Cultura

O teatro no seu melhor

Um texto sobre a exibição de uma peça de teatro deve iniciar com um parágrafo padrão, o nome da peça, no caso, “Os Monólogos da Vagina”, peça de Eve Ensler, americana, prémio dos críticos de teatro “Obie Awards”, de 1997, com direcção artística de Miguel Hurst e Adilson Vunge e realização magistral da Buco Produções sob liderança executiva de Sophia Buco.

01/05/2022  Última atualização 09H20
© Fotografia por: DR

Naturalmente, uma última referência sobre a bilheteira no CCB - boa bilheteira -, mas uma sala enormíssima para qualquer desafio de dramaturgia.

A minha nota 10 é atribuída ao público porque para um texto de qualidade sobre a violência contra as mulheres desde aos 7 anos até a fase adulta e onde se inclui o exaltar da sexualidade lésbica como ponto de maior descoberta do corpo da mulher, o público reagiu com efusivos aplausos nos momentos certos, sem vozes ou gargalhadas por cima das intervenções. Até parecia que a Buco Produções igualmente ensaiara à entrada do CCB a concorrida assistência.

Sobre a ciência da representação destaco a actriz Sofia Lucas, na verdade foi o pivô de toda encenação.  O seu corpo seguiu com exímias e inéditas simulações e rítmicas todos os seus quadros de representação,  aliás os mais difíceis pela dramaticidade mesmo quando deu voz a uma sexualidade que "fugira” à regra, e, no ano da peça era um tema fracturante. Os valores do androcêntrico e heteronormativo imperavam na sociedade americana. Sofia de forma eficiente usou o gesto como linguagem importante, o seu corpo falou. Foi trapezista de quintal, dançarina e elevou o hilariante que qualquer peça inclui como ponto de leveza.

E as demais integrantes não deixaram de exibir a sua boa memorização dos textos, textos nada curtos e fizeram-no com desenvoltura. As actrizes não empurraram os verbos com medo das "brancas” de palco, com medo das entoações exigidas, vingou o naturalismo que só com grande tarimba de palco se alcança e Rossana Miranda dá esse primeiro sinal de valência no início da peça.

O texto sofreu algumas alterações que o tornam mais propício ao nosso contexto cultural e de vida real. Destaque para a actriz Carina de Sousa, que conseguiu distinguir os vários gemidos das muitas fantasias urbanas e o público delirou com o Gemido Gambeta, "A morte é já aí”. O teatro no seu melhor e Angola pode dar o salto se construir políticas adequadas ao crescimento das nossas naturais habilidades para a representação.


Adriano Botelho de Vasconcelos

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