Reportagem

O Semba no Marçal ontem, hoje e amanhã

O Salão Kwimbila Ny Kukina oh Semba do promotor cultural João Adilson, no Bairro Marçal, deu início em 8 de Dezembro do ano passado a um ciclo de palestras sobre as mais variadas questões sociais “como contribuição à formação integral” da comunidade marçalina, e não só. Chamado a inaugurar o ciclo de palestras, o músico Carlos Lamartine, de modo magistral, fez recurso ao seu triplo arcabouço de historiador, antigo morador e activista cultural dos tempos em que o Marçal era um dos principais berços do nacionalismo angolano de feição político-cultural. Eis a palestra de Lamartine, ligeiramente adaptada para publicação em jornal.

30/01/2022  Última atualização 08H15
© Fotografia por: DR
O Marçal entre os anos de 1950 a 1955 era um bairro escuro, sem água canalizada e sem luz eléctrica nas casas e nas ruas que circundavam a sua área geográfica. Gasômetros e Petromaxes, alguns candeeiros de lata, iluminavam os quintais das principais lojas existentes, assim como de algumas moradias de gente importante daquela época. Para iluminar as várias habitações dos populares o comércio de velas de cera veio minimizar as dificuldades de visualização interna nos módicos lares.


Marçal era a denominação do conjunto do seu território, mas este estava subdividido por um conjunto de designações que compreendiam as suas diferentes localidades de habitação das famílias.  Havia o Cabeça, o Ceará, o Barros e Gayate ou Cayate, o Sete, o Xamavo, a Zona do Zangado, dentre outras designações que compreendiam os distintos musekes.

Nestes musekes habitavam importantes famílias cujas residências circundavam as lojas dos principais comerciantes nas referenciadas localidades. O Anibal, o Moreira,  que deu nome à celebre Lagoa do Moreira que o carnaval de Luanda imortalizou, o Manuel Teixeira, o Vieira, o Sucena, o Piegu, o senhor Domingos, dentre outros, foram os principais incentivadores do desenvolvimento sociocultural do Marçal, a par da grande contribuição dada pela Serração Bailundo, o maior pólo industrial do tempo. Junto desta passava a linha do Caminho de Ferro, com o apeadeiro dos comboios que circulavam permanentemente entre Luanda e Malanje e vice e versa.

Mas, como queremos falar de cultura, situemos então quem lhe dá corpo. Eram inúmeras as famílias que residiam nessa época no Marçal. Vamos referenciar algumas de maior relevância: Fontes Pereira, Pereira da Gama, Lemos, Contreiras, Piedade, Dias dos Santos, os Costas, Soares da Silva, Escórcio, Vieira Dias, os Van-Dúnem, Mingas, Veiga, Serrão da Veiga, Ferrão, André (os Cabindas), Sousa, Pereira de Sousa, Assis, Cristóvão de Assis, Faria de Assis, os Bravos, Cordeiro da Mata, Olim, Teixeira, Morais, Sousa Neto, etc.

Os nomes de muitas dessas pessoas estão directamente vinculados às grandes manifestações culturais desse tempo e dos tempos que se lhe seguiram. Foram eles próprios, ou os seus filhos e netos que dinamizaram as danças dos carnavais, que já vinham desde os finais do século XVIII e durante o século XIX, dinamizaram as danças da Masemba nos Grupos de Rebita, as danças dos Grupos de Kilapanga associados aos núcleos dos santomenses e dinamizaram as serenatas com o apoio dos cabo-verdianos que aportavam ou residiam em Luanda.


Das Turmas aos Conjuntos

De entre 1956 aos anos de 1961, tendo em conta já a elevação do nível de escolaridade e de informação cultural que os jovens foram paulatinamente adquirindo, também, foram sendo realizadas novas formas de recreação e de participação nas velhas e novas manifestações culturais.

Nessa altura começaram a surgir as Turmas, das quais referenciamos: Os Kisweyas, o Muxima Ixikelela, Os Muloges do Ritmo, Os Vagabundos do Ritmo, dentre outras. Dessas turmas algumas vão evoluir para a existência, em 1964, do Conjunto Makoko Ritmo, Conjunto Angolano que vai dar no célebre Ngoma Jazz do Mangololo, Sebastião Matumona, Petenguê trazido do Kongo Leopoldville pelo empresário Dominique, que acabou por fixar residência no Marçal junto da loja do senhor Manuel em frente da Serração Bailundo.  

Nesse período começaram-se a organizar e realizar as festas de aniversário com música de gramofone, de gira-discos e mais tarde de gravadores.  Nalguns casos dançava-se com a emissão das músicas das principais emissoras de rádio, como a Emissora Oficial, a Rádio Clube de Angola e da Rádio Ecclésia audíveis em Angola, senão quando muito, ouvia-se para dançar a Rádio de Leopoldville, de Brazzaville ou da Tanzânia nas quais ouvíamos os grandes sucessos das músicas africanas e de Cuba, do tempo.

