Desporto

O senhor imperador

Matias Adriano

Jornalista

Gerard Müller, um dos melhores artilheiros da antiga Alemanha Ocidental, melhor marcador nos mundiais de 1970 e 74, foi, enquanto garoto, o seu maior ídolo. Gostava que lhe chamassem por Müller. Nos trumunos do areal, na sua Maxinde natal, jogar à ponta de lança era o que lhe dava mais alegria. Fintava, corria, chutava e marcava golos fabulosos. Daí para guarda-redes de renome que veio a ser, a conversa é longa.

06/03/2021  Última atualização 15H55
Napoleão Brandão, tornou-se guarda-redes histórico © Fotografia por: José Cola | Edições Novembro
Napoleão Brandão, com quem falámos e de quem falámos, é, indubitavelmente, dos melhores, se não o melhor guarda-redes, que passou pelo futebol angolano. Foi um imperador de balizas, quiçá inspirado no chará Napoleão Bonaparte, outro imperador, cuja façanha nos remete para revolução francesa.
 O leitor alguma vez soube que este guarda-redes que anulou pontas de raiz também foi ponta?. "Comecei a jogar futebol como ponta de lança. Gostava fintar e marcar golos, e marquei muitos. O meu grande ídolo, à época, era Gerard Müller, e eu gostava que me chamassem por este nome”.

Guarda em memória a Obra Social da Maxinde, de Malanje, uma equipa pertencente à Igreja Católica, como a que lhe abriu as portas para o mundo do futebol. Pois, é ai onde tudo começa. "Tínhamos um grupo de amigos e fomos todos jogar na Obra Social pertencente à igreja. Tinha lá o padre Pedro, o padre Bernardo e outros. E eu sempre joguei à frente”.
Entretanto, conta que vez ou outra, quando lhe apeteceu dar umas fimbas, foi jogar à baliza. Terá sido, exactamente, aí que alguns perceberam que ele também tinha queda para guarda-redes. "Joguei muito tempo à ponta. O guarda-redes da nossa equipa chamava-se João Jerónimo. Certa vez chegou-nos a notícia de que Sabu Pacheco, que foi adjunto de Carlos Alhinho, iria para o Setubal ou Boavista. Ai tratamos de organizar um jogo para a sua despedida”.
Curiosamente, o jogo de despedida de Sabu Pacheco seria também o da sua metamorfose. "Nessa altura estou no ASA da Maxinde.

Formou-se uma selecção de outros bairros, para jogar connosco. Fomos jogar no campo da Sé Catedral. Lembro-me que nós ganhávamos por 2-0, com o próprio Sabu em campo. Mas o adversário, surpreendentemente, reduziu o resultado para 2-1 e logo depois fez o 2-2”.
Em função da inversão das coisas em campo, se impunha a necessidade de substituir João Jerónimo na baliza. "E todos achavam que o Napoleão é quem devia ir para a  baliza. Ainda ofereci alguma resistência. Dizia que eu sou Müller, eu sou o Müller sou homem de ataque. Às tantas, contra a vontade, cedi à pressão e fui jogar à baliza. Anulei todas investidas ofensivas, fizemos o terceiro golo e vencemos o jogo”.

Dai para frente Napoleão não voltou a jogar noutra posição. Passou à guarda-redes de eleição e aos poucos foi ganhando gosto da sua nova posição em campo. "A partir dai fiquei definitivamente adaptado à guarda-redes e fui ganhando gosto pela posição, até fazer a carreira toda como guarda-redes”.

 O PULO VITORIOSO
Chegada aos Dinizes


Ainda em idade de júnior, Napoleão deixa Malanje para Salazar (actual Ndalatando), naquilo que, em bom rigor, acabaria por ser a sua entrega às luzes da ribalta. Ressalva, entretanto, que a mudança de cidade não foi motivada pelo desejo de jogar futebol. Mas é nos Dinizes de Salazar onde começa a dar às vistas.  
"A minha ida ao Cuanza-Norte resultou do facto de a minha mãe, já separada do meu pai, ter arranjado um outro parceiro, que vivia em Ndalatando. Eu tinha ficado com o meu pai, mas depois de um tempo entendi seguir a minha mãe e deixei Malanje, com o futebol muito fora dos planos”, conta.

À chegada ao Cuanza-Norte, propriamente no bairro da Camundai, conhece outros amigos da sua faixa etária, com os quais passa a jogar futebol no bairro. "Em função da minha actuação, como guarda-redes, nas peladinhas de bairro, sou influenciado, por amigos, para ir treinar nos juniores dos Dinizes de Salazar. Como seria, se eu não conhecia lá ninguém? Era a questão”.
Como a sorte protege os audazes, da intenção para a acção o passo foi curto. "Eles próprios contactaram o clube e certo dia levaram-me lá, fui apresentado e depois submetido a perguntas básicas. "Tu sabes mesmo jogar na baliza”? "Não vais fazer comprometer os teu amigos”? Então mandaram-me aparecer dia seguinte para treinar com a equipa de juniores”.

A segurança evidenciada no primeiro treino foi determinante para o resto da carreira que viria conhecer o apogeu anos depois. "A minha prestação no primeiro treino, entre os postes, convenceu a todos que estiveram presentes na sessão, e deu-se razão àqueles que insistiram que eu fosse aos Dinizes, com argumento de que afinal estava a perder-se no bairro um bom guarda-redes. E ai fiquei”.

