Cultura

O regresso do Conjunto Angola 70

Analtino Santos

Jornalista

O regresso do Conjunto Angola 70 no primeiro dia do festival multidisciplinar “O Futuro Já Era”, no sábado da semana passada, marcou a nova fase de actividades culturais no Cine São Paulo. O concerto teve como tema “Kutonoka Vibes”, uma alusão aos espectáculos populares realizados nas décadas de 1960 e 1970 e que lançaram muitos artistas

23/06/2024  Última atualização 11H20
© Fotografia por: DR

Em palco no Cine São Paulo estiveram Teddy Nsingi, Joãozinho Morgado, Botto Trindade, Raúl Tollingas e Dulce Trindade, integrantes da formação Angola 70, a que se juntaram Mias Galhetas, Bucho Brás, Legalize e Brando. O concerto foi uma parceria entre a Mano a Mano Produções e a Brasom, que aceitaram o desafio do Goethe Institut Angola. De realçar que a última aparição do Conjunto Angola 70 aconteceu em Outubro de 2018 em Lisboa, num concerto que teve como convidado Paulo Flores. 

O espectáculo foi uma viagem sonora aos sucessos que marcaram a época que motivou o nome do grupo, Conjunto Angola 70. Os temas instrumentais estiveram em evidência no concerto e ficou patente desde a música de abertura, "Farra da Madrugada”, original de Zé Keno solada magistralmente por Teddy Nsingui.

No momento seguinte, Botto Trindade mostrou como conquistou o país com "Benguela Libertada”. Também recriou Marito dos Kiezos em "Semba Henda”, "Saudade de Luanda” e "Muxima”.

Teddy mostrou mestria em "Pôr-do-Sol” e "5 de Junho”, que marcam duas fases de Zé Keno, com Os Jovens do Prenda e Os Merengues. O convidado do Conjunto Angola 70 foi o guitarrista Hildebrando da Cunha "Brando”, que brindou o público com os seus sucessos "Agarrem” e "Pica o dedo”.

Ao longo do concerto Raúl Tollingas, na dicanza, mostrou a ginga e a marcação do Semba, numa cumplicidade com Joãozinho Morgado nos tambores. E para complementar a secção percussiva, Bucho Martins executava os bongós. Dulce Trindade segurou a viola ritmo para levar o corridinho da cadência do Semba e Mias Galhetas comandava o andamento no baixo. 

Legalize levou ao palco a capacidade de interpretação de artistas dos anos 70 como David Zé, Urbano de Castro e Óscar Neves quando soltou a voz em "Sofredora”, "Semba Avô” e "Avenida Brasil”. Na parte final, Legalize cantou o semba "kazukutado” dos Kiezos, com "Comboio”, "Ché Ché Mãe”, "Rosa Rosé” e "Princesa Rita” no encerramento agitado e apoteótico do concerto. 

 
Mestres da Música

O Conjunto Angola 70 surgiu em 2011 para executar a música angolana dos anos 60.  A intenção foi a de reunir os melhores músicos que despontaram entre os anos 60 e 70 e que continuavam no activo.

Na formação original estiveram Botto Trindade e Teddy Nsingi (solistas), Carlitos Timóteo e Dulce Trindade (violas baixo e ritmo), Joãozinho Morgado (congas), Raúl Tollingas (dikanza) Chico Montenegro (bongós e vozes) e Mamukueno. Depois colaboraram Gregório Mulato (mukindo), Zé Fininho (dikanza), Correia (congas), Zecax, Mister Kim e Legalize como vocalistas.

O projecto já passou em alguns palcos internacionais, tendo sido acolhido em diversos países, com destaque para a Alemanha, Bélgica, Dinamarca, França, Holanda, Marrocos, República Checa e Suécia.

Para o mentor do Conjunto Angola 70, O taniel Silva "Mano”, a actuação do grupo na reinauguração do Cine São Paulo foi quase espiritual. "Algo que nos remonta ao período áureo da nossa música, os anos 70, o que chamo de Kutonoka Vibes”, disse o produtor cultural a partir dos Países Baixos. "Infelizmente, por razões de vária ordem, não pude estar fisicamente, mas a magia está feita e isso por si só tem um valor super especial para mim”. 

 
Monumento do passado

O Goethe Institut Angola justificou a escolha do local do projecto "O Futuro Já Era” porque viu na arquitectura do Cine São Paulo um lugar ideal para os eventos que se estendem até 28 de Julho. Durante o período do festival o espaço vai ficar aberto todos os dias, excepto à segunda-feira.

"Não tínhamos que fazer muitas obras. Percebemos que o cinema ainda tinha condições para realizar um festival. Para nós, a coisa mais importante foi a renovação da tela, electricidade e sanitas. Foram feitas muitas coisas para revitalizar este cinema, que andava adormecido. Está mais bonito e pode voltar a ser um espaço de promoção de cultura”, disse Julia Schreiner, directora do Goethe Institut Angola.

É importante frisar que as intervenções feitas no Cine São Paulo pelo Goethe Institut Angola servem de paliativo, porque o velho cinema ainda está longe de voltar a ser uma sala como no passado. 

 
Os desaparecidos cinemas

O Cine São Paulo foi inaugurado no fim dos anos 60 com um novo conceito: casa de música, sala de cinema e de festas. A infraestrutura foi implantada na zona da Paróquia de São Paulo, onde já existia o Cine Colonial. Os dois espaços eram frequentados principalmente pelos moradores dos bairros São Paulo, Operário, Sambizanga, Marçal e Rangel. O Cine Colonial já não existe. 

Em Luanda existiam outras salas de cinemas, como o  Cine Restauração, onde funcionou a Assembleia Nacional, o Cine Teatro Nacional, o Cine Tropical,  Avis (Karl Marx), Cine Império (hoje Altântico), Tivoli, Cine Ngola, Cine Alfa, São João, e outros. Nas restantes províncias também existiam uns tantos cinemas, grande parte dos quais estão documentados no livro de fotografias "Angola Cinemas” do fotógrafo Walter Fernandes e do actor Miguel Hurtz.

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