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O sistema braille está a mudar a vida das pessoas no Huambo

Miguel Ângelo | Huambo

Jornalista

As pessoas portadoras de deficiência visual, seja cegueira parcial ou total, são na maioria das vezes consideradas inválidas. Vuvu Joaquim João, sub-director pedagógico do Complexo Escolar do Ensino Especial, no Huambo, afirma que a falta de conhecimento e a discriminação, no seio familiar, é um obstáculo à integração no ensino de pessoas com limitações visuais.

05/01/2022  Última atualização 09H55
© Fotografia por: DR
   A introdução do sistema braille tem estado, pouco-a-pouco, a quebrar o "tabus e mitos” junto das famílias”, que fazem um julgamento precipitado, alegando que as pessoas com deficiência visual não têm possibilidade de aprender a ler e a escrever, estando, à partida, condenadas ao fracasso.


"As pessoas é que criam mitos tabus  à volta de situações simples, que distanciam estas as pessoas da sociedade. O que estamos a fazer nesta escola, aqui no Huambo, com o sistema braille, está a mudar a vida de muitas pessoas, graças ao empenho e dedicação dos professores”, destaca.


Vuvu Joaquim João aponta, como exemplo, o caso de três ex-alunas da escola, que frequentam o ensino superior, no ISCED. São duas no primeiro ano e uma no segundo, no curso de biologia. "Temos, ainda, quatro colegas, portadores de deficiência auditiva, que se formaram aqui e terminaram o ISCED. Entraram no concurso público e hoje são nossos colegas.”


O sub-director pedagógico explica que, apesar desses avanços, há um longo trabalho de sensibilização a ser feito, para que as crianças e adultos com deficiências visuais e não só, sejam matriculados ou façam cursos, realçando que o braille, escrita e leitura táctil, foi concebido "de uma genialidade” fácil de aprender. 


 
  "A discriminação começa nas próprias famílias. Ser cego não é  inválido, pelo contrário, os cegos chegam a desenvolver maiores habilidades do que muitas pessoas que têm visão. São capazes de muita coisa. Só carecem de adaptação devido à limitação da visão.” 


O Complexo de Ensino Especial, no Huambo, garante, com quatro professores formados na área, o ensino com o sistema braille da iniciação à quinta classe, com catorze crianças, o primeiro ciclo, da sétima a 9 classe com cinco alunos, e o segundo ciclo, da 12 e 13 classes, um total de quatro estudantes.


  O número de crianças a frequentarem o ensino especial, no sistema braille, reconhece, está longe das metas traçadas pelo gabinete provincial da Educação, através da área para Ensino Especial, avançado que está, em curso, a expansão do mesmo para as outras localidades da província do Huambo.


 "Há, de facto, um número reduzido. É que, além das questões culturais e tabus, muitas pessoas, nestas condições, vivem em comunidades longínquas e não têm como se deslocar das áreas de origem para o centro da cidade”, diz Vuvu Joaquim João, frisando que, a cada ano, vem aumentando o número de crianças, com deficiência visual, que pretende estudar.


O complexo, a única escola no centro da cidade, revela, pode ter capacidade, em termos de salas, para atender estas pessoas, mas não há condições para estas pessoas saírem das suas localidades e virem à escola, devendo, disse, estudar próximas de casa, devido à limitação visual e dificulta a locomoção. 


"É preciso alguém da família acompanhá-lo, ou um guia, mas isso acarreta custos. Os directores de escolas, nos municípios, quando se depararem com situações de género devem recusar matricular estas crianças e solicitar apoio metodológico e pedagógico”, por se tratar de "um direito explanado na nossa Constituição.”


O ensino de deficiência visual, detalha o sub-director pedagógico, é uma área em que se utiliza muito material tecnológico, pelo que este complexo se debate com algumas dificuldades em termos de equipamentos, apesar de disporem de máquinas de berquin e pranchas, para escrita do braille, réguas adaptadas, pela própria escola, para aprendizagem do mesmo.

    
"Precisamos de mais máquinas. Temos algumas que nos ajudam bastante, mas não em número suficiente. Por exemplo, na escrita do sistema braille, não usamos o papel convencional, mas, sim, um papel específico que no nosso mercado não aparece”, afirma, acrescentando que, como alternativa, utilizam cartolina, mas com pouco tempo de durabilidade.



A comparticipação dos encarregados de educação, em suprir a carência de material, fosse fundamental, em virtude da escola não dispor de fundos para a sua aquisição, mas que têm recebido, sempre que possível, apoio do Instituto Nacional para o Ensino Especial e outras instituições de caridade.



Aprendizagem rápida


As crianças têm tido mais facilidade de aprendizagem do sistema braille do que os adultos. "Elas têm a visão limitada, pelo que o seu desenvolvimento cognitivo é muito maior. A aprendizagem, quando bem acompanhada, é mais fácil.”


Já os adultos, explica, quando atingem um determinado nível, no caso de jovens que perderam a visão por questões de saúde e acidente, e mesmo por questões genéticas, que foram, gradualmente, evoluindo para a cegueira, têm a maior dificuldade de se adaptar ao sistema. Há casos de adultos que estão, há três anos, na fase da introdução do alfabeto.



"É um sistema complemente táctil, a sua leitura é feita com as mãos. Os adultos não têm este sentido táctil muito apurado como as crianças"


Vuvu Joaquim João relata o caso de um rapaz, de 10 anos, que nunca estudou. "Nasceu cego, veio este ano lectivo, pela primeira vez, à escola. O primeiro trimestre ainda não tinha terminado e ele já aprendeu a ler e a escrever”, referiu, sublinhando que este sistema está a mudar a vida das pessoas.  

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