Reportagem

“O sedentarismo não se nota apenas nos mais velhos”

Alberto Geraldo é um jovem de 27 anos que, desde muito cedo, ganhou o gosto pelo desporto e a consciência de uma vida saudável, de hábitos que, como disse, ajudam a prolongar a vida.

10/03/2022  Última atualização 06H40
Nem todos os que recorrem a um preparador físico fazem-no a pensar na saúde, mas no corpo tonificado, diz Alberto Geraldo © Fotografia por: DR

Ele é "personal trainer" há cinco anos e faz da actividade a sua profissão. Diz-se apaixonado pelo desporto e exercícios físicos desde a adolescência, tendo começado com a natação e o judo. Aos 17 anos foi jogar futebol, mas decidiu desistir e estudar Educação Física.

O preparador físico associa-se ao Dia Mundial do Combate ao Sedentarismo, que hoje se assinala. Ele diz que existem muitas pessoas sedentárias no país, fundamentando a teoria com o facto de ver nas pessoas um modo de vida distante dos exercícios físicos e hábitos alimentares que levam a doenças como hipertensão e a diabetes.

O "personal trainer” ga-rante que nem todos os que recorrem aos seus serviços fazem-no a pensar na saúde. Muitos que o procuram vão com o intuito de ter um corpo tonificado ou musculado, sem qualquer preocupação ou conhecimento da real importância dos exercícios e de um estilo de vida saudável.

"Acredito que temos muitas pessoas sedentárias, principalmente em Luanda, onde um número considerado que não se preocupa com o que come e em ter um estilo de vida saudável. São muitos os que perdem noites, fazem muita ingestão de bebidas alcoólicas, consomem alimentos que aumentam a gordura e os açúcares no sangue, que propicia as diabetes e outras doenças pulmonares ou respiratórias”, realçou.

O preparador físico diz acreditar que o sedentário não está só nos mais velhos, mas também nos jovens que têm um modo de vida sem a prática de exercícios físicos ou desportos. Ele nota ainda que muitos dos seus alunos o procuram, primeiro, para terem um corpo tonificado e só depois dos seus conselhos e orientação enveredam por uma alimentação e estilo de vida regrados.

Para Alberto Geraldo, o sedentarismo deve ser combatido, por causa dos males que causa na sociedade, aconselhando, para o desenvolvimento de um país, a disciplina de Nutrição nos curriculares escolares e uma maior apostas no desporto nestas instituições.

Aponta o aumento do peso, o colesterol alto, as doenças cardiovasculares, a falta de sono e a diabetes como alguns dos males causados pelo sedentarismo. Para o treinador, deve-se também dar uma atenção especial às crianças que muito cedo ganham hábitos sedentários, com preferência pelos jogos electrónicos, em detrimento das brincadeiras de corre-corre ou ao ar livre.

Alberto Geraldo destacou a importância de actividades como andar de bicicleta, caminhar, natação e outras, que obrigam a movimentação, para combater futuros adultos sedentários.

"Devemos diminuir nas crianças o hábito de ver muita televisão, de estar horas nos tablets e telefones; devemos dar primazia a brincadeiras que estimulem o físico, a mente. É preciso notar que nem sempre a criança magra é a mais saudável. Algumas podem estar magras e aparentemente saudáveis, mas terem uma vida sedentária ou níveis altos de colesterol”, destacou.

De acordo o preparador físico, para sair do sedentarismo e ter hábitos que prologuem e propiciem uma melhor qualidade de vida, é necessária a prática de actividades físicas, uma hora no máximo, durante três vezes por semana. Aconselha, igualmente, uma alimentação saudável, dando sempre preferência a produtos naturais, evitar "fast foods” e refrigerantes, adoptar caminhadas, trocar os elevadores pelas escadas, fazer compras a pé e evitar a condução desnecessária.

Alberto Geraldo diz que a actividade que desenvolve tem sido lucrativa e o  ajuda a levar a vida. No caso de alguém que trabalha numa academia e ainda tem alunos que orienta de modo individual é melhor e mais lucrativo.


  Psicóloga clínica considera ser um mal da época moderna


A psicóloga Clínica Suzana Diogo considera o sedentarismo um mal da época moderna e do avanço das tecnologias.