Nesse período passaram a existir no Marçal os grandes salões de farras colectivas, o Caravana, o Luar das Rosas, o Salão Azul, que se tornaram grandes referências para a animação dos nossos compatriotas de parcos recursos financeiros.
Só alguns jovens "atrevidos” da elite africana entravam nesses salões. Havia também o Salão da Idalina que dava festas apenas para animação das grandes patentes dos integrantes da Tropa portuguesa. Às raparigas, na generalidade, não lhes era permitido frequentarem esses e outros salões, independentemente da sua zona de instalação.

Junto da então Rua do Brasil existia o Centro Sociocultural BOTAFOGO, que integrado pela juventude ilustrada realizava as manifestações culturais e recreativas para gáudio da comunidade africana de estudantes e pequenos funcionários, assim como, de alguns trabalhadores de profissões liberais, moradores ou não do Marçal. Todos esses beneficiavam-se também das acções culturais e recreativas organizadas pela Liga Nacional Africana, sedeada no Bairro da Vila Clotilde, hoje zona da Ingombota.   Destacou-se, nessa época, o Salão de Bailes de Quintal do Senhor Jacinto, então promotor de farras de contribuição entre os seus privilegiados frequentadores devidamente seleccionados.


Após o 4 de Fevereiro de 1961

Com o advento do 4 de Fevereiro de 1961 – Data do Início da Luta Armada de Libertação Nacional de Angola, foram várias as festas e vários os actos culturais organizados no Marçal. Com o surgimento dos vários conjuntos musicais dispersos pela praça habitacional de Luanda, em 1965 é criado pelo seu timoneiro Domingos de Sousa Neto, o Sporting Clube da Maxinde, um clube desportivo que militou e foi campeão da 2ª. Divisão Provincial de Futebol.

O clube organizava festas com programa de espectáculos para comemorar efemérides e, também, para angariar fundos que lhe permitiam a sua sustentabilidade.  Com a experiência desse clube, transformado em centro recreativo, surgiram na sua sequência, alargando o leque de instituições do género, o Giro-Giro do Lomelino Batalha e o Clube Desportivo Bom Jesus. Com o alargamento dessas infraestruturas recreativas surgem novos conjuntos como Os Kiesus, formado em 1965, o Águias Reais e o África Show em 1968, depois aparece o Bossa 70 em 1970, dentre outros pequenos grupos.

Com o funcionamento desses clubes transformados em centros culturais, associado a participação regular dos conjuntos mencionados, o Marçal torna-se o centro de atracção dos visitantes de outros bairros, outras gentes, inclusive a camada branca da cidade do asfalto que sobe aos musekes para se recrearem na afinidade com os africanos. Uma grande simbiose se estabelece e o convívio mais salutar se desenvolve eliminando as fronteiras raciais que o colonialismo praticava na calada das suas realizações opressoras.

O Marçal, até o período histórico do 25 Abril de 1974, era o centro de convergência dos artistas, dos conjuntos de Luanda e do estrangeiro, só suplantado pela evidência carismática do célebre Ngola Cine, antecâmara das aspirações de todos artistas angolanos daquele tempo. Da sua espiritualidade ancestral o Marçal dinamizou, através dos seus referenciados agrupamentos musicais, o género, o ritmo, o canto e a dança do Semba como a sua maior manifestação recreativa e para a recreação das suas populações e outras que nela se vinham recrear.

Com cantores como Malê Malamba (Fontes Pereira), Fontinhas, Artur Adriano, Carlos Lamartine, Gregório Mulato, Vate Costa, Juventino Arcanjo, Sabu Guimarães, Nito Nunes, Belita Palma, Lourdes Van-Dunen, Massano Júnior, Manuel Faria, Bonga (Barcelô de Carvalho), Avozinho, partilhando os palcos com os demais artistas de Angola e do Mundo Cultural elevaram o Semba ao mais alto pedestal do reconhecimento mundial, colocando-o, hoje, como uma referencial de atenção.


Berço do Semba

Todos hoje cantam o SEMBA, todos querem cantar o SEMBA, todos querem dançar o SEMBA, muitos hoje querem estudar o SEMBA. A história do Semba determina-lhe uma avaliação de continuidade nos tempos de hoje para preservá-lo no futuro e mantê-lo como imprescindível factor de identidade cultural nacional. Fruto de uma certa transmutação sociológica dos idos tempos após a independência nacional, alcançada aos 11 de Novembro de 1975, o Semba tem vindo a ser influenciado nas suas matrizes culturais e humanas, correndo riscos de subordinação às outras culturas no mundo, perante as confusões rítmicas e estilísticas do bom gosto da cultura ocidental europeia.

Um esforço perene e sublime tem sido encetado e engajado pelos proeminentes filhos e moradores ilustrados e conscientes do Marçal para a sua defesa, com obras musicais de alto e revolucionário valor temático, rítmico e culturalmente angolano, africano.  Um trabalho dedicado, com esforço titânico, tem sido realizado para a elevação do SEMBA a Patrimônio Cultural Material e Imaterial da Humanidade. Não é, nem está fácil. Mas nós vamos lá.
Vamos reconstruir a cultura do Marçal, um bairro de História.

Carlos Lamartine (XiKwambi da Costa)

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login