A ascensão à equipa sénior dá-se na sequência da deslocação a Cabinda, para a inauguração da iluminação do Estádio do Tafe. Havia uma crise de guarda-redes. Carlos Alberto estava com problemas de saúde, outro gurda-redes lesionado, de tal sorte que estava a ser equacionada a possibilidade de se emprestar um guarda-redes ao Lusitanos de Salazar, por sinal o "arqui-rival”..
"Eu tinha passado uma breve temporada no Uige onde tentei no Desportivo de Songo e no FC do Uige e acabava de regressar a Salazar. Um vizinho chamado Pirolito, apercebendo-se do meu regresso, deu a conhecer o clube e este enviou no mesmo dia um emissário em casa da minha mãe, para que me apresentasse, com urgência, ao clube. Pois não havia guarda-redes para o compromisso em vista. Alguns defendiam que ao lugar de emprestar um guarda-redes ao principal rival, mais valia apostar no guarda-redes júnior”.

Em Cabinda o show de Napoleão na baliza e o resultado, acabariam por determinar a celebração do primeiro contrato.
"Regressados de Cabinda, fui chamado pela direcção e acompanhado de uma pessoa adulta da família (um tio) e assinei um termo de compromisso, ao abrigo do qual passei a estudar à noite e treinar de manhã. Definiu-se um salário em escudos, que me permitiu deixar a casa da minha mãe e arranjar o meu espaço”.

  PELOS PALANCAS NEGRAS
"Fechei a carreira num jogo histórico”


Napoleão Brandão não tem memória de quantas vezes envergou a camisola da Selecção Nacional muito por falta de estatísticas. Mas calcula que terá defendido a baliza dos Palancas Negras entre 35 a 36 ocasiões.  O que lhe enche de orgulho, porém, é o facto de ter fechado a carreira num jogo histórico.
"Naquele tempo a selecção não fazia muitos jogos como agora. Por isso, é que acho que terei jogado ai 35 a 36 vezes com as cores nacionais. A última vez foi na Argélia, no tal jogo que nos qualificaria para o Mundial do México. Foi um jogo memorável, em que fui traído pelo vento que se fazia sentir no estádio para a Argélia marcar. Mas, é bom que as pessoas não se esqueçam, nesse jogo defendi muito”.

Sobre quem foi o primeiro guarda-redes da Selecção Nacional, culpa a Comunicação Social da época por deturpar a história. "Eu fui o primeiro guarda-redes da Selecção Nacional. Mas como houve antes um jogo, não oficial, em São Tomé, em que não fui, e quem defendeu foi o Manecas,  a imprensa catalogou-o com o primeiro guarda-redes.

  NO 1º DE AGOSTO
"Tenho orgulho de ter sido  jogador da primeira hora”


Quando, em  1977 foi formada a selecção militar de futebol, visando a participação nos Jogos do  SKDA-Comité Desportivo de Exércitos Amigos, o Grupo Desportivo da CPPA-Corpo da Polícia Popular de Angola, um embrião do que é hoje o Interclube, foi o que mais unidades forneceu, entre estas, estava Napoleão Brandão.

"A selecção militar era composta por todos jogadores de unidades militares. Pois, na época não existia Ministério do Interior. Só existia Ministério da Defesa. Quer os que estivessem nas unidades militares, quer os que estivessem nas esquadras policiais defendiam interesses militares. E foi assim que surgiu a selecção militar de futebol”.
Entretanto, explica que a mesma selecção foi formada já com um propósito, que consistia em dar corpo à constituição de um clube militar. "Foi assim que quando voltamos dos Jogos do SKDA, num belo dia o chefe Ndalu chamou o Nicola Berardineli e lhe disse que estavam com ideia de criar um clube militar.
O Nicola teve luzes e começou logo a mobilizar as unidades militares”.

Nicola Berardineli, que também era jogador, acabou bem sucedido nesta sua investida. "Não levou muito tempo para juntar um grupo de excelentes activos. Assim, àqueles que já formavam a selecção militar juntaram-se outros. Veio  Mendinho, da Marinha, Agostinho, da FAPA DAA, Luvambo e Garcia de Benguela, entre outros”.
Quando no dia 1 de Agosto de 1977 foi fundado o Clube Desportivo 1º de Agosto, a equipa de futebol já estava constituída e com todo o potencial. "Depois veio juntar-se outra malta, como Ndunguidi, Julião Dias e outros, cujos nomes escapam de momento. Todos estes são considerados de primeira hora, embora os primeiros, primeiros mesmo, sejam eu e o Apolinário Júnior”.

Por ai ficamos a saber que Ângelo Silva, outro guarda-redes do clube, chega muito depois. "O Ângelo já me encontra na equipa, quando veio do Sporting. O primeiro guarda-redes do 1º de Agosto, a quem substitui na baliza, foi Sidrak da Conceição, que em função da sua condição morfológica foi levado pelo professor Victorino Cunha para jogar basquetebol”.
Mas recorda que teve uma salutar concorrência com Ângelo Silva, quer no 1º de Agosto, quer na Selecção Nacional. "Éramos todos bons guarda-redes, e como tal a disputa era bastante salutar, porque também obrigava-nos a trabalhar mais. E na selecção pior ainda, porque tínhamos também o Manecas e o Carnaval. Foram bons tempos”.

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