Opinião

O regresso do unilateralismo

Faustino Henrique

Jornalista

“Queremos que a Ucrânia continue a ser um país soberano, um país democrático capaz de proteger seu território soberano. Queremos ver a Rússia enfraquecida ao ponto de não poder mais levar a cabo acções como a invasão à Ucrânia”, foram palavras proferidas pelo Secretário de Defesa do Estados Unidos, Lloyd Austin III, corroboradas pelo Secretário de Estado, Anthony Blinken, ambos de visita recente a Kiev, que espelham, provavelmente, uma mudança significativa no que são as verdadeiras intenções da Administração Biden.

30/04/2022  Última atualização 07H55

Se juntarmos a essas palavras do chefe do Pentágono à aprovação recente do projecto de lei que simplifica o programa de empréstimo e assistência militar da era da Segunda Guerra Mundial, para fornecer mais rapidamente à Ucrânia, não há dúvidas de que Washington, embora numa guerra por procuração, assume o conflito abertamente como seu e com todas as consequências que podem decorrer para uma confrontação ao directa entre Estados Unidos e Rússia.

Os Estados Unidos parece decididos a ir até às últimas consequências no apoio à Ucrânia, uma realidade que, no médio prazo pode mudar o curso dos acontecimentos sobretudo se os apoios revestirem-se de armas pesadas como os ucranianos solicitam.

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia no dia 24 de Fevereiro, os Estados Unidos forneceram mais de  3,7 mil milhões de dólares em armas para Kiev, desde mísseis antitanque Javelin, passando por drones de combate Switchblade a 90 obuses para ajudar a combater a artilharia russa.

Ainda assim, há quem pense que Washington está a fazer pouco para ajudar a Ucrânia, numa altura em que congressistas dos dois partidos, republicanos e democratas, foram mencionados pela imprensa americana a alegar que os Estados Unidos não se estão a mover com rapidez suficiente para ajudar os ucranianos.

A administração liderada por Joe Biden anunciou também esta quinta-feira que irá pedir ao Congresso mais 33 mil milhões de dólares (cerca de 31 mil milhões de euros) para ajudar a Ucrânia a resistir à invasão russa, além dos quase 13,6 mil milhões de dólares (cerca de 12,9 mil milhões de euros) aprovados pelo Congresso em Março.

Com esta avalanche de apoio americano à Ucrânia, acompanhado de gestos mais ou menos semelhantes por parte de outros parceiros, a guerra da Ucrânia está claramente a tomar  contornos perigosos, realidade que já levou a Rússia a advertir os Estados Unidos.

Há dias, a Rússia enviou uma nota diplomática oficial a Washington, alertando-a contra o envio de mais armas para a Ucrânia, um protesto que, seguramente, a adminsitração Biden vai fazer ouvidos de mercador, mas que pode ter as suas reais implicações, sobretudo se o conflito conhecer uma viragem gradual favorável à Ucrânia.

Anatoly Antonov, embaixador russo em Washington, avisou que a Rússia não encara com bons olhos o facto de os "Estados Unidos continuarem a despejar armas na Ucrânia”, tendo exigido o fim desse procedimento perigoso, na visão do diplomata.

Por sua vez, Tony Blinken, o secretário de Estado, acrescentou que os EUA implementaram uma estratégia de "apoio maciço à Ucrânia, pressão maciça contra a Rússia, um passo ou conjunto de passos que poderão "encurralar” o país de Vladimir Putin e levá-lo a recorrer às armas nucleares como tem feito referência em caso de ameaça grave aos interesses russos.

A efectivar-se a estratégia avançada em Kiev por Lloyd Austin, de enfraquecimento da Rússia ao ponto de nunca mais voltar capacidade de invadir nenhum outro país da Europa nos moldes em que o faz na Ucrânia, representa uma mudança que terá implicações geopolíticas monumentais.

Para a Rússia, interessará uma estratégia que leve a criação da zona tampão desde o Sul de Odessa, pasando pela cidade portuária de Mariopoul, unindo-as às repúblicas separatistas de Luhansk e Donetsk, fechando rapidamente um cordão de segurança que servirá de "fronteira” entre o futuro território ucraniano no seio da OTAN e retirar-se rapidamente.

Se forem atolados nesta guerra, como parecem pretenderem os americanos, confiados que estão no jogo de forças das duas economias, completamente desfavorável para a Rússia, os russos poderão perder mais do que pretendem, nomeadamente a Crimeia, todas as localidades a Leste, das quais a Rússia pretende transformar em zona tampão.

Um facto tende ser indesmentível, nas condições actuais e atendendo as variáveis correntes, no curto prazo a Rússia ganha porque parece ter já conseguido 70 a 80 por cento do que pretendia, mas no médio e longo prazo, caso o conflito continue, como parece pretender o Ocidente com o fluxo de armas que enviam para o teatro das operações militares, poderá emergir a componente económica desta guerra.

Mas caso a primeira perspectiva se efectiva, não há dúvidas de que os ecos poderão fazer-se sentir em muitas partes do mundo porque parece estar também em jogo a continuidade da supremacia do Ocidente nos moldes em que se processa como seu Diktat aqui e acolá. Enquanto os parceiros do Ocidente esperam que os valores ocidentais prevaleçam, não há dúvidas de que países que se opõem ou que resistem, mesmo discordando da guerra na Ucrânia, esperam eventualmente por uma espécie de novo desenho da Ordem Mundial. Países como a China, Índia, Hungria, Bielorrússia, Venezuela, Coreia do Sul, Irão, Zimbabwe, apenas para mencionar estes, que, não concordando necessariamente e em tudo com a Rússia, desejam que esta não saia desta guerra derrotada e humilhada sob pena do regresso a um mundo unipolar.

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