São naturais os lamentos de um desempregado, de um cidadão de classe média que tenha visto diminuir o seu conforto, mesmo de um empresário que acreditou e investiu num projecto e perdeu dinheiro. Mas também é necessário ouvir milhares de famílias que estão gradualmente a viver sinais do fim da fome e da miséria, também ouvir o agricultor que começa a planear safras maiores porque a estrada por onde circulam os produtos foi reabilitada, ou o empresário que já tem consultas de investidores internacionais para novos negócios.
É, enfim, natural que se veja o copo meio cheio ou meio vazio, de acordo com a sua situação ou conveniência. Mas não há como negar que o copo se enche, e visto por qualquer escala de tempo. Logo por qualquer ponto de vista bem-intencionado se transmitirá a certeza de que Angola avança, se livra de pesadas amarras do passado não tão distante, apresenta-se melhor para o mundo e corrige injustiças e desvios. Para que os cidadãos possam sentir os resultados no bolso, no sorriso dos filhos, na efectividade do atendimento da Administração às suas necessidades e na melhoria das suas condições de vida.

* Director Nacional de Comunicação Institucional. A sua opinião não engaja o MCS.

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