Opinião

O tempo da política e o tempo da História

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Um é mais célere e ingrato do que o outro. Um é mais trabalhoso e criterioso do que o outro. Um está mais próximo do olvido, enquanto o outro é perene, implacável, quase definitivo.

26/10/2021  Última atualização 09H25
 Ambos são testemunhas do tempo que passa, mas só um deles grava as coisas, factos, acontecimentos, acções e a obra para sempre.

Agora que estamos num ano pré-eleitoral, volta e meia, penso na discrepância entre o tempo da política e o tempo da História: o primeiro obedece à identidade programática de um partido político determinado, enquanto, o segundo, depende das reviravoltas do porvir e da assertividade dos actos para que eles possam ficar sedimentados na História.


Os "políticos de ocasião” são reféns de um tempo político circunscrito, aquele que é cronometrado pelo calendário de eleições: chegam à política sem se importarem, antes, de calibrar quão úteis podem realmente ser e, por essa razão, na verdade, mas valeria não terem aceite fazer política.


Quando a mim, sinto uma maior atracção pelo tempo da história do que pelo tempo da política: não podendo ainda fazê-la ou se queiramos, participar da "História”, com letras maiúscula, admito que gosto de a narrar e, talvez, por isso, há vezes que sinto-me seduzido pela possibilidade de escrever uma autobiografia (quase) política: muitas vezes por razões, realmente, singulares e outras vezes, por causa de factos banais, mas que dão o que pensar.

Razões singulares são, por exemplo: que aos doze anos de idade tenha recitado um poema para o então Presidente de Cuba, Fidel Alejandro Castro Ruz (1926-2016); que antes de ser Presidente de França coincidi com François Hollande, numa recepção, em Paris; que quando ainda era um deputado raso do Partido Popular, em Espanha, participei numa reunião com Pablo Casado Blanco, o actual líder do mais importante partido da direita espanhola, ou ainda, que, na quarta-feira passada, tenhamos recebido Recep Tayyip Erdogan, o Presidente da Turquia, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, entre outros: todos estes encontros podem ser narrados, na óptica de quem, dentro do tempo da história, quer analisar cada mínimo gesto destas personalidades que, na hora no "nosso encontro”, estão imersas no tempo da política.


Fazem parte das razões banais, mas que dão o que pensar, quando coincide com alguém, que nas vestes de político, - no instante não sabe ainda que é somente um político menor-, adopta uma postura vexatória com respeito à nós ou, também pode ser o caso, somos testemunhas de como, de maneira inadequada que, ele trata mal a terceiros, sob alegação de estar a fazer uma piada, quando na verdade o que faz é um comentário inapropriado ou, até mesmo, tem um comportamento deplorável para, desde uma postura egocêntrica, sequestrar para si o instante que deveria ser de respeito entre todos.


Se além do mais, com essa sua frivolidade, "o político menor” com o "rei na barriga” – é frequente encontrá-los entre nós -, pretende desvalorizar o trabalho que outros fazem, por mais bem-intencionado e simpático que, em princípio, ele pensa que, a dado momento, possa estar a ser, ficamos com pena dele: é o tipo de vergonha alheia que preferiríamos nem presenciar. Confuso, ele, ao ver-nos a esboçar sorrisos para desanuviar a tensão, pensa que, - sem notar o silêncio ao que preferimos nos remeter -, vive um tempo eterno quando, em rigor, age como um refém nas malhas de um tempo que é efémero, que nem sequer é mais seu.


Qualquer político minimamente responsável deveria estar mais preocupado com o tempo da História do que com o tempo da política, entre outras coisas porque quando deixar de estar na política será, apenas, um cidadão mais como todos nós: só dando forma e sentido perene ao gesto político mais simples, à decisão aparentemente anódina, à escolha criteriosa e o conjunto do que for feito, construído por todos, pode ser determinante na maneira em como a sua atitude chega a ser transformadora e inscrever-se na história.


Os "políticos sérios”, aqueles que entram na política por compromissos que os transcendem são livres, agem pensando num tempo mais longo do que aquele que, à partida, lhes corresponde entre uma eleição e a outra; são políticos desde muito antes de chegarem à política: fazem tudo para conseguirem inscrever as suas práticas, as suas atitudes, os seus objectivos e os seus resultados, num nível e numa dimensão que impacte até, ao menos, a geração seguinte: é uma das poucas maneiras de ludibriar a ingratidão do tempo da política.

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