Opinião

O ruído das coisas e o murmúrio das gentes

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Os ruídos das coisas fazem parte da vida real das pessoas, enquanto que ao murmúrio das gentes, que já houve alturas que denominámos de “mujimbo”, passou às redes sociais e esvaziou-se: ajudam a consolidar a opinião publicada, mas só serve interesses políticos quando coincide com os interesses do poder, caso contrário é “fait divers”, qualquer coisa de anedóctico que esquecemos tão logo lemos o post seguinte

26/04/2022  Última atualização 06H25

O ruído das coisas e o murmúrio das gentes fazem parte das alegrias, do caos e dos dilemas da vida quotidiana: o copo de vidro que vibra ou a folha de papel que voa; a garrafa que agitamos ou a mesa que chia; a porta que fecha ou a janela que abre; os gritos das crianças a brincarem no quintal ou os cânticos do coro da igreja ao lado; as palavras de ordem nos comícios e as músicas de campanha, todos eles nos ajudam a compor a casa dos sentidos da nossa existência e, desfrutando com eles ou rejeitando-os, a definir o lugar que ocupamos, numa sociedade dada.

Nem sempre são perceptíveis e, por isso, por vezes, passam despercebidos: se tornam parecidos às correntes de ar e quase ninguém dá por eles. "Desconseguem" preencher o vazio, mas estão aí para distrair-nos, uns animam, outros deprimem. Alguns deles mesmo sendo breves e, se calhar, até mesmo escorregadiço, se estivermos atentos, conseguimos distingui-los ainda que camuflados entre muitos: o paradoxo entre os silêncios que fazem ruídos e os ruídos que participam dos silenciamentos dão corpo às narrativas ausentes.

Pelo seu ritmo e volume, os batimentos do coração emitem um som que difere daquele que sai do ventre quando vazio; o ruído da máquina de lavar ligada e a trabalhar não é o mesmo o que a geleira emite; o rádio ligado soa diferente do televisor; a vara mágica com a qual fazemos o batido de frutas faz-se notar de um modo diferente do ferro de engomar; ao arrastar-se pelo chão a vassoura e a pá fazem ruídos diferentes: podemos compor o nosso dia-a-dia através da banda sonora dos objectos que utilizamos.

Todo corpo emite um som específico em função da matéria que o compõe, das variações de temperatura, do facto de estar cheios ou vazios, ao rolarem ou ao ser arrastado sobre uma superfície, mas, também, pelos gestos que incidem sobre ele: se é ruído, murmúrio, fala ou discurso isso é algo que devemos descodificar caso-a- caso. Predominam os sons de um barulho inglório e decadente, dos que anestesiam com festas.

 Pode acontecer que um ou vários corpos, coisas ou gentes emitam sons quando induzidos por outrem e, por isso, são de um tipo que não podemos perder nem ignorar: funcionam como caixas de ressonância e, nesses casos, não sendo neutrais obedecem a um propósito específico, amiúde diferente da própria vontade deles. Não agem como sonâmbulos: pode ser reflexo da educação e das convicções.

 Sobre o ruído das coisas e o murmúrio das gentes pouco se tem escrito. Os ruídos das coisas fazem parte da vida real das pessoas, enquanto que ao murmúrio das gentes, que já houve alturas que denominaámos de "mujimbo”, passou às redes sociais e esvaziou-se: ajudam a consolidar a opinião publicada, mas só serve interesses políticos quando coincide com os interesses do poder, caso contrário é "fait divers”, qualquer coisa de anedóctico que esquecemos tão logo lemos o post seguinte.

Entre o ruído das coisas e o murmúrio das gentes deverá interpor-se, no espaço público, a opinião fundamentada e o juízo com critérios.       

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