"Hoje, há mais pessoas em regime de teletrabalho e desempregadas, condição que os motiva para a vida sedentária”, ressaltou. Passar muitas horas diante de uma televisão, do computador ou ficar um longo período sentado e sem movimentar o corpo é uma das  formas de representar este estilo de vida, que pode afectar negativamente a saúde física e a saúde mental, explica a psicóloga. Suzana Diogo referiu que qualquer actividade física é benéfica para a saúde. Porém, recomenda que seja feita de forma controlada e moderada, de maneira a não prejudicar ainda mais a saúde do corpo e da mente.

Segundo a psicóloga, a OMS define sedentarismo como sendo a ausência de movimento do corpo num período de pelo menos 150 minutos semanais, equivalentes a pelo menos 20 minutos diários.

"De entre os principais motivos pelos quais as pessoas abandonam o sedentarismo está a busca pelo corpo perfeito, fenómeno que cresce  exponencialmente em Angola e no mundo. Não deixa de ser uma mais-valia, ou um bom princípio, mas é importante que os exercícios físicos sejam aliados, principalmente, à busca pela saúde”, sublinhou.

Para a especialista, a prática de actividades físicas garante, além da boa forma física, bem-estar emocional, ajuda a elevar a auto-estima, aumenta o auto-cuidado, melhora a aprendizagem e constitui uma excelente técnica natural e menos custosa para lidar com a ansiedade e depressão leve e moderada.

"Ouve-se falar, com maior incidência, dos efeitos físicos do sedentarismo e poucas vezes dos efeitos destes sobre a mente. Segundo especialistas, a pessoa sedentária está propensa a desenvolver ou agravar doenças do fórum físico, como osteoporose, hipertensão, diabetes, AVC e outros estados do fórum mental, como transtornos de ansiedade, depressão, transtorno de hiperactividade com défice de atenção (TDHA)”, elucidou.

A prática de exercícios físicos, acrescentou, contribui para a diminuição dos sintomas de ansiedade e de depressão. Segundo a psicóloga, o ser humano precisa de se movimentar - salvo se alguma condição médica o condiciona. Por meio disso, a mente descontrai, deixando de lado os pensamentos negativos, e o corpo libera hormônios, como a endorfina, que provoca uma sensação de felicidade e bem-estar ao organismo e ajuda a diminuir  os níveis de stress. Por outra, continuou, também aumentam os níveis de serotonina e dopamina no cérebro, que ajudam a melhorar o humor, o sono e a concentração.



 Perigo para  a depressão


Suzana Diogo referiu o sedentarismo como algo que pode ser um grande impulsionador para a depressão. Do mesmo modo, algumas pessoas tornam-se sedentárias devido a essa condição mental, a exemplo de pessoas que perderam o interesse pela vida, pelo cuidado do corpo e pela interacção com os outros.

"Ao movimentar o corpo sentimo-nos mais motivados e isso afecta positivamente o nosso humor, tornando-nos mais hábeis ao trabalho, mais afectuosos, menos stressados e ao mesmo tempo mais dinâmicos”, esclarece.

Para a psicóloga, podemos relacionar o corpo humano a um carro, que, se deixa de funcionar durante muito tempo, tende a perder qualidade e força.

"O mesmo acontece com o nosso corpo, que perde energia, se se acomoda. Ao não fazer nada, deixa de desempenhar determinadas funções com alguma qualidade, adoece e se torna vulnerável a contrair certas patologias”, exemplificou.

Segundo Suzana Diogo, o sedentarismo pode afectar qualquer um, independentemente do sexo ou da idade. Por isso, recomenda a prática de exercícios, devidamente selecionados, para todos, incluindo crianças, idosos, pessoas com deficiências e mulheres grávidas, como forma de melhorar a cognição, fortalecer a musculatura e coordenação motora e reduzir os riscos de depressão pós-parto.

"O sedentarismo é uma realidade a nível do mundo e precisa de ser modificada”, destacou.

As consequências do sedentarismo incluem uma ampla gama de condições de saúde e têm se tornado uma questão de saúde pública segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 23% dos adultos e 81% dos adolescentes de 11 a 17 anos são fisicamente inativos, seguindo um estilo de vida com falta de actividade física, consequentemente, gasto calórico reduzido.